Relatório global aponta estagnação nos investimentos em agrotecnologia, enquanto tecnologias climáticas, biotecnologia e soluções produtivas atraem capital mais seletivo
O investimento global em agrotecnologia entrou em uma fase de estabilização após a forte retração que seguiu o pico de financiamento em 2021. Segundo o Relatório Global de Investimento em Agrotecnologia 2026, da AgFunder, o capital direcionado ao setor permaneceu praticamente estável em US$ 16,2 bilhões em 2025, enquanto o número total de negócios caiu 12%.
Mais do que a estagnação dos valores, o relatório indica uma mudança estrutural no perfil do capital que chega ao setor. Investidores passaram a priorizar tecnologias com impacto direto na produção de alimentos e na resiliência do sistema agrícola, em um momento em que mudanças climáticas, instabilidade geopolítica e pressão sobre recursos naturais estão transformando a cadeia global de alimentos.
Pressão sobre o sistema alimentar redefine prioridades
A reorganização do capital ocorre em paralelo ao aumento das tensões sobre os sistemas alimentares globais. Eventos climáticos extremos, escassez hídrica, degradação do solo e falta de mão de obra agrícola estão pressionando a produção, enquanto tensões comerciais e conflitos geopolíticos continuam a reconfigurar cadeias de suprimentos.
Em 2025, essa pressão ficou evidente na volatilidade de preços de commodities agrícolas como café, cacau e grãos, impactadas por eventos climáticos e instabilidade nos fluxos comerciais.
Nesse contexto, investidores passaram a direcionar recursos para tecnologias que atuam diretamente na produção agrícola.
Capital migra para soluções dentro da fazenda
Startups que operam na cadeia produtiva — incluindo tecnologias agrícolas, biotecnologia e soluções para produção de alimentos — captaram cerca de US$ 9 bilhões em 2025, crescimento de 7% em relação ao ano anterior.
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Em contraste, empresas focadas em modelos de distribuição e varejo digital de alimentos continuaram perdendo espaço. Setores antes dominados por aplicativos de entrega e supermercados online registraram retração significativa após o período de forte expansão durante a pandemia.
A mudança sinaliza uma reorientação do capital para tecnologias consideradas mais estruturais para o sistema alimentar.
Deeptech ganha relevância no agrifood
Uma das novidades do relatório deste ano foi a análise específica da deeptech agroalimentar, categoria que reúne empresas baseadas em ciência avançada, biotecnologia, novos materiais e engenharia de sistemas.
Nos últimos dez anos, a participação da deeptech nos negócios de agrotecnologia cresceu de 22% para 32%. Em rodadas iniciais (seed), essas startups recebem investimentos significativamente maiores: em média, as rodadas são 78% superiores às de outras áreas do setor.
Esse prêmio, porém, tende a desaparecer nas rodadas posteriores. Em 2025, nenhuma empresa de deeptech agroalimentar ultrapassou US$ 200 milhões em uma única rodada, enquanto startups de outros setores tecnológicos conseguiram levantar valores superiores.
Segundo o relatório, parte dessa cautela reflete experiências recentes do mercado. Entre 2019 e 2022, cinco das 33 empresas de deeptech agroalimentar que captaram mais de US$ 200 milhões acabaram encerrando suas atividades, principalmente nas áreas de alimentos inovadores e agricultura avançada.
Financiamento por dívida cresce no setor
Outra mudança relevante identificada no relatório é o aumento do uso de instrumentos de dívida no financiamento de empresas agtech.
Em 2025, o financiamento por dívida representou 18,2% do capital total investido no setor, a maior participação em uma década.
Empresas como Chestnut Carbon, Cambrian Innovation e Samunnati levantaram recursos significativos por meio de estruturas de dívida e financiamento em estágio avançado, sinalizando que algumas startups do setor já possuem receitas e modelos de negócio capazes de atrair esse tipo de capital.
Novas empresas voltam ao mercado
Após anos de retração no número de novos entrantes, a participação de empresas que receberam investimento pela primeira vez voltou a crescer. Em 2025, 46% das rodadas envolveram startups em sua primeira captação, indicando renovação do pipeline de inovação no setor.
Ainda assim, permanece a dúvida sobre a capacidade dessas empresas de levantar rodadas subsequentes em um ambiente de capital mais seletivo.
Tecnologias climáticas ganham tração
Entre as áreas que registraram crescimento no investimento estão as tecnologias climáticas aplicadas à agricultura. O financiamento nesse segmento chegou a US$ 3,9 bilhões em 2025, acima dos US$ 2,8 bilhões registrados no ano anterior.
Regionalmente, o relatório destaca forte crescimento na Ásia. O financiamento em agrotecnologia na China cresceu 43%, impulsionado por investimentos estatais em biotecnologia, enquanto a Coreia do Sul registrou aumento de 171%.
No campo tecnológico, o volume de negócios envolvendo robótica agrícola permaneceu relativamente estável, enquanto quase todas as outras categorias apresentaram queda no número de investimentos.
Novo equilíbrio para o capital agtech
O relatório sugere que o setor de agrotecnologia entrou em uma nova fase, marcada por maior seletividade do capital e foco em tecnologias capazes de enfrentar limitações estruturais da produção agrícola — como biologia, disponibilidade de terra, clima e logística.
Nesse cenário, o desafio para o setor nos próximos anos será alinhar o ritmo da inovação científica com a capacidade dos mercados financeiros de financiar tecnologias complexas em escala global.




