segunda-feira, 06/07/2026
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Alta dos fertilizantes acelera tecnologias para tornar uso de nitrogênio mais preciso no campo

Stenon capta US$ 20,5 milhões para expandir plataforma que combina sensores, dados de solo em tempo real e inteligência artificial na gestão de fertilizantes.

 

A volatilidade dos preços dos fertilizantes voltou a expor uma das principais vulnerabilidades da agricultura global: produtores dependem de insumos essenciais cujos custos são influenciados por energia, comércio internacional e tensões geopolíticas. Para países fortemente dependentes de importações, como o Brasil, essa pressão amplia o risco sobre margens, produtividade e planejamento das safras.

Na União Europeia, os preços dos fertilizantes nitrogenados chegaram a ficar cerca de 70% acima da média de 2024, segundo informações reunidas no material da empresa, levando a Comissão Europeia a mobilizar um pacote de € 540 milhões em apoio aos agricultores. No Brasil, a dependência externa de insumos como ureia e DAP aumenta a exposição dos produtores às oscilações internacionais.

É nesse cenário que tecnologias de agricultura de precisão começam a assumir uma nova função. Mais do que elevar produtividade, passam a ser desenvolvidas para ajudar o produtor a decidir onde, quando e quanto fertilizante aplicar.

A alemã Stenon captou € 18 milhões, equivalentes a US$ 20,5 milhões, em uma rodada Série B liderada pela investidora de impacto Pymwymic. Os recursos serão utilizados para expandir uma plataforma que combina sensores, software e inteligência artificial para medir características do solo diretamente no campo e orientar decisões sobre o uso de nitrogênio.

Se o preço não pode ser controlado, a aplicação pode

A tese por trás da tecnologia parte de uma limitação econômica concreta. Agricultores não conseguem controlar os preços internacionais dos fertilizantes, mas podem aumentar a precisão com que utilizam cada quilo adquirido.

O FarmLab, desenvolvido pela Stenon, combina hardware e software para gerar dados do solo em tempo real. A proposta é permitir que decisões sejam tomadas diretamente na propriedade, sem depender exclusivamente do intervalo entre coleta de amostras, envio ao laboratório e recebimento dos resultados.

“Os agricultores podem não conseguir controlar a volatilidade global dos preços, mas podem controlar quando e onde cada quilograma é aplicado”, afirma Niels Grabbert, fundador e CEO da Stenon.

Segundo o executivo, a combinação de medições do nitrogênio disponível para as plantas com informações sobre carbono orgânico do solo permite melhorar decisões imediatas sobre fertilização e, ao mesmo tempo, construir uma visão de longo prazo sobre a produtividade do solo.

Sensores e IA levam análise para dentro da lavoura

O dispositivo portátil da Stenon utiliza sensores ópticos e elétricos para medir milhares de pontos de dados sobre o solo em poucos segundos.

Entre os indicadores analisados estão nitrogênio disponível para as plantas, matéria orgânica, temperatura e umidade. Softwares e modelos de inteligência artificial transformam os dados brutos em informações que podem orientar a aplicação de fertilizantes.

 

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Um dos diferenciais defendidos pela empresa é a capacidade de realizar medições com maior frequência e capturar variações dentro de uma mesma área de cultivo.

Essa granularidade é relevante porque a fertilidade não se distribui de maneira uniforme no campo. Áreas diferentes de um mesmo talhão podem apresentar necessidades distintas, tornando aplicações padronizadas menos eficientes.

A plataforma já está disponível em milhões de acres em países da Europa, Ásia Central, Brasil e Estados Unidos. Segundo a Stenon, clientes registraram aumentos de produtividade entre 2% e 8% em culturas como milho, feijão, algodão, cana-de-açúcar, café e grãos, além de retorno médio sobre o investimento entre 20% e 40% no uso de fertilizantes nitrogenados. Os números são reportados pela própria empresa.

Eficiência econômica encontra saúde do solo

A rodada de financiamento também reflete uma mudança na narrativa em torno das tecnologias agrícolas.

Durante anos, soluções de monitoramento do solo foram apresentadas principalmente como ferramentas ambientais ou de aumento de produtividade. A pressão sobre os custos dos insumos adiciona agora uma dimensão financeira mais direta.

Para Rogier Pieterse, sócio-gerente da Pymwymic, a Stenon atua justamente na interseção entre saúde do solo e viabilidade econômica das propriedades.

“A tecnologia da empresa capacita os agricultores com dados melhores, permitindo um uso mais eficiente de insumos e, ao mesmo tempo, criando a base para solos mais produtivos e resilientes”, afirmou.

Além da Pymwymic, a rodada contou com a entrada do DeepTech & Climate Fonds e a participação de investidores já existentes, incluindo Atlantic, Oyster Bay, Founders Fund, TIME Ventures e Bernd Hoffmann.

Brasil está entre os mercados prioritários

Parte dos novos recursos será direcionada à expansão da Stenon em mercados onde a companhia já possui operações.

O Brasil aparece entre as prioridades estratégicas da empresa. No país, a Stenon mantém uma parceria com a Lavoro Ag, uma das principais distribuidoras de insumos agrícolas da América Latina.

A escolha ganha relevância diante da escala da agricultura brasileira e da dependência externa de fertilizantes. Em um ambiente de custos voláteis, tecnologias capazes de reduzir aplicações desnecessárias sem comprometer a produtividade podem ganhar espaço tanto por razões ambientais quanto econômicas.

Os recursos da Série B também serão destinados ao desenvolvimento de novos produtos. Grabbert afirmou que a empresa trabalha há vários anos em uma próxima fase tecnológica, ainda sem detalhes públicos, prevista para ser apresentada neste ano.

Agricultura de precisão muda de função

A expansão de tecnologias como a da Stenon mostra como a agricultura de precisão começa a responder a um problema mais amplo do que produtividade.

Em um cenário marcado por volatilidade geopolítica, dependência de importações e pressão sobre os custos de produção, medir melhor passa a ser uma estratégia para reduzir exposição econômica.

Isso altera a lógica da inovação no campo. O objetivo deixa de ser simplesmente aplicar mais tecnologia à propriedade e passa a ser utilizar dados para decidir com maior precisão onde cada unidade de um recurso caro realmente gera retorno.

Para o setor de fertilizantes, essa transformação pode ser significativa. Se a próxima geração de ferramentas conseguir combinar medições em tempo real, variabilidade espacial e inteligência artificial, o valor da tecnologia estará menos na quantidade de dados coletados e mais na capacidade de converter informação em decisões imediatas sobre um dos principais custos da produção agrícola.

Saiba mais sobre o assunto:

Por que os preços dos fertilizantes estão pressionando a agricultura?
Os preços são influenciados por fatores como custos energéticos, comércio internacional, disponibilidade de matérias-primas e tensões geopolíticas. Essa volatilidade aumenta os custos de produção e dificulta o planejamento dos agricultores.

Como a tecnologia pode tornar o uso de fertilizantes mais eficiente?
Sensores, análise de solo em tempo real e inteligência artificial podem ajudar produtores a identificar diferenças dentro de uma mesma área e orientar onde, quando e quanto fertilizante aplicar.

O que é gestão de nitrogênio na agricultura?
É o conjunto de práticas e tecnologias utilizadas para adequar a aplicação de fertilizantes nitrogenados às necessidades das culturas e às condições do solo, buscando reduzir perdas e melhorar a eficiência.

Como funciona a tecnologia da Stenon?
O FarmLab combina sensores ópticos e elétricos, software e inteligência artificial para analisar indicadores do solo diretamente no campo, incluindo nitrogênio disponível para as plantas, matéria orgânica, temperatura e umidade.

A Stenon atua no Brasil?
Sim. O Brasil está entre os mercados considerados prioritários para a expansão da empresa, que mantém uma parceria com a Lavoro Ag.

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