quarta-feira, 18/02/2026
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Estudo da USP e Embrapa estima “dívida de carbono” nos solos agrícolas brasileiros

Análise com mais de 4 mil registros aponta potencial de recarbonização capaz de contribuir para metas climáticas sem novos desmatamentos

 

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Embrapa calcularam que a conversão de vegetação nativa em áreas agrícolas gerou uma perda acumulada de 1,40 ± 0,1 petagrama de carbono (Pg C) nos primeiros 30 centímetros do solo brasileiro. O volume representa a chamada “dívida de carbono” do País — isto é, o carbono que deixou de ser armazenado após a mudança no uso da terra.

O estudo analisou 4.290 registros de estoques de carbono orgânico do solo nos seis biomas brasileiros e foi publicado na revista Nature Communications. O trabalho envolveu pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), apoiado pela Fapesp, e da Embrapa Agricultura Digital.

Segundo João Marcos Villela, primeiro autor do artigo, a principal contribuição foi estimar a dívida de carbono como indicador do potencial teórico de recarbonização dos solos agrícolas e de oportunidades para o mercado de carbono. “Também estabelecemos uma linha de base dos estoques de carbono orgânico em áreas nativas e agrícolas”, afirmou.

 

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A análise comparou áreas convertidas para agricultura com remanescentes de vegetação natural em cada bioma, levando em conta fatores como tipo de solo, clima regional, tempo desde a conversão e sistemas de manejo adotados. O estudo identificou que os primeiros 15 anos após a conversão concentram as perdas mais intensas de carbono, principalmente quando há revolvimento mecânico do solo, como aragem e gradagem, que acelera a oxidação da matéria orgânica.

Os resultados mostram que a dívida de carbono não se distribui de forma homogênea no território. Biomas com solos naturalmente ricos em carbono — associados a climas mais frios ou úmidos e maior teor de argila — tendem a registrar perdas mais expressivas quando convertidos. A Mata Atlântica, por exemplo, apresenta elevado estoque de carbono devido à alta produtividade vegetal, enquanto na Amazônia a decomposição acelerada reduz a capacidade de armazenamento. Cerrado e Caatinga exibem dinâmicas distintas, influenciadas por clima, textura do solo e histórico de uso da terra.

Apesar das perdas acumuladas, o estudo aponta que as áreas agrícolas brasileiras concentram elevado potencial de recarbonização. Práticas como recuperação de pastagens degradadas, sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), plantio direto e uso de plantas de cobertura demonstraram capacidade de recompor parte significativa dos estoques perdidos.

De acordo com as estimativas apresentadas, a recarbonização de aproximadamente um terço do potencial identificado poderia contribuir para que o Brasil alcance a meta de reduzir entre 59% e 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, conforme estabelecido na nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Parte relevante desse potencial está concentrada na Mata Atlântica e no Cerrado.

Para Maurício Cherubin, diretor de pesquisa do CCARBON, a quantificação da dívida de carbono ajuda a dimensionar oportunidades concretas na agricultura. Já o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri destaca que os dados podem fortalecer programas públicos de incentivo à agricultura de baixo carbono, como o ABC+, atualmente denominado RenovAgro, além de dar maior robustez a créditos de carbono baseados em solo.

Segundo dados do MapBiomas citados na pesquisa, cerca de 282,5 milhões de hectares — aproximadamente um terço do território nacional — estão atualmente destinados à agricultura e à pecuária. Para os autores, a intensificação sustentável dessas áreas já convertidas pode ampliar a produção de alimentos, recuperar estoques de carbono e cumprir compromissos climáticos internacionais, sem necessidade de novos desmatamentos.

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