Estudo indica que fermentação de precisão, agricultura em ambiente controlado e alimentos cultivados em laboratório devem chegar primeiro ao mercado
A fermentação — especialmente a fermentação de precisão e a fermentação de biomassa — desponta como a tecnologia mais avançada no pipeline de inovação alimentar do Reino Unido. É o que aponta um novo relatório da Agência de Normas Alimentares do Reino Unido (FSA) e da Food Standards Scotland, que mapeia as tecnologias alimentares emergentes com maior probabilidade de chegar aos consumidores na próxima década.
Segundo o estudo, tecnologias baseadas em microrganismos para produzir ingredientes e proteínas estão mais próximas da comercialização do que áreas como carne cultivada ou alimentos projetados por inteligência artificial, posicionando a fermentação como um dos principais motores da próxima geração de alimentos.
Fermentação domina o ecossistema de foodtech
O relatório apresenta um panorama das empresas de inovação alimentar no Reino Unido e mostra que 34% das startups e desenvolvedores ativos trabalham com tecnologias de fermentação, quase o dobro do número de empresas focadas em agricultura celular, que representam 19%.
Outros segmentos relevantes incluem:
- desenvolvedores de novos alimentos (19%)
- agricultura molecular (15%)
- agricultura em ambiente controlado (4%)
- impressão 3D de alimentos (4%)
A fermentação de precisão já é amplamente utilizada na indústria para produção de enzimas, vitaminas e conservantes. Nos últimos anos, porém, a tecnologia passou a ser aplicada também na criação de proteínas alternativas, proteínas lácteas sem origem animal e ingredientes funcionais, ampliando seu papel na indústria alimentar.
De acordo com o relatório, tecnologias como fermentação de precisão, fermentação de biomassa, agricultura em ambiente controlado, alimentos cultivados em laboratório e insetos comestíveis formam o grupo mais próximo da comercialização e exigem desenvolvimento imediato de diretrizes regulatórias.
Crescimento das proteínas alternativas
Dados da Innova Market Insights citados no estudo indicam que o lançamento global de produtos com proteínas alternativas cresceu a uma taxa média anual de 10% entre 2020 e 2024. Já tecnologias baseadas em microrganismos e proteínas cultivadas registraram crescimento ainda maior, com 15% ao ano.
Outra tendência destacada é o avanço da chamada “proteína plus”, conceito que combina proteínas alternativas com benefícios funcionais adicionais, como melhora nutricional ou propriedades específicas de saúde.
Além disso, os lançamentos de alimentos e bebidas com alegação de alto teor proteico cresceram mais de 32% em apenas um ano, reforçando o papel das novas tecnologias na evolução da indústria alimentar.
Regulação ainda é gargalo
Apesar do crescimento das tecnologias emergentes, o relatório aponta que os processos regulatórios ainda avançam mais lentamente do que a inovação.
Segundo dados da própria FSA, o tempo médio para aprovação de novos alimentos no Reino Unido é atualmente de 2,5 anos, acima da meta legal de 17 meses. Cerca de 22% dos mais de 450 processos em análise correspondem a pedidos de renovação de autorizações.
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Para lidar com esse desafio, as agências britânicas criaram o Programa de Pesquisa de Inovação em Autorização de Mercado, que busca aprimorar a capacidade regulatória para avaliar novas tecnologias alimentares.
Aceitação do consumidor ainda é desafio
Outro ponto destacado no relatório é a lacuna entre o avanço tecnológico e a aceitação do público.
Uma revisão conduzida pela FSA indica que apenas 16% a 41% dos consumidores britânicos afirmam estar dispostos a consumir carne cultivada em laboratório. Cerca de 85% dos entrevistados demonstram preocupações relacionadas à segurança, naturalidade do produto e impactos sobre agricultores.
Os insetos comestíveis apresentam níveis de aceitação ainda menores, com aproximadamente um quarto dos consumidores declarando disposição para experimentá-los.
Globalmente, pesquisas da Innova mostram tendência semelhante: 40% dos consumidores afirmam priorizar alimentos naturais e minimamente processados, enquanto 55% defendem que produtos vegetais sejam posicionados como categorias próprias, e não apenas como substitutos de alimentos tradicionais.
Carne cultivada avança, mas ainda longe do mercado
Embora a carne cultivada esteja entre as tecnologias prioritárias identificadas no relatório, ela ainda enfrenta barreiras significativas para alcançar escala comercial.
Nenhum produto de carne cultivada foi autorizado para venda no Reino Unido até agora. Para acelerar o processo regulatório, a FSA lançou em 2025 um sandbox regulatório para agricultura celular, com financiamento de £1,6 milhão, envolvendo empresas como Mosa Meat, Hoxton Farms, Gourmey e Vow.
O programa já produziu resultados iniciais, incluindo o primeiro guia britânico de segurança para alimentos cultivados em laboratório. As primeiras avaliações regulatórias devem ser concluídas até fevereiro de 2027.
Próxima geração de tecnologias alimentares
Além das tecnologias mais avançadas, o relatório também identifica outras áreas emergentes que podem ganhar relevância entre cinco e dez anos.
Entre elas estão:
- agricultura molecular
- fermentação gasosa
- estruturação de óleos líquidos
- ingredientes derivados de algas
Em estágio ainda mais inicial aparecem tecnologias como impressão 3D de alimentos, engenharia reversa de alimentos e proteínas projetadas por inteligência artificial.
Com o crescimento global das proteínas alternativas — mercado que pode passar de US$ 12,7 bilhões em 2026 para US$ 23,2 bilhões em 2034, segundo a Fortune Business Insights — o relatório sugere que o avanço dessas tecnologias dependerá tanto de inovação científica quanto da capacidade regulatória e da aceitação dos consumidores.




