Tecnologia usa fermentação de precisão para neutralizar metabólitos nocivos sem alterar o microbioma
A Bactolife, startup dinamarquesa de biotecnologia, está introduzindo uma nova abordagem para a saúde intestinal ao desenvolver ingredientes baseados em proteínas de ligação, capazes de neutralizar metabólitos prejudiciais produzidos por microrganismos nocivos no intestino. A proposta é atuar com mais precisão do que soluções tradicionais, sem eliminar bactérias benéficas nem desequilibrar o microbioma.
A empresa acaba de concluir uma rodada Série B de mais de € 30 milhões (cerca de US$ 35 milhões), recurso que será utilizado para acelerar a entrada comercial da tecnologia, ampliar estudos clínicos em humanos e expandir aplicações tanto para nutrição humana quanto animal.
Uma alternativa de precisão aos probióticos e antibióticos
Enquanto probióticos buscam aumentar a população de microrganismos benéficos e prebióticos funcionam como seu “alimento”, as proteínas de ligação seguem um caminho diferente. Elas se ligam seletivamente a metabólitos indesejáveis produzidos por bactérias nocivas, impedindo que essas substâncias atravessem a barreira intestinal e causem inflamação ou disfunções metabólicas.
Após a ligação, esses metabólitos seguem pelo trato gastrointestinal e são eliminados naturalmente, sem interferir no equilíbrio da microbiota. Segundo a Bactolife, a inspiração veio de fragmentos de IgG encontrados em imunoglobulinas do leite de camelídeos — como camelos, lhamas e alpacas — conhecidos por suas propriedades imunológicas.
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Em vez de extrair essas proteínas de fontes animais, a startup utiliza fermentação de precisão, modificando geneticamente microrganismos para produzir as proteínas em escala industrial, de forma consistente e sustentável.
Do laboratório ao mercado
A Bactolife planeja lançar seus primeiros produtos sob a marca Helm ainda este ano nos Estados Unidos, com expansão gradual para Europa e Ásia. A estratégia inicial envolve suplementos alimentares e ingredientes funcionais para alimentos e bebidas, além de aplicações em nutrição animal.
Segundo a empresa, as primeiras proteínas de ligação devem obter status GRAS autodeclarado nos EUA no curto prazo, com submissões regulatórias adicionais em outros mercados. Estudos clínicos em humanos já estão em andamento, começando com populações saudáveis e avançando para grupos com maior vulnerabilidade intestinal.
Estabilidade, versatilidade e novas aplicações
Um dos diferenciais da tecnologia é a estabilidade das proteínas de ligação. Ao contrário de probióticos — que são organismos vivos e têm limitações em alimentos processados — essas proteínas são estáveis ao calor e a variações de pH, podendo ser aplicadas em uma ampla gama de formatos.
Além disso, são eficazes em doses baixas, entre 100 e 200 mg, o que facilita a formulação. As proteínas também são descritas como veganas, livres de alérgenos e sem lactose, ampliando seu potencial de uso em diferentes mercados e perfis de consumidores.
A empresa vê aplicações especialmente relevantes para pessoas expostas a situações de maior estresse intestinal, como viagens frequentes, uso recente de antibióticos, envelhecimento ou internações hospitalares.
Reequilibrar sem destruir
Para a Bactolife, as proteínas de ligação não competem diretamente com prebióticos e probióticos, mas complementam o ecossistema de soluções para o intestino. A proposta é oferecer uma ferramenta capaz de remover seletivamente o que não pertence ao organismo, ajudando a restaurar o equilíbrio intestinal de forma preventiva ou contínua.
Ao longo dos próximos anos, a startup pretende construir um portfólio completo de proteínas de ligação voltadas aos distúrbios intestinais mais comuns, posicionando a tecnologia como uma nova categoria funcional dentro da nutrição e da saúde digestiva.




