Plataforma combina IA e biologia molecular para bloquear interações entre patógenos e culturas, reduzindo dependência de defensivos químicos
A Resurrect Bio, startup sediada no Reino Unido, está desenvolvendo uma tecnologia para reativar mecanismos naturais de defesa das plantas contra doenças, sem a necessidade de insumos químicos. A proposta é identificar e bloquear, com precisão molecular, as interações que permitem que patógenos suprimam o sistema imune das culturas agrícolas.
Fundada em 2021 a partir do The Sainsbury Laboratory, em Norwich, a empresa atua sobre um ponto central da biologia vegetal: os receptores imunológicos conhecidos como proteínas NLR (auxiliares e sensoras), que formam redes intracelulares responsáveis pela resistência a patógenos. Fungos, oomicetos, nematoides e outras pragas evoluíram proteínas chamadas “efetoras”, capazes de se ligar a essas NLRs e neutralizar a resposta imunológica das plantas.
A Resurrect Bio afirma ter desenvolvido uma abordagem capaz de mapear essas interações e identificar exatamente onde pequenas edições genéticas podem impedir a ligação entre a proteína do patógeno e a proteína da planta. Em alguns casos, a modificação necessária envolve apenas a alteração de um único aminoácido no sítio de ligação.
“O que fazemos é descobrir rapidamente a interação entre patógeno e planta e, então, quebrá-la”, explicou Robert Lo Bue, chefe de operações da startup. Segundo ele, ao bloquear o mecanismo de supressão, a planta pode recuperar sua imunidade inata e alcançar níveis próximos a 100% de resistência — ao menos até que novas pressões evolutivas surjam.
Plataforma baseada em IA e triagem de alta escala
A tecnologia da empresa se apoia em três pilares principais. O primeiro é o FloraFold®, ferramenta proprietária de inteligência artificial treinada para prever interações proteína-proteína entre culturas e patógenos. O modelo reduz o universo de possíveis combinações moleculares e direciona a busca para os alvos mais promissores.
Em seguida, a startup utiliza plataformas de triagem de alto rendimento, tanto in silico (simulações computacionais) quanto in planta (em plantas vivas), para validar rapidamente as interações previstas.
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Por fim, entra a chamada “tecnologia de ressurreição”, que define quais modificações mínimas devem ser feitas na planta para impedir a ligação com o patógeno. A Resurrect Bio não realiza diretamente a edição genética, que pode ser feita com ferramentas como CRISPR, mas fornece aos parceiros instruções precisas sobre onde e como editar seus próprios germoplasmas.
A proposta é oferecer um modelo replicável, aplicável a múltiplas culturas e diferentes patógenos, em vez de desenvolver soluções isoladas para cada característica.
Foco em culturas de grande impacto
Após provas iniciais de conceito com resistência ao nematoide do cisto da batata, a empresa direcionou esforços para culturas de maior escala, como soja, milho e trigo, além de arroz, algodão e brássicas.
Segundo Lo Bue, a startup pretende desenvolver 18 características de resistência a doenças nos próximos três anos. A empresa também mantém acordos de codesenvolvimento com companhias do setor de sementes, que podem posteriormente licenciar as características geradas.
A estratégia combina participação futura em receitas de sementes com pagamentos por marcos de desenvolvimento. Atualmente, alguns projetos já avançam para testes em estufa conduzidos em parceria com empresas de sementes.
Rodada Série A
Para acelerar o desenvolvimento de produtos e expandir a equipe, a Resurrect Bio anunciou o fechamento inicial de sua rodada Série A, no valor de US$ 8,1 milhões. A rodada foi liderada pela Corteva, por meio da plataforma Corteva Catalyst, com participação de Calculus Capital, Pymwymic, UKI2S, SynBioVen e AgFunder.
O aporte sucede uma rodada seed de US$ 2,1 milhões captada em 2023 e deverá sustentar a ampliação da plataforma de IA e a expansão do portfólio de características voltadas à resistência genética de culturas estratégicas.




