Estudo aponta que estratégia pode avançar com suplementação e fórmulas enriquecidas para bebês que não desenvolvem a colonização natural
Um grupo de pesquisadores da Universidade Técnica da Dinamarca identificou um mecanismo biológico que pode reduzir o risco de alergias e asma ainda nos primeiros anos de vida — e a descoberta já está sendo traduzida em uma estratégia com forte potencial de aplicação prática: suplementação com probióticos ou metabólitos derivados de bifidobactérias.
O trabalho, publicado na Nature Microbiology, mostra que bebês com o intestino colonizado por bifidobactérias específicas produzem o metabólito 4-hidroxifenil lactato (4-OH-PLA), associado à queda na produção de imunoglobulina E (IgE) — anticorpo diretamente ligado às reações alérgicas e frequentemente descrito como um “gatilho” do sistema imune.
“O principal avanço é que identificamos um mecanismo específico que pode suprimir o desenvolvimento de reações alérgicas no sistema imunológico já na infância”, afirma Susanne Brix Pedersen, professora de Bioengenharia e líder do projeto. Segundo ela, o impacto pode ser significativo se o mecanismo puder ser aplicado em um modelo preventivo. “Se pudermos traduzir esse conhecimento em uma estratégia preventiva — por exemplo, por meio de suplementos probióticos ou fórmulas infantis enriquecidas — será um grande passo adiante na luta contra alergias e asma.”
Quando o natural falha, entra a suplementação
O estudo acompanhou 147 crianças do nascimento aos cinco anos e observou que níveis elevados de bifidobactérias no intestino infantil estão ligados à presença do 4-OH-PLA e a uma resposta imune menos propensa à hiperreatividade — cenário que costuma anteceder o surgimento de alergias alimentares e respiratórias.
Os pesquisadores também identificaram fatores que favorecem a colonização natural: parto vaginal e amamentação foram associados ao aumento das bifidobactérias no intestino do bebê. Um dado chama atenção: crianças nascidas de parto vaginal teriam 14 vezes mais chance de adquirir bifidobactérias da mãe.
Mas a pesquisa reforça um ponto central: nem todos os bebês recebem essa colonização nas condições ideais e esse é o espaço onde a suplementação pode ser decisiva.
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“Isso significa que mecanismos naturais ajudam a prevenir o desenvolvimento dessas doenças. No entanto, nosso estilo de vida contribuiu para que essas bifidobactérias se tornassem muito mais raras e, portanto, também é importante buscar outras medidas preventivas que possam ajudar os bebês que não foram colonizados por elas”, explica Rasmus Kaae Dehli, especialista em imunologia de sistemas.
Na prática, isso abre caminho para intervenções preventivas com foco em saúde intestinal infantil: os pesquisadores sugerem que estratégias futuras podem incluir suplementos probióticos, fórmulas infantis enriquecidas com bifidobactérias específicas ou até com o próprio metabólito 4-OH-PLA.
Essa abordagem se torna ainda mais relevante diante de sinais de desequilíbrio do microbioma em bebês em diferentes regiões. Estudos recentes citados pelos autores indicam que a redução de bifidobactérias no intestino infantil pode aumentar vulnerabilidades e elevar o risco de desenvolvimento de asma, eczema, dermatite e alergias.
Evidência de efeito direto no sistema imune
Além dos dados populacionais, o estudo também apresentou resultados de laboratório. Em testes, o 4-OH-PLA reduziu a produção de IgE em 60% sem afetar outros anticorpos, reforçando que o efeito é direcionado e não uma supressão generalizada do sistema imune.
O mecanismo também foi testado em células imunológicas humanas, onde o metabólito demonstrou inibir diretamente a produção de IgE, diminuindo o risco de alergias.
Ensaios clínicos estão em andamento no Hospital Universitário de Aarhus, na Dinamarca. Se os resultados se confirmarem, a pesquisa pode contribuir para o desenvolvimento de uma nova geração de estratégias preventivas com base em microbiota — especialmente para crianças que, por fatores de nascimento, alimentação ou ambiente, não conseguem desenvolver essa colonização protetora de forma natural.




