Desenvolvido pela Embrapa, o ProCarbon-Soil simplifica a mensuração do carbono em sistemas agrícolas tropicais e pode se tornar peça estratégica para o mercado
Quem mede o carbono pode definir o futuro da agricultura regenerativa. É com essa ambição que a Embrapa está finalizando o ProCarbon-Soil (Procs), primeiro modelo desenvolvido em uma região tropical para mensurar a dinâmica do carbono em sistemas agrícolas. A ferramenta foi criada para estimar quanto carbono é retirado da atmosfera e armazenado no solo por práticas como plantio direto, rotação de culturas e manejo conservacionista — atividades que estão no centro da chamada agricultura de carbono.
Mais do que um avanço científico, o ProCarbon-Soil representa uma tentativa de criar uma infraestrutura brasileira para um mercado em rápida expansão. Hoje, os principais modelos utilizados para certificar créditos de carbono agrícola foram desenvolvidos em países de clima temperado, onde as características dos solos e dos sistemas produtivos diferem significativamente das condições tropicais.
O novo modelo foi apresentado em artigo publicado no Soil Science Society of America Journal.
O desafio não é apenas capturar carbono, mas medi-lo
A agricultura de carbono ganhou protagonismo nos últimos anos por seu potencial de remover dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo no solo.
Mas existe um obstáculo importante para transformar essa captura em créditos negociáveis: comprovar que ela realmente ocorreu.
É nesse ponto que entram os chamados sistemas de MRV — sigla para Measurement, Reporting and Verification (mensuração, reporte e verificação).
Sem modelos confiáveis, auditáveis e reconhecidos pelas certificadoras, não há mercado.
Segundo Luis Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e líder do projeto, o objetivo do ProCarbon-Soil foi justamente simplificar esse processo.
“O que a gente precisa para o mercado de carbono é a dinâmica, a variação do carbono total. Uma segunda métrica é associada à qualidade desse carbono, o quão estável ele está. Outros modelos particionam o carbono em diferentes compartimentos. O nosso avalia a qualidade geral do carbono”, explica.
Um modelo tropical para uma agricultura tropical
A principal diferença do ProCarbon-Soil está em sua origem. Enquanto modelos tradicionais utilizam entre quatro e oito variáveis de estado e até 20 parâmetros, muitos deles difíceis de medir em campo, o sistema brasileiro trabalha com apenas duas variáveis diretamente mensuráveis: o estoque total de carbono e sua decomponibilidade.
Isso reduz a complexidade operacional e aproxima o modelo da realidade da agricultura tropical.
Além disso, ele foi calibrado com uma das maiores bases de dados já utilizadas para esse tipo de estudo no Brasil.
Os pesquisadores utilizaram informações primárias de experimentos conduzidos pela Embrapa e pela Bayer, parceira do projeto, além de uma base secundária composta por 4.290 amostras de solo provenientes de 370 estudos realizados em todas as regiões do país.
O resultado foi um modelo capaz de reproduzir trajetórias de carbono semelhantes às obtidas pelo Century, um dos sistemas mais utilizados internacionalmente.
Soberania tecnológica entra na discussão climática
A criação de um modelo nacional também possui implicações estratégicas.
Até agora, os instrumentos reconhecidos pelo mercado de carbono foram desenvolvidos majoritariamente em países de clima temperado.
Isso significa que agricultores e empresas brasileiras dependem de metodologias externas para estimar e certificar o carbono armazenado em seus solos.
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Para Barioni, a existência de um modelo próprio oferece vantagens que vão além da precisão científica.
“Entre essas vantagens destacam-se a autonomia e o desenvolvimento contínuo para que não fique obsoleto. É um modelo nosso, temos a propriedade intelectual, o que é outra vantagem importante”, afirma.
Na prática, a ferramenta pode contribuir para reduzir a dependência tecnológica do Brasil em um mercado que deve movimentar bilhões de dólares nas próximas décadas.
O próximo passo é conquistar a confiança do mercado
Para que o ProCarbon-Soil seja utilizado comercialmente, ele ainda precisa ser reconhecido pelas certificadoras que atuam no mercado voluntário de carbono.
Atualmente, a equipe trabalha na elaboração de um Relatório de Validação que será submetido à Verra, considerada a principal certificadora global desse mercado.
A acreditação é vista como uma etapa decisiva.
Sem reconhecimento internacional, mesmo modelos cientificamente robustos têm dificuldade para serem adotados por empresas e projetos de agricultura regenerativa.
IA e satélites podem tornar a medição mais precisa
Outro diferencial do ProCarbon-Soil está em sua compatibilidade com tecnologias emergentes.
Segundo os pesquisadores, o sistema foi desenvolvido para operar em conjunto com técnicas de assimilação de dados, permitindo a incorporação automática de informações provenientes de satélites e sensores remotos.
Além disso, o modelo pode ser integrado a sistemas de inteligência artificial e machine learning para identificar desvios, corrigir estimativas e aprimorar continuamente a qualidade das previsões.
“É o que tem se chamado de data learning — assimilação de dados e machine learning combinados com a fusão de modelo e dados. Nosso modelo é mais adequado para isso e acreditamos que essas novas tecnologias estarão cada vez mais associadas à estimação da variação dos estoques de carbono”, explica Barioni.
O que isso indica para o futuro da agricultura de carbono
O desenvolvimento do ProCarbon-Soil mostra que a corrida pela agricultura regenerativa não depende apenas da adoção de boas práticas no campo.
Ela passa também pela capacidade de medir, validar e comprovar os resultados obtidos.
Em um mercado em que confiança e rastreabilidade são essenciais, modelos capazes de traduzir o comportamento do carbono em solos tropicais podem se tornar tão importantes quanto as próprias tecnologias agrícolas.
E isso abre uma discussão mais ampla: na economia de baixo carbono, quem controla a medição pode acabar definindo as regras do mercado.
Saiba mais sobre o assunto:
O que é o ProCarbon-Soil?
É o primeiro modelo desenvolvido em uma região tropical para medir a dinâmica do carbono em solos agrícolas, criado pela Embrapa.
O que é agricultura de carbono?
São práticas agrícolas que buscam retirar dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo no solo, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
Por que medir carbono no solo é importante?
A mensuração é essencial para comprovar a captura de carbono e viabilizar a geração e comercialização de créditos de carbono agrícolas.
O ProCarbon-Soil substitui modelos internacionais?
O objetivo é oferecer uma alternativa adaptada às condições tropicais, reduzindo a dependência de modelos desenvolvidos em regiões de clima temperado.
O modelo já pode ser usado no mercado de carbono?
Ainda não. O ProCarbon-Soil precisa passar por processos de validação e reconhecimento junto a certificadoras internacionais, como a Verra.




