Estudo busca extrair bioativo anti-inflamatório do azeite, enquanto marcas apostam em blends e aplicações com foco em saciedade, metabolismo e saúde cognitiva
O azeite de oliva extravirgem está deixando de ser visto apenas como ingrediente culinário para ganhar protagonismo como ativo funcional. Pesquisas recentes vêm explorando formas de extrair o oleocantal, composto bioativo naturalmente presente em azeites de alta qualidade e frequentemente associado a efeitos anti-inflamatórios semelhantes aos do ibuprofeno. A possibilidade de concentrar esse ingrediente abre caminho para novas aplicações em suplementos e formulações voltadas à saúde metabólica, intestinal e até cognitiva.
Para o Dr. Nasser Abufarha, fundador e diretor da Canaan Palestine, o movimento reflete um reposicionamento do produto: do consumo cotidiano para um papel estratégico dentro da nutrição preventiva. “A simples substituição do óleo de cozinha comum por azeite extravirgem pode reduzir marcadores inflamatórios e aumentar as defesas antioxidantes”, afirma em entrevista recente ao portal Nutrition Insigth. Segundo ele, uma dose diária de azeite extravirgem é uma das formas mais acessíveis de incorporar compostos bioativos com impacto sistêmico no organismo.
Esse “efeito funcional” é explicado por um conjunto de fatores. Além do oleocantal, o azeite extravirgem reúne um coquetel de gorduras monoinsaturadas, especialmente o ácido oleico, e uma ampla gama de polifenóis e antioxidantes — combinação associada à melhora do perfil lipídico (redução do LDL e aumento do HDL) e à proteção cardiovascular.
Mais do que isso: evidências emergentes sugerem que o azeite pode atuar como gatilho metabólico ao estimular a liberação de GLP-1, hormônio ligado à saciedade e ao controle glicêmico. Abufarha aponta que as gorduras monoinsaturadas ajudam a reduzir a velocidade de esvaziamento do estômago e impactam hormônios relacionados à fome, como a grelina. “O ácido oleico interage com células do intestino delgado e desencadeia a secreção de GLP-1, ampliando a sensação de saciedade”, explica.
Esse tipo de mecanismo tem aumentado o interesse do setor por aplicações do azeite em produtos voltados a controle de peso, metabolismo e saúde digestiva — especialmente quando se busca uma abordagem com apelo natural, funcional e baseada em ingredientes reconhecidos pelo consumidor.
Do terroir ao bioprocesso: o que define um azeite “realmente funcional”
A qualidade do azeite, porém, não é um detalhe — é o ponto central da proposta. Abufarha ressalta que apenas azeites extravirgens prensados e de alto padrão concentram oleocantal em níveis relevantes. E, no caso dos polifenóis, a retenção depende de múltiplas decisões ao longo da cadeia: variedade de azeitona, momento de colheita, técnicas de cultivo e processamento.
Fatores agronômicos como estresse hídrico, excesso de sol, temperaturas extremas e oferta de nutrientes impactam a produção natural de polifenóis. Ao mesmo tempo, o tipo de manejo — convencional ou orgânico — pode influenciar a densidade desses compostos. Entre os fenólicos mais citados pela literatura estão oleuropeína, hidroxitirosol e derivados, conhecidos por sua atividade antioxidante e pela associação com benefícios anti-inflamatórios.
Nesse cenário, ganha força também o debate sobre o papel de olivais tradicionais e agricultura regenerativa na construção de cadeias mais resilientes. Para Abufarha, práticas regenerativas ajudam tanto na qualidade quanto na estabilidade produtiva, reduzindo dependência de insumos sintéticos e fortalecendo saúde do solo e conservação de água — aspectos decisivos para a continuidade da produção, especialmente em regiões com instabilidade climática.
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Do lado industrial, o azeite extravirgem traz desafios práticos que também condicionam sua expansão como ingrediente funcional. O principal deles é a estabilidade: calor, luz e oxigênio aceleram a oxidação e podem comprometer tanto o sabor quanto os compostos bioativos. “Azeite deve ser armazenado entre 8°C e 20°C e protegido de ar e luz. Quando armazenado corretamente, pode durar até dois anos”, afirma Abufarha, citando como exemplo o uso de tanques de aço inoxidável e ambientes com temperatura controlada.
Com pesquisas avançando sobre extração de oleocantal e o interesse crescente por ingredientes naturais com evidência funcional, o azeite extravirgem entra de vez no radar de P&D. O que antes era “apenas gordura boa” agora começa a ser tratado como plataforma bioativa — com potencial para gerar uma nova geração de produtos em saúde digestiva, inflamação crônica e nutrição de performance.




