quarta-feira, 28/01/2026
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Vendidas em farmácia, cápsulas de alho mostram eficácia contra parasitas no cultivo de pirarucu

Estudo da Embrapa aponta cápsulas como alternativa natural para reduzir infecções em alevinos e diminuir uso de químicos na piscicultura

 

 

Uma solução simples, acessível e já presente nas prateleiras das farmácias pode ajudar a enfrentar um dos principais desafios da criação de pirarucu no Brasil. Pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO) comprovaram que cápsulas de alho (Allium sativum) são eficazes no controle de parasitas que afetam alevinos de pirarucu (Arapaima gigas), espécie símbolo da Amazônia e de alto valor comercial.

Os resultados, publicados na revista científica Veterinary Parasitology, indicam que o uso do alho pode reduzir perdas na produção, melhorar o bem-estar dos peixes e diminuir a dependência de produtos químicos na piscicultura — um ponto cada vez mais relevante para sistemas de cultivo mais sustentáveis.

O estudo avaliou a ação do alho contra dois dos principais inimigos sanitários dos alevinos: os tricodinídeos e o Dawestrema cycloancistrium. Os tricodinídeos são protozoários — organismos microscópicos de uma única célula — que se fixam na pele e nas brânquias dos peixes. Já o D. cycloancistrium é um monogenea, tipo de verme que parasita principalmente as brânquias, alimentando-se de sangue e tecido do hospedeiro. Ambos podem provocar surtos de mortalidade em larga escala nos criadouros.

Coordenada pela pesquisadora Patricia Oliveira Maciel Honda, da Embrapa, a pesquisa contou com a parceria da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), além de financiamento do Sebrae.

 

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Nos testes, os peixes foram submetidos a banhos com diferentes concentrações de alho por quatro dias. As doses variaram de 2,5 mg a 10 mg por litro de água. Mesmo nas concentrações mais baixas, os resultados foram positivos: no caso do verme das brânquias, a redução da infestação variou de 33,5% a 42,9%, sem sinais de toxicidade para os animais.

“A intensidade de D. cycloancistrium nas brânquias foi significativamente reduzida nos peixes tratados em comparação ao grupo controle, mas não houve diferença entre as concentrações testadas, o que indica que as menores doses já são eficazes”, destaca a pesquisadora.

Para os tricodinídeos, a melhor resposta foi observada na dosagem de 5 mg/L, que atingiu 77% de eficácia após quatro dias de tratamento. A análise foi feita por meio de corantes que identificam células mortas ao microscópio, permitindo quantificar os protozoários eliminados.

As cápsulas utilizadas no experimento são as mesmas comercializadas em farmácias, geralmente com 500 mg ou 1000 mg de alho. A partir dessas apresentações, os pesquisadores prepararam as soluções diluídas. “Fizemos as diluições em água até alcançar as concentrações desejadas para os testes”, explica Maciel.

Durante o experimento, não foram observadas mortalidade nem alterações comportamentais nos alevinos, o que reforça o potencial do alho como alternativa fitoterápica — ou seja, baseada em substâncias de origem vegetal — para o controle de ectoparasitas (parasitas externos) na piscicultura. Apesar de o alho ser conhecido por seu efeito imunoestimulante, esse benefício específico não foi identificado nos peixes avaliados.

O momento de aplicação do tratamento também é estratégico. Como a reprodução do pirarucu ocorre de forma natural nos viveiros, os alevinos frequentemente já carregam parasitas ao serem coletados. O período de treinamento alimentar — quando os peixes são transferidos para estruturas menores e aprendem a consumir ração — é considerado ideal para a aplicação do banho com alho, especialmente se houver sinais clínicos como apatia, perda de apetite, escurecimento da pele (melanose) ou o comportamento conhecido como flashing, quando o peixe se esfrega nas superfícies do tanque.

Segundo a pesquisadora, quando os sintomas já estão avançados, a chance de recuperação é baixa. Por isso, o tratamento profilático — preventivo — do lote pode ser a melhor estratégia. Outro momento indicado é antes do transporte dos alevinos, etapa que causa estresse e pode reduzir a imunidade dos peixes, favorecendo a proliferação dos parasitas.

“O óleo de alho demonstrou ser eficaz no controle desses parasitos, com destaque para a concentração de 5 mg/L, que não induziu toxicidade significativa”, afirma Maciel. Ela ressalta, porém, que ainda são necessários estudos em condições de campo e análises de viabilidade econômica.

A Embrapa busca parcerias com a indústria para desenvolver fitoterápicos voltados à aquicultura e ampliar a oferta de produtos regularizados para o setor. Empresas interessadas podem entrar em contato pelo e-mail cnpasa.spat@embrapa.br.

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