Plataforma de edição genética da startup Tropic promete ampliar vida útil da fruta, reduzir desperdício e proteger plantações contra a doença TR4
Uma nova geração de bananas desenvolvidas por edição genética pode mudar a forma como a fruta mais consumida do mundo é produzida, transportada e comercializada. A startup britânica Tropic está avançando com variedades de banana que não escurecem após o corte, possuem maior vida útil e são resistentes à murcha de fusarium (TR4), uma doença fúngica considerada uma das maiores ameaças globais à produção da fruta.
As primeiras inovações da empresa utilizam ferramentas de edição genética para alterar processos naturais da planta que afetam escurecimento e amadurecimento, abrindo novas possibilidades para o mercado de frutas frescas e processadas.
Segundo a empresa, as novas variedades podem permitir a expansão do mercado de frutas cortadas, reduzir perdas pós-colheita e facilitar exportações ao ampliar o tempo de transporte e armazenamento.
Bananas que não escurecem após o corte
Uma das primeiras aplicações da tecnologia foi o desenvolvimento de bananas que mantêm a cor natural por mais tempo após serem cortadas.
Para isso, os cientistas da Tropic utilizaram edição genética para desativar o gene responsável pela produção da enzima polifenol oxidase, que desencadeia o escurecimento da fruta quando entra em contato com o oxigênio.
O resultado é uma banana com o mesmo sabor, aroma e nível de doçura das variedades convencionais, mas que permanece visualmente fresca por mais tempo. Segundo a empresa, essa característica pode abrir novas oportunidades no setor de frutas prontas para consumo, como saladas de frutas, snacks refrigerados e ingredientes para food service.
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As bananas já receberam aprovação regulatória em mercados como Estados Unidos, Canadá, Filipinas, Colômbia e Honduras, com novas autorizações previstas para outros países.
Vida útil maior e logística mais eficiente
Outra inovação da empresa envolve o aumento da vida útil da fruta por meio da modificação de genes relacionados à produção de etileno, o hormônio vegetal responsável pelo amadurecimento.
Ao reduzir a produção desse hormônio, as bananas permanecem verdes por mais tempo após a colheita. Isso permite colher a fruta em estágios mais avançados de desenvolvimento e prolongar o tempo disponível para transporte e distribuição.
Segundo a Tropic, a tecnologia pode adicionar até 10 dias extras de vida útil, o que tem impacto direto na logística global da banana, reduzindo custos com transporte refrigerado, perdas durante a cadeia de suprimentos e desperdício alimentar.
Resistência à doença que ameaça a banana global
Talvez a inovação mais estratégica da empresa esteja na tentativa de enfrentar a murcha de fusarium Tropical Race 4 (TR4), um fungo que vem devastando plantações da variedade Cavendish em várias regiões do mundo.
A doença, detectada inicialmente no Sudeste Asiático, já se espalhou pela Ásia, África e América Latina, afetando grandes produtores como Colômbia, Peru e Equador.
Para combater o problema, a Tropic utiliza sua plataforma proprietária chamada GEiGS (Gene Editing induced Gene Silencing), que ativa o mecanismo natural de interferência por RNA das plantas para bloquear genes do próprio fungo responsável pela infecção.
Em vez de simplesmente desligar genes da planta — abordagem comum em edição genética — a tecnologia direciona moléculas de RNA para atacar genes do patógeno, criando uma forma mais específica de defesa.
Segundo a empresa, esse método permite modular a expressão genética com maior precisão e reduzir o risco de efeitos colaterais na planta.
Uma nova abordagem para edição genética em culturas agrícolas
A plataforma GEiGS utiliza ferramentas de edição genética como CRISPR para modificar regiões não codificadoras do DNA da planta — áreas responsáveis pela produção de RNA regulador.
Esses RNAs podem ser programados para silenciar genes específicos de patógenos, criando resistência a doenças sem a necessidade de inserir genes externos, o que pode facilitar processos regulatórios em alguns mercados.
Além das bananas, a tecnologia também está sendo aplicada em outras culturas agrícolas. A empresa já licenciou a plataforma para companhias como Corteva, que explora aplicações em milho e soja, além de parcerias em outras áreas da bioeconomia.
Financiamento para acelerar a escala
Para acelerar o desenvolvimento e a comercialização dessas variedades, a Tropic captou US$ 105 milhões em uma rodada de investimento Série C, liderada pelo Forbion Bioeconomy Fund e pela Corteva.
Os recursos serão usados para expandir a produção de mudas em larga escala, fortalecer parcerias comerciais e apoiar o lançamento das primeiras bananas Cavendish resistentes à TR4 previsto para 2027.
Segundo a empresa, o objetivo é ampliar o uso da tecnologia em culturas agrícolas de alto impacto e ajudar a proteger cadeias alimentares cada vez mais pressionadas por doenças, mudanças climáticas e perdas pós-colheita.




