quarta-feira, 03/06/2026
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Energia das marés busca nova rota para competir com eólica e solar

Tecnologia inspirada nas barbatanas de mamíferos marinhos promete ampliar áreas de implantação e reduzir custos de uma das fontes renováveis mais previsíveis do mundo

 

 

A energia das marés é frequentemente apontada como uma das fontes renováveis mais promissoras da transição energética. Diferentemente da energia solar e da eólica, sua geração pode ser prevista com grande precisão anos à frente.

Ainda assim, a tecnologia nunca conseguiu atingir escala comercial comparável às demais renováveis.

Agora, a britânica Caudal Energy acredita ter encontrado uma forma de mudar esse cenário.

A empresa captou £4,3 milhões para acelerar o desenvolvimento de uma plataforma de geração de energia das marés baseada em um conceito pouco convencional: reproduzir a eficiência hidrodinâmica das barbatanas caudais de mamíferos marinhos para gerar eletricidade de forma mais simples e economicamente viável.

Mas o ponto mais relevante da tecnologia não está na inspiração biológica.

Está na tentativa de resolver um problema que acompanha a energia das marés há décadas: sua dificuldade de escalar comercialmente.

O desafio nunca foi a previsibilidade

A energia das marés possui uma característica rara no universo das renováveis.

Enquanto a produção solar depende da incidência de luz e a eólica da intensidade dos ventos, os movimentos das marés seguem ciclos previsíveis e relativamente constantes.

Por isso, especialistas frequentemente apontam a tecnologia como uma possível fonte de energia de base renovável, capaz de complementar sistemas elétricos cada vez mais dependentes de fontes intermitentes. O problema sempre esteve em outro lugar.

 

Leia Mais:

 

Historicamente, projetos de energia das marés exigem instalações complexas, custos elevados de manutenção e condições geográficas muito específicas para se tornarem economicamente viáveis.

A proposta é trabalhar com a corrente, e não contra ela

A tecnologia da Caudal parte de uma lógica diferente da adotada pela maioria dos sistemas convencionais.

Em vez de utilizar turbinas submarinas projetadas para resistir às correntes, a empresa desenvolveu um sistema de lâminas oscilantes que se movimenta com o fluxo da água.

Segundo a companhia, essa arquitetura reduz complexidade mecânica, simplifica a instalação e diminui a necessidade de manutenção contínua.

A inspiração veio da forma como mamíferos marinhos utilizam suas barbatanas para converter movimento em propulsão com elevada eficiência energética.

O mercado potencial pode ser muito maior

Talvez o aspecto mais importante da proposta esteja na expansão das áreas aptas para implantação.

A maior parte dos sistemas de energia das marés atualmente depende de locais com correntes extremamente fortes, normalmente superiores a cinco nós.

Isso limita drasticamente o número de regiões economicamente exploráveis.

A Caudal afirma que sua tecnologia consegue operar com eficiência em áreas de fluxo médio, com velocidades superiores a três nós, ampliando significativamente o número de locais viáveis para geração de energia.

Na prática, isso transforma a discussão.

O desafio deixa de ser apenas produzir energia de forma eficiente e passa a ser aumentar o tamanho do mercado disponível.

A transição energética começa a valorizar previsibilidade

O avanço da tecnologia também reflete uma mudança mais ampla no setor energético.

Nos últimos anos, a discussão sobre renováveis esteve concentrada na expansão de solar e eólica.

Agora, operadores de rede começam a olhar com mais atenção para a previsibilidade da geração.

À medida que a participação das fontes intermitentes cresce, aumenta também o valor de tecnologias capazes de fornecer energia em horários conhecidos e com menor necessidade de armazenamento.

Segundo os investidores da empresa, esse movimento começa a alterar a própria lógica econômica do setor, tornando fontes previsíveis cada vez mais relevantes para a estabilidade dos sistemas elétricos.

A energia das marés tenta sair do nicho

Embora a energia das marés seja estudada há décadas, poucos projetos conseguiram ultrapassar a fase de demonstração tecnológica.

O setor enfrenta um histórico de altos custos, implantação complexa e dificuldades para competir com a rápida queda de preços observada em solar e eólica.

A aposta da Caudal é que uma arquitetura mais simples possa alterar essa equação.

Atualmente no Nível de Prontidão Tecnológica 5 (TRL 5), a empresa pretende utilizar os novos recursos para avançar nos testes em escala real em Strangford Lough, na Irlanda do Norte. A expectativa é alcançar a primeira implantação comercial em 2028.

Biomimética ganha espaço na infraestrutura energética

Outro aspecto interessante da iniciativa é o uso de biomimética — abordagem que busca soluções tecnológicas inspiradas em sistemas naturais.

Nos últimos anos, conceitos derivados da observação de organismos vivos têm sido aplicados em áreas que vão da robótica à engenharia de materiais.

Agora, esse conceito também começa a aparecer em projetos voltados à infraestrutura energética.

No caso da Caudal, a eficiência evolutiva das barbatanas de mamíferos marinhos se tornou a base para uma tentativa de tornar a energia das marés mais competitiva.

O que isso indica para o futuro das renováveis

O avanço da Caudal sugere que a próxima fase da transição energética não dependerá apenas da expansão de solar e eólica.

À medida que os sistemas elétricos se tornam mais complexos, cresce a necessidade de fontes renováveis capazes de oferecer previsibilidade, estabilidade e complementaridade operacional.

Se conseguir provar sua viabilidade econômica em larga escala, a energia das marés pode finalmente deixar de ocupar um espaço experimental e assumir um papel mais relevante na matriz energética global.

E, nesse processo, uma solução inspirada em mamíferos marinhos pode ajudar a resolver um dos desafios mais persistentes das energias renováveis: transformar previsibilidade em competitividade.

Informações Extras:

O que é energia das marés?
É uma forma de geração de energia renovável que utiliza o movimento natural das marés para produzir eletricidade.

Qual a vantagem da energia das marés em relação à solar e à eólica?
A principal vantagem é a previsibilidade. As marés seguem ciclos conhecidos, permitindo estimar a geração de energia com grande precisão.

Por que a energia das marés ainda não é amplamente utilizada?
Os altos custos de instalação, manutenção e as limitações geográficas historicamente dificultaram sua expansão comercial.

O que a tecnologia da Caudal Energy faz de diferente?
Ela utiliza lâminas oscilantes inspiradas nas barbatanas de mamíferos marinhos, reduzindo a complexidade operacional e ampliando o número de locais onde a tecnologia pode ser instalada.

A energia das marés pode competir com a energia eólica?
A proposta da Caudal Energy é justamente reduzir custos e aumentar a escalabilidade para aproximar a energia das marés da competitividade econômica da eólica offshore.

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