Empresa holandesa anuncia testes industriais de ingrediente que promete menor valor calórico e pode substituir parte das funções do açúcar convencional em alimentos
A Fooditive anunciou ter realizado testes de produção de 5-ceto-D-frutose (5-KDF), um açúcar raro obtido por bioconversão, em um sistema industrial de 75 mil litros na Itália. Segundo a empresa, a operação ocorreu durante quase três meses, utilizando matérias-primas derivadas de frutas. O avanço representa uma etapa de escalonamento da tecnologia, em meio a negociações para sua comercialização.
O 5-KDF é produzido a partir da transformação da frutose por ação de microrganismos. A Fooditive pretende utilizá-lo como alternativa ao açúcar convencional em alimentos que exigem não apenas sabor doce, mas também volume e propriedades importantes para a textura e o processamento.
Segundo a empresa, o ingrediente apresenta cerca de 70% do poder adoçante da sacarose e fornece entre 1,4 e 1,5 quilocaloria por grama, diante das aproximadamente 4 kcal/g do açúcar convencional. Essa diferença ajuda a explicar seu interesse para a reformulação de alimentos, embora a redução calórica do produto final dependa da composição e da quantidade utilizada.
Da bioconversão ao teste industrial
Para produzir o 5-KDF, a Fooditive utiliza um processo chamado bioconversão, no qual a bactéria Gluconobacter oxydans transforma a frutose, açúcar naturalmente presente nas frutas, em outro composto com propriedades adoçantes.
A rota biotecnológica já foi demonstrada em pesquisas científicas. Estudos publicados em 2018, na revista Bioresource Technology, e em 2022, na Microbial Cell Factories, documentaram a produção de 5-KDF em laboratório e o escalonamento experimental em reatores com capacidade nominal de até 150 litros.
Esses trabalhos utilizaram linhagens geneticamente modificadas de G. oxydans, enquanto a Fooditive afirma empregar uma linhagem proprietária não modificada geneticamente.
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O sistema de 75 mil litros anunciado pela empresa representa, portanto, uma ampliação expressiva da capacidade dos equipamentos em relação aos experimentos publicados. Trabalhar com volumes maiores é uma etapa importante para aproximar processos biotecnológicos da fabricação industrial, embora a capacidade do equipamento não corresponda necessariamente ao volume efetivamente processado ou à quantidade de ingrediente produzido.
Segundo informações divulgadas pelo AgFunderNews em 2 de novembro, a operação foi conduzida por um fabricante contratado na Itália, utilizando coprodutos de maçãs e peras. A Fooditive afirma que os testes permitiram avaliar o processo durante um período prolongado, incluindo o uso de matérias-primas com características variáveis.
A empresa não divulgou dados operacionais suficientes para caracterizar os testes como demonstração de produção comercial regular.
Aplicações na indústria de alimentos
O interesse pelo 5-KDF está na possibilidade de substituir parte das funções do açúcar convencional. Diferentemente dos adoçantes de alta intensidade, utilizados em pequenas quantidades, um adoçante de volume pode contribuir também para características físicas dos alimentos.
A Fooditive afirma que o ingrediente apresenta propriedades adequadas a aplicações em panificação, confeitaria e bebidas. A empresa também relata testes envolvendo a Puratos, fornecedora internacional de ingredientes, mas não divulgou resultados detalhados que permitam avaliar seu desempenho em formulações específicas.
Outra possibilidade é o aproveitamento de coprodutos da cadeia de frutas como fonte de açúcares para a bioconversão. A utilização dessas matérias-primas pode ampliar as alternativas de fornecimento para o processo, sem que isso represente, por si só, uma vantagem ambiental ou econômica demonstrada.
Para avançar comercialmente, a Fooditive pretende licenciar a tecnologia a fabricantes de ingredientes. Segundo o AgFunderNews, a empresa mantém negociações avançadas com um potencial parceiro, ainda sem anúncio de acordo definitivo de produção comercial.
Segurança e situação regulatória
Nos Estados Unidos, o 5-KDF da Fooditive é objeto da notificação GRAS 1326, registrada na Food and Drug Administration (FDA) para usos pretendidos como adoçante e agente de volume em determinadas categorias de alimentos.
A empresa afirma ter obtido, em 2024, uma determinação GRAS de um painel independente. Essa avaliação não equivale a uma manifestação da FDA, cuja resposta à notificação permanecia pendente na consulta realizada em 3 de novembro de 2026.
A segurança do composto também foi investigada em estudos experimentais. Uma pesquisa publicada em 2022 na revista Frontiers in Microbiology identificou efeitos sobre o crescimento de bactérias e a viabilidade de culturas celulares humanas sob determinadas condições de exposição ao 5-KDF.
Em 2026, avaliações posteriores apresentadas pela Fooditive relataram resultados diferentes, incluindo testes de genotoxicidade negativos e ausência de citotoxicidade intrínseca nas condições examinadas. Os estudos utilizaram materiais e métodos distintos, e seus resultados não permitem, isoladamente, estabelecer efeitos sobre consumidores.
Próximos passos para a comercialização
Os testes anunciados pela Fooditive indicam uma tentativa de levar a produção biotecnológica de 5-KDF a equipamentos de escala industrial. Para a indústria de alimentos, a tecnologia oferece a perspectiva de ampliar as alternativas de reformulação com ingredientes que combinem dulçor, volume e menor valor energético.
A chegada ao mercado dependerá da consolidação do processo produtivo, da validação de aplicações alimentícias e do avanço regulatório. O teste em sistema de 75 mil litros representa uma etapa desse percurso, ainda anterior à comprovação de fornecimento comercial regular.




