Startup alemã Primogene aposta em biofabricação para escalar oligossacarídeos humanos e ampliar inovação em fórmulas infantis
A próxima geração da nutrição infantil pode depender menos da fermentação e mais de enzimas.
Em um mercado onde os oligossacarídeos do leite humano (HMOs) ganham protagonismo por seus efeitos sobre imunidade, microbiota intestinal e desenvolvimento neonatal, cresce também a disputa por modelos produtivos capazes de escalar essas moléculas com eficiência industrial.
É nesse cenário que a Primogene aposta em um caminho alternativo: a produção enzimática de biomoléculas complexas, replicando estruturas naturalmente presentes no leite materno.
O limite atual da fermentação
Os HMOs se tornaram um dos territórios mais estratégicos da inovação em fórmulas infantis.
Essas biomoléculas desempenham funções importantes na formação da microbiota intestinal, no fortalecimento da imunidade e na proteção contra patógenos nos primeiros meses de vida. O desafio está na produção.
Hoje, grande parte da fabricação desses ingredientes depende de processos fermentativos, que exigem alto investimento, custos operacionais elevados e enfrentam limitações biológicas na produção de moléculas mais complexas.
Esse gargalo limita expansão e diversificação.
Enzimas entram como nova rota industrial
A proposta da Primogene é substituir parte dessa lógica por biofabricação enzimática.
Em vez de depender de microrganismos para produzir moléculas complexas, a plataforma utiliza biocatálise para construir estruturas idênticas às naturais com maior precisão e potencial de escalabilidade.
Essa mudança é importante porque reposiciona as enzimas não apenas como ferramenta industrial, mas como infraestrutura produtiva para ingredientes altamente complexos.
O foco inicial está nos HMOs mais complexos
O primeiro território estratégico da empresa é a nutrição infantil.
O foco inicial está no DSLNT (disialyllacto-N-tetraose), um oligossacarídeo estruturalmente complexo associado à proteção de bebês prematuros e a benefícios clínicos importantes no desenvolvimento neonatal.
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Além disso, a empresa desenvolve moléculas da família lacto-N-tetraose fucosiladas, incluindo estruturas de alta concentração natural no leite materno. Isso amplia o potencial de aproximação entre fórmula e leite humano.
Mercado cresce e demanda acelera
O timing da tecnologia acompanha uma forte expansão do mercado.
Segundo dados do setor, o mercado global de HMOs cresce entre 18% e 20% ao ano, enquanto mais de 65% dos lançamentos de fórmulas infantis em 2023 já incorporavam ao menos um HMO.
Esse movimento mostra que os HMOs deixaram de ser diferencial e caminham para se tornar padrão competitivo.
A tecnologia vai além da nutrição infantil
Embora a entrada de mercado aconteça via fórmulas infantis, a plataforma tem aplicações mais amplas.
A Primogene também trabalha em biomoléculas voltadas à saúde intestinal em adultos, suporte cognitivo em idosos e ingredientes funcionais para cuidados pessoais.
Esse ponto é estratégico porque amplia a viabilidade econômica da plataforma, permitindo múltiplos mercados a partir da mesma infraestrutura produtiva.
Da inovação ao mercado
A empresa agora busca acelerar sua entrada industrial. A startup captou €4,8 milhões para expandir capacidade produtiva, ampliar propriedade intelectual e fortalecer parcerias estratégicas para colocar seus HMOs no mercado.
Mas o investimento, aqui, é consequência.
O centro da pauta está em algo maior: uma nova forma de fabricar biomoléculas que até agora dependiam de processos caros e biologicamente limitados.
O que isso indica para o futuro da nutrição funcional
O avanço da produção enzimática sugere uma mudança importante na biofabricação de ingredientes.
Se a fermentação dominou a primeira fase da biotecnologia alimentar, a próxima pode ser marcada por sistemas mais precisos, escaláveis e adaptáveis à complexidade molecular.
No caso da nutrição infantil, isso significa algo ainda maior: reduzir a distância funcional entre fórmulas e leite materno.
E, para a indústria, representa um novo caminho para construir ingredientes mais sofisticados com menos limitações produtivas.




