Startup Rize capta US$ 31 milhões para ampliar práticas agrícolas de baixo carbono e mostra como o manejo da água pode mudar uma das culturas mais importantes do mundo
Responsável por cerca de 10% a 12% das emissões globais de metano, o cultivo de arroz tornou-se um dos principais alvos das tecnologias voltadas à agricultura de baixo carbono. Nesse cenário, a startup Rize, sediada em Singapura, anunciou a captação de US$ 31 milhões em uma rodada Série B para ampliar a adoção de práticas agrícolas capazes de reduzir emissões, economizar água e aumentar a renda de pequenos produtores na Ásia.
Com o novo investimento, a empresa eleva para US$ 47 milhões o total de recursos captados desde sua fundação. A rodada reúne investidores especializados em clima, agricultura e desenvolvimento, incluindo BNP Paribas Asset Management Alts, The Rockefeller Foundation, Temasek, Breakthrough Energy Ventures, UOB e BIDV.
Mais do que financiar a expansão da empresa, o aporte reforça uma tendência crescente no agronegócio: a descarbonização da produção agrícola passa cada vez menos pelo desenvolvimento de novos insumos e cada vez mais pela transformação da forma como as lavouras são conduzidas.
O arroz tornou-se um desafio climático
Embora o debate sobre emissões agrícolas frequentemente esteja associado à pecuária e aos fertilizantes, o arroz ocupa uma posição relevante nesse cenário.
O cultivo convencional depende do alagamento permanente das lavouras, condição que favorece a proliferação de bactérias metanogênicas responsáveis pela produção de metano, um gás de efeito estufa com elevado potencial de aquecimento global.
Por esse motivo, organismos internacionais e empresas do setor têm direcionado esforços para desenvolver sistemas produtivos capazes de manter a produtividade das lavouras reduzindo, ao mesmo tempo, as emissões e o consumo de recursos naturais.
Manejo da água ganha papel estratégico
A principal tecnologia adotada pela Rize não envolve sementes geneticamente modificadas nem novos defensivos agrícolas.
O foco está no manejo da água por meio da técnica conhecida como Alternate Wetting and Drying (AWD), ou umedecimento e secagem alternados.
Nesse sistema, as áreas cultivadas deixam de permanecer constantemente alagadas e passam por ciclos controlados de drenagem e novo alagamento ao longo do desenvolvimento da cultura.
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Segundo estudos citados pela empresa, essa prática pode reduzir entre 30% e 70% das emissões de metano provenientes do cultivo de arroz, além de diminuir significativamente o consumo de água, um benefício especialmente relevante em regiões sujeitas à escassez hídrica, como parte do Sudeste Asiático.
O desafio, porém, está na adoção dessa mudança.
A implementação exige conhecimento técnico, acompanhamento agronômico e confiança por parte dos produtores de que a nova prática não comprometerá a produtividade da lavoura.
Tecnologia, assistência técnica e dados formam um novo modelo agrícola
Para superar essas barreiras, a Rize desenvolveu um modelo que combina assistência técnica, monitoramento digital e sistemas de medição das emissões.
A empresa atua diretamente com produtores rurais por meio de uma equipe de aproximadamente 50 agrônomos e utiliza um aplicativo próprio para registrar dados de campo, orientar o manejo das lavouras e alimentar sistemas de Medição, Relato e Verificação (MRV), utilizados para comprovar os resultados ambientais obtidos.
As reduções de emissões geradas pelos projetos são verificadas por entidades independentes. Um dos programas desenvolvidos pela empresa, voltado à produção sustentável de arroz no Sul e Sudeste Asiático, recebeu classificação positiva da agência especializada BeZero Carbon.
Além da redução das emissões, a plataforma também auxilia os agricultores a atender exigências relacionadas aos limites máximos de resíduos (MRL), requisito importante para acessar mercados internacionais de maior valor agregado.
Baixa emissão também passa a agregar valor ao produto
A estratégia da empresa vai além da adoção de práticas agrícolas sustentáveis.
Atualmente, a Rize trabalha com cerca de 17 mil pequenos produtores distribuídos por aproximadamente 50 mil hectares no Vietnã e na Indonésia. Segundo a empresa, esse modelo já permitiu exportar cerca de 1.500 toneladas de arroz de baixa emissão para mercados como Europa, Canadá, Austrália e Singapura.
O objetivo é ampliar essa rede para 150 mil agricultores e alcançar 300 mil hectares cultivados até o fim da década.
O movimento sinaliza uma transformação importante para a cadeia agroalimentar. Se, durante muitos anos, atributos como produtividade e qualidade definiram o valor comercial dos alimentos, fatores ambientais passam a ocupar espaço crescente nas negociações internacionais.
Nesse contexto, características como emissões reduzidas, rastreabilidade e conformidade ambiental tendem a se tornar diferenciais competitivos para produtores que desejam acessar mercados premium e atender às exigências de compradores globais.
A descarbonização do agro passa pelo manejo
A trajetória da Rize evidencia uma mudança importante na forma como a inovação chega ao campo.
Em vez de depender exclusivamente de novas variedades de sementes ou de tecnologias embarcadas em máquinas e insumos, parte da transformação da agricultura passa a ocorrer por meio da combinação entre conhecimento agronômico, plataformas digitais, monitoramento contínuo e certificação de resultados.
No caso do arroz, essa mudança assume um papel estratégico. À medida que governos, investidores e compradores internacionais ampliam a pressão pela redução das emissões agrícolas, práticas de manejo capazes de economizar água, reduzir metano e gerar evidências confiáveis de desempenho ambiental deixam de representar apenas uma vantagem sustentável.
Elas passam a integrar um novo modelo de competitividade para a produção agrícola, no qual inovação, produtividade e acesso a mercados caminham cada vez mais juntos.
Saiba mais sobre o assunto:
Por que o cultivo de arroz emite metano?
O cultivo convencional mantém os arrozais permanentemente alagados, criando um ambiente favorável à ação de bactérias que produzem metano durante a decomposição da matéria orgânica.
O que é a técnica AWD?
AWD (Alternate Wetting and Drying) é um sistema de manejo da água que alterna períodos de drenagem e novo alagamento das lavouras, reduzindo significativamente as emissões de metano e o consumo de água sem comprometer a produtividade.
Quanto o AWD pode reduzir as emissões de metano?
Segundo estudos citados pela Rize, a técnica pode reduzir entre 30% e 70% das emissões de metano associadas ao cultivo de arroz.
O que é arroz de baixa emissão?
É o arroz produzido por sistemas agrícolas que reduzem as emissões de gases de efeito estufa por meio de práticas de manejo sustentável e monitoramento ambiental.
Como essa tecnologia beneficia os produtores?
Além da redução das emissões e do consumo de água, ela pode facilitar o acesso a mercados internacionais, atender exigências ambientais e agregar valor ao produto.




