sexta-feira, 19/06/2026
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Proteínas lácteas sem vacas entram na fase industrial com avanço da fermentação de precisão

Vivici recebe € 14,4 milhões do Conselho Europeu de Inovação para ampliar a produção de proteínas lácteas obtidas por fermentação de precisão, em um momento em que a tecnologia avança da validação científica para a escala comercial

 

 

A startup holandesa Vivici recebeu € 14,4 milhões (US$ 16,8 milhões) do Programa Acelerador do Conselho Europeu de Inovação (EIC) para expandir a produção de proteínas lácteas por meio de fermentação de precisão. O financiamento, composto por € 2,5 milhões em subsídios e € 10 milhões em investimento de capital, reforça um movimento que vem ganhando força na indústria alimentar: a transição das proteínas alternativas da fase experimental para a produção em escala industrial.

Fundada em 2022 pela cooperativa neozelandesa Fonterra e pela empresa de nutrição e biociências DSM-Firmenich, a Vivici desenvolve proteínas lácteas produzidas por microrganismos geneticamente programados, eliminando a necessidade da pecuária tradicional para obtenção de ingredientes como beta-lactoglobulina e lactoferrina.

Mais do que um novo aporte, o investimento sinaliza a confiança crescente de investidores, reguladores e indústrias em uma tecnologia que promete redefinir a forma como proteínas são produzidas.

Da promessa tecnológica à escala industrial

Durante anos, a fermentação de precisão foi tratada como uma das apostas mais promissoras da foodtech.

A tecnologia utiliza microrganismos, como leveduras ou fungos, para produzir moléculas idênticas às encontradas em alimentos de origem animal. Na prática, permite fabricar proteínas lácteas sem vacas, claras de ovo sem galinhas e outros ingredientes de forma controlada e potencialmente mais sustentável.

O desafio, porém, sempre foi a escala. Produzir em laboratório é uma coisa. Fabricar milhares de toneladas a custos competitivos é outra. É justamente essa etapa que a Vivici busca acelerar.

Segundo Stephan van Sint Fiet, CEO da empresa, em entrevista concedida ao portal AgFunderNews, a companhia conseguiu avançar rapidamente ao combinar conhecimento científico com experiência industrial.

“Entramos no mercado como novatos e, desde então, ultrapassamos muitos concorrentes e nos catapultamos para a liderança. Temos uma base tecnológica muito sólida, um profundo conhecimento das aplicações e do marketing dos ingredientes, e uma equipe com histórico comprovado de levar inovações ao mercado”, afirmou.

O gargalo da biofabricação começa a ser enfrentado

Um dos principais obstáculos para a expansão da fermentação de precisão está na eficiência dos processos produtivos.

A produtividade dos microrganismos, os rendimentos obtidos e os custos associados à biofabricação são fatores decisivos para que proteínas alternativas consigam competir economicamente com ingredientes convencionais.

 

Leia Mais:

 

Recentemente, a Vivici incorporou à sua plataforma uma tecnologia desenvolvida pela startup dinamarquesa Enduro Genetics, voltada justamente para aumentar os chamados títulos e rendimentos — métricas que medem a eficiência da produção em biorreatores.

Embora a empresa não tenha divulgado números específicos, a expectativa é que a integração aumente significativamente a capacidade produtiva e reduza custos operacionais.

Esse tipo de avanço é acompanhado de perto pelo setor, já que muitos especialistas consideram a produtividade industrial o principal fator que determinará o sucesso comercial da fermentação de precisão nos próximos anos.

Regulação deixa de ser obstáculo e vira diferencial

Outro sinal de maturidade do setor está no avanço regulatório.

Em fevereiro de 2025, a Vivici recebeu da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, o status GRAS (Generally Recognized as Safe) para sua beta-lactoglobulina, principal proteína do soro do leite.

Um ano depois, a empresa obteve a mesma classificação para a lactoferrina, proteína bioativa amplamente utilizada em suplementos e fórmulas nutricionais.

Segundo Van Sint Fiet, a empresa agora trabalha para obter aprovação na Europa.

“Nosso foco é submeter um dossiê de alta qualidade à EFSA e esperamos que isso permita que a agência chegue a um parecer científico positivo rapidamente, idealmente dentro do prazo de 18 meses que ela estabelece para si mesma”, afirmou.

A aprovação europeia é vista como um passo importante para ampliar a adoção da tecnologia em um dos mercados mais relevantes para ingredientes alimentícios.

A indústria já começa a se preparar

Enquanto busca novas aprovações regulatórias, a Vivici já estrutura sua capacidade industrial.

A empresa possui parceiros de manufatura na Europa, firmou um acordo com a Liberation Bioindustries para produzir proteínas em Indiana, nos Estados Unidos, e trabalha com o Escritório de Investimentos de Abu Dhabi para avaliar a construção de uma unidade industrial nos Emirados Árabes Unidos.

Além disso, a startup afirma já ter contratos comerciais assinados para seus produtos Vivitein BLG e Vivitein LF.

“O impulso comercial continua a crescer. Estamos vendo um forte interesse se transformar em ações concretas, com contratos de fornecimento já assinados e sendo atendidos a partir do nosso estoque atual”, disse Van Sint Fiet.

O que isso indica para o futuro das proteínas alternativas

A trajetória da Vivici sugere que a discussão sobre fermentação de precisão está mudando. A pergunta já não parece ser se a tecnologia funciona.

Os avanços em produtividade, a obtenção de aprovações regulatórias e o início das vendas comerciais indicam que a próxima disputa será por escala, eficiência e competitividade.

Se essa tendência se consolidar, ingredientes historicamente dependentes da pecuária poderão passar a ser produzidos em biorreatores, alterando não apenas a cadeia de suprimentos da indústria alimentícia, mas também a forma como proteínas são concebidas, fabricadas e distribuídas.

E isso pode marcar a entrada definitiva da fermentação de precisão em sua fase industrial.

Saiba mais sobre o assunto:

O que é fermentação de precisão?
A fermentação de precisão é uma tecnologia que utiliza microrganismos programados para produzir ingredientes específicos, como proteínas, gorduras e enzimas, de forma semelhante aos encontrados em alimentos de origem animal.

O que a Vivici produz?
A Vivici produz proteínas lácteas, como beta-lactoglobulina e lactoferrina, utilizando fermentação de precisão, sem a necessidade de vacas.

O que significa produzir proteínas lácteas sem vacas?
Significa fabricar proteínas idênticas às do leite por meio de microrganismos em biorreatores, eliminando a dependência da pecuária tradicional.

O que é beta-lactoglobulina?
É a principal proteína do soro do leite, amplamente utilizada em bebidas proteicas, suplementos e alimentos funcionais.

A fermentação de precisão já está em escala comercial?
Sim. Empresas como a Vivici já possuem aprovações regulatórias, contratos comerciais e estão expandindo sua capacidade de produção industrial.

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