Aquisição das operações na Argentina e no Uruguai reforça a mudança estratégica da foodtech chilena, que deixa gradualmente o negócio de produtos de consumo para apostar no licenciamento de inteligência artificial para a indústria alimentícia
A venda das operações da NotCo na Argentina e no Uruguai para a Molinos Río de la Plata pode representar mais do que uma transação entre duas empresas de alimentos. Ela sugere uma mudança mais profunda: a transformação de uma das principais foodtechs da América Latina em uma empresa de inteligência artificial.
A Molinos, maior fabricante de alimentos de marca da Argentina e controlada pelo Grupo Pérez Companc, anunciou a aquisição de 100% das operações da NotCo nos dois países. O valor da transação não foi divulgado e a conclusão do negócio ainda depende das aprovações regulatórias habituais.
Para a Molinos, o acordo amplia a presença em categorias associadas a consumidores mais jovens e interessados em alimentação baseada em plantas. Para a NotCo, a operação acelera uma estratégia que vem sendo desenhada há alguns anos: reduzir sua exposição ao mercado de produtos de consumo e concentrar recursos em sua plataforma de inteligência artificial voltada ao desenvolvimento de alimentos.
A mudança levanta uma questão que começa a ganhar força no setor: no futuro da indústria alimentícia, o ativo mais valioso será a marca que vende alimentos ou a tecnologia capaz de criá-los?
De fabricante de alimentos a empresa de tecnologia
Fundada no Chile em 2015 por Matías Muchnick, Pablo Zamora e Karim Pichara, a NotCo ganhou notoriedade ao lançar alternativas vegetais que prometiam reproduzir sabor, textura e funcionalidade de produtos de origem animal.
NotMilk, NotBurger e NotMayo rapidamente se tornaram símbolos da nova geração de alimentos plant-based e ajudaram a empresa a atrair investidores como Jeff Bezos, além de ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão em valuation e alcançar o status de unicórnio.
Mas, desde o início, a principal aposta da empresa talvez não estivesse nos produtos. Ela estava no Giuseppe.
Leia Mais:
- Quais as lições da NotCo no Brasil para empreendedores de consumo?
- Pressão climática e geopolítica acelera transformação deeptech no agronegócio
- The Land Group expande modelo de agricultura regenerativa para o Brasil
A plataforma proprietária de inteligência artificial foi desenvolvida para analisar estruturas moleculares de alimentos de origem animal e identificar combinações de ingredientes vegetais capazes de reproduzir suas características sensoriais e funcionais.
Na prática, a IA atua como uma ferramenta de formulação, auxiliando cientistas de alimentos, chefs e desenvolvedores na criação de novos produtos.
“O número de combinações possíveis de ingredientes é praticamente infinito. É preciso uma IA que guie esse processo e ajude a construir o protótipo da fórmula”, afirmou Karim Pichara, cofundador e CTO da empresa, em entrevista concedida à Green Queen no ano passado.
O plant-based pode ter sido apenas o começo
Durante anos, a NotCo foi vista como uma empresa de alimentos alternativos. Hoje, ela parece enxergar a si mesma de outra forma.
A venda das operações no Cone Sul reforça uma transição que já vinha acontecendo em outros mercados.
Nos Estados Unidos e Canadá, a companhia criou uma joint venture com a Kraft Heinz para desenvolver versões vegetais de produtos tradicionais. Mais recentemente, transferiu essas operações para a multinacional e passou a concentrar seus esforços em sua divisão de inteligência artificial.
A mudança também se reflete na comunicação da empresa.
Seu site institucional passou a destacar a NotCo AI, plataforma que oferece soluções de desenvolvimento de produtos para grandes fabricantes de alimentos e bebidas.
Entre os clientes e parceiros estão empresas como Nestlé, PepsiCo, Mars, Barry Callebaut e Mondelēz International.
A estratégia sugere uma inversão de prioridades: em vez de competir diretamente nas gôndolas, a empresa busca se tornar a infraestrutura tecnológica por trás da próxima geração de alimentos.
A IA pode valer mais do que os produtos
O movimento da NotCo ocorre em um momento desafiador para o setor plant-based.
Após anos de crescimento acelerado, o mercado passou a enfrentar desaceleração em diversas regiões, pressionando margens e exigindo revisões nos modelos de negócio.
Ao mesmo tempo, a inteligência artificial se consolidou como uma das principais áreas de investimento da indústria.
Nesse contexto, plataformas capazes de acelerar a formulação de produtos, reduzir custos e substituir ingredientes se tornam ativos cada vez mais estratégicos.
Para a NotCo, isso significa trocar um modelo baseado em produção, logística e distribuição por outro centrado em propriedade intelectual, dados e licenciamento tecnológico.
É uma mudança que lembra transformações observadas em outros setores da economia, onde empresas deixaram de monetizar apenas produtos para oferecer plataformas e infraestrutura tecnológica.
A Molinos aposta em novos hábitos de consumo
Enquanto a NotCo se aproxima do universo das empresas de tecnologia, a Molinos avança na direção oposta: fortalecer sua presença junto aos consumidores.
Com quase 125 anos de história, a companhia argentina é líder em categorias tradicionais como massas, arroz, óleos e farinhas.
A aquisição permite ampliar sua atuação em segmentos associados à alimentação baseada em plantas, nutrição funcional e conveniência.
“A incorporação da NotCo Foods representa uma oportunidade para fortalecer ainda mais nossa capacidade de inovação e acompanhar a evolução das preferências dos consumidores”, afirmou Agustín Llanos, CEO da Molinos.
A empresa também ganha acesso a marcas já estabelecidas e a um público que busca alternativas alimentares alinhadas a questões de saúde, sustentabilidade e redução do consumo de proteína animal.
O que isso indica para o futuro das foodtechs
A transação entre Molinos e NotCo pode sinalizar uma nova fase para as foodtechs.
Nos últimos anos, muitas startups nasceram com a ambição de criar alimentos disruptivos e desafiar grandes multinacionais.
Agora, parte delas começa a perceber que seu maior diferencial talvez não esteja nos produtos finais, mas nas tecnologias desenvolvidas para criá-los.
Se essa tendência se consolidar, a próxima geração de empresas do setor poderá ser menos parecida com fabricantes de alimentos e mais próxima de empresas de software.
Nesse cenário, marcas e fábricas continuam importantes.
Mas a inteligência artificial, os dados e a capacidade de desenvolver novos produtos em velocidade podem se tornar os ativos mais valiosos da alimentação do futuro.
Saiba mais sobre o assunto:
O que aconteceu com a NotCo?
A NotCo vendeu suas operações na Argentina e no Uruguai para a Molinos Río de la Plata e vem concentrando sua estratégia global em inteligência artificial aplicada ao desenvolvimento de alimentos.
O que é o Giuseppe, da NotCo?
Giuseppe é a plataforma proprietária de inteligência artificial da NotCo, desenvolvida para analisar estruturas moleculares de alimentos e criar formulações baseadas em ingredientes vegetais.
A NotCo vai deixar de vender alimentos?
A empresa vem reduzindo sua atuação direta em produtos de consumo para ampliar seu modelo de negócios baseado em licenciamento de tecnologia e soluções B2B.
Quem é a Molinos Río de la Plata?
A Molinos é a maior empresa de alimentos de marca da Argentina, controlada pelo Grupo Pérez Companc e com atuação em categorias como massas, óleos, arroz e alimentos congelados.
Por que a IA é importante para a indústria alimentícia?
A inteligência artificial pode acelerar a formulação de produtos, reduzir custos, otimizar ingredientes e auxiliar empresas a desenvolver alimentos mais rapidamente e com maior precisão.




