quinta-feira, 03/09/2026
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Usuários de GLP-1 planejam ampliar gastos com proteínas e fibras, aponta BCG

Pesquisa identifica mudanças no consumo que também alcançam famílias e podem permanecer após o tratamento

 

 

O avanço dos medicamentos GLP-1 começa a produzir mudanças que vão além da redução do volume de alimentos consumidos. Usuários desses tratamentos afirmam que pretendem redirecionar parte de seus gastos para alimentos ricos em proteínas e fibras, frutas, vegetais e produtos funcionais, enquanto categorias como doces, snacks e refrigerantes podem perder espaço no orçamento.

Os dados fazem parte de um levantamento do Boston Consulting Group (BCG) com mais de 1.500 usuários de GLP-1 em nove mercados. A pesquisa analisou comportamentos e intenções de compra antes, durante e depois do uso dos medicamentos e aponta que parte dessas mudanças pode permanecer mesmo após a interrupção do tratamento.

Nos Estados Unidos, o BCG estima que aproximadamente 16 milhões de pessoas utilizem atualmente medicamentos GLP-1, ante cerca de 6 milhões em 2022. Até 2030, a consultoria projeta uma base entre 30 milhões e 35 milhões de usuários ativos no país.

Para a indústria de alimentos, a dimensão dessa expansão é acompanhada por outra questão: os usuários não indicam apenas que pretendem comer menos, mas que querem mudar onde gastam seu orçamento alimentar.

Proteínas e fibras ganham espaço no orçamento

Entre os usuários ativos de GLP-1 entrevistados, a intenção é aumentar em média 15% os gastos mensais com frutas e vegetais e 11% com alimentos ricos em proteínas.

O levantamento também registra expectativa de aumento relevante nas despesas com produtos ricos em fibras e grãos integrais. Além disso, os participantes disseram ter aproximadamente duas vezes mais propensão a escolher produtos funcionais, que enfatizam benefícios relacionados à saúde, do que opções posicionadas apenas como premium.

O movimento aparece ainda com mais intensidade nos suplementos. Usuários ativos pretendem gastar cerca de 20% a mais com suplementos de proteína, fibras e colágeno, segundo o BCG.

 

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Do outro lado, algumas categorias apresentam intenção de redução.

Os entrevistados afirmaram que planejam gastar 14% menos com balas e doces e 12% menos com acompanhamentos congelados preparados. Para snacks salgados, bebidas alcoólicas, refrigerantes e chocolates, a queda esperada fica próxima de 10%.

A diferença é importante para a indústria porque sugere que o impacto do GLP-1 pode ocorrer menos como uma redução uniforme do mercado de alimentos e mais como uma redistribuição de demanda entre categorias.

O próprio BCG observa que, apesar da menor ingestão calórica, ainda não há indicação de uma redução equivalente no gasto total com alimentação. Até agora, varejistas relatam principalmente uma migração para alternativas percebidas como mais saudáveis ou de maior valor.

Mudanças podem continuar após a interrupção

Outro resultado do levantamento desafia a ideia de que o consumidor relacionado ao GLP-1 existe apenas enquanto utiliza o medicamento.

Segundo o BCG, cerca de um terço das pessoas que já utilizaram GLP-1 está, em determinado momento, fora do tratamento. Entre esse grupo, aproximadamente 60% afirmam que pretendem voltar a utilizar os medicamentos. Mais de 10% dos usuários ativos já alternam intencionalmente períodos de uso e interrupção.

Essa dinâmica cria diferentes momentos de consumo e exige que as empresas considerem não apenas usuários ativos, mas também pessoas que interromperam ou pretendem retomar o tratamento.

A pesquisa identificou ainda comportamentos distintos entre categorias depois que o medicamento é suspenso.

Snacks salgados, refeições congeladas e doces estão entre os produtos cujo consumo tende a se recuperar. Já alimentos ricos em proteínas, incluindo iogurtes, além de carnes, frutas e vegetais, aparecem entre aqueles cujo aumento pode continuar mesmo depois da interrupção.

Isso significa que algumas mudanças iniciadas durante o tratamento podem se transformar em novos hábitos alimentares, enquanto outras permanecem diretamente associadas ao período de utilização do medicamento.

Efeito chega a outros integrantes da família

A influência também pode ultrapassar o consumidor diretamente tratado.

Sete em cada dez usuários entrevistados pelo BCG relataram mudanças no comportamento alimentar ou nas rotinas de atividade física das pessoas com quem vivem.

Segundo a consultoria, integrantes da família que não utilizam GLP-1 tendem a reproduzir entre 30% e 50% das mudanças observadas no usuário, incluindo menor consumo de alimentos processados e fast food e maior presença de frutas e vegetais na alimentação.

Ao incorporar esse efeito doméstico, o BCG estima que o mercado potencial influenciado pelo GLP-1 pode ser aproximadamente 50% maior do que aquele representado exclusivamente pelos usuários ativos.

Para fabricantes, esse dado amplia a discussão sobre desenvolvimento de produtos. Uma formulação ou embalagem não necessariamente precisa ser pensada apenas para uma pessoa em tratamento, mas pode fazer parte de uma mudança mais ampla na cesta de compras da família.

Embalagens e portfólio também entram na discussão

As implicações identificadas pelo BCG não se limitam aos ingredientes utilizados nas formulações.

A consultoria recomenda que fabricantes avaliem seus portfólios a partir da funcionalidade, acelerando produtos ricos em proteína e fibra e revisando sua exposição a categorias nas quais o consumo pode diminuir durante o tratamento.

O tamanho das embalagens também entra nessa equação.

Para categorias indulgentes e premium, o BCG sugere considerar porções menores, permitindo que consumidores mantenham determinados produtos na cesta mesmo quando desejam ingerir quantidades menores.

Ao mesmo tempo, o efeito sobre toda a família pode criar espaço para formatos compartilháveis em categorias que passam a ganhar consumo dentro da casa.

A consultoria também recomenda que empresas testem cenários para 2030 envolvendo preço, inovação e planejamento de capacidade produtiva, diante da possibilidade de praticamente dobrar a base americana de usuários nos próximos anos.

Indústria já começa a responder

Alguns movimentos recentes mostram que essas mudanças de comportamento já começam a chegar às áreas de desenvolvimento de produtos.

A Nestlé, por exemplo, está utilizando ciência nutricional e inteligência artificial para desenvolver produtos direcionados às necessidades de consumidores que utilizam medicamentos GLP-1.

A companhia pesquisa questões como preservação da massa muscular, hidratação e adequação nutricional diante da menor ingestão de alimentos, além de investigar formulações destinadas ao período posterior à interrupção do tratamento.

Fabricantes de outras categorias também começam a adaptar produtos. No mercado de sorvetes, empresas vêm explorando porções menores, maior teor de proteína e formulações com posicionamento de bem-estar diante das mudanças na demanda.

Os dados do BCG ajudam a explicar por que proteína, fibra, densidade nutricional e funcionalidade começam a aparecer com mais frequência nesses pipelines de inovação.

O desafio para a indústria não é simplesmente desenvolver uma nova categoria de “alimentos para GLP-1”. O levantamento aponta para algo mais amplo: consumidores podem alternar períodos de uso e pausa, modificar permanentemente parte de seus hábitos e influenciar as escolhas alimentares das pessoas que vivem com eles.

Nesse cenário, o GLP-1 passa a interferir não apenas na quantidade de alimentos consumidos, mas na distribuição da demanda entre categorias, ingredientes, formatos e propostas nutricionais.

Para fabricantes de alimentos, acompanhar essa mudança significa entender quais comportamentos permanecem, quais desaparecem depois do tratamento e como proteínas, fibras e funcionalidade podem entrar em produtos capazes de atender um mercado que, segundo as projeções do BCG, ainda está no início de sua expansão.

 

Saiba mais sobre o assunto:

 

Como o GLP-1 está mudando o consumo de alimentos?
Segundo levantamento do BCG, usuários de GLP-1 relatam intenção de aumentar gastos com frutas, vegetais, alimentos ricos em proteínas e produtos com fibras, enquanto algumas categorias indulgentes podem perder espaço.

Quais categorias podem ganhar com o avanço do GLP-1?
Produtos ricos em proteínas e fibras, alimentos funcionais, suplementos, frutas, vegetais e algumas categorias associadas à saúde aparecem entre os segmentos com maior intenção de gasto.

Quais categorias podem perder consumo?
O levantamento aponta intenção de redução em categorias como doces, snacks salgados, refrigerantes, bebidas alcoólicas e alguns alimentos congelados preparados.

As mudanças desaparecem quando o usuário interrompe o GLP-1?
Nem sempre. O BCG identificou categorias cujo consumo pode se recuperar após a interrupção e outras em que o aumento permanece, como alimentos ricos em proteínas, frutas, vegetais e carnes.

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