Pesquisa combinou dados humanos, testes celulares e machine learning para investigar a relação entre microbiota e sarcopenia.
O consumo regular de probióticos foi associado a maior força e massa muscular e a uma menor ocorrência de sarcopenia entre adultos com 60 anos ou mais, segundo um novo estudo que investigou a relação entre microbiota intestinal e saúde muscular durante o envelhecimento.
A pesquisa combinou dados populacionais dos Estados Unidos e do Reino Unido com informações de uma base internacional de microbioma, experimentos realizados em células musculares e análises computacionais. Os resultados reforçam a investigação do chamado eixo intestino–músculo, pelo qual microrganismos e metabólitos produzidos no intestino podem influenciar processos relacionados à manutenção da função muscular.
Nos três conjuntos de dados analisados, a sarcopenia foi menos frequente entre consumidores de probióticos. Nos Estados Unidos, a condição estava presente em 20% dos usuários, ante 26% entre os não usuários. No Reino Unido, os percentuais foram de 20% e 24%, respectivamente. Na base internacional de microbioma, a diferença foi de 18% para 26%.
Os resultados, publicados na Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, não demonstram, entretanto, que os probióticos sejam capazes de prevenir a sarcopenia. Os pesquisadores destacam que os mecanismos envolvidos ainda não estão completamente esclarecidos e apontam a necessidade de ensaios clínicos mais longos para avaliar essa possibilidade.
Microbiota entra na investigação sobre saúde muscular
A sarcopenia é caracterizada pela perda de massa, força e função muscular relacionada ao envelhecimento. Diferentes processos podem contribuir para seu desenvolvimento, incluindo inflamação crônica, disfunção mitocondrial, redução da síntese de proteínas musculares, resistência anabólica e alterações metabólicas.
A microbiota intestinal começa a ser investigada como mais uma variável nesse processo.
As bactérias presentes no intestino podem interferir na inflamação, na absorção de nutrientes e no metabolismo. Algumas também produzem ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato, associados a mecanismos envolvidos na função mitocondrial, sensibilidade à insulina, inflamação e formação muscular.
Para investigar essa relação, os pesquisadores analisaram inicialmente dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), dos Estados Unidos, comparando adultos com 60 anos ou mais que consumiam probióticos regularmente com aqueles que não utilizavam esses produtos.
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Foram considerados indicadores como força de preensão manual, massa muscular, ingestão de proteínas e níveis de proteína C-reativa, utilizada como marcador de inflamação.
Uma análise semelhante foi realizada com dados do UK Biobank, no Reino Unido. Nesse caso, o consumo regular de probióticos foi identificado a partir da utilização de suplementos e do consumo de iogurte, e relacionado a indicadores como força, massa livre de gordura, atividade física e inflamação.
Nos dois conjuntos de dados, os consumidores regulares apresentaram maior força e massa muscular em comparação aos não consumidores.
Diversidade da microbiota também foi analisada
Uma terceira etapa utilizou informações do Gut Microbiota Repository (GMrepo), banco internacional que reúne dados sobre microbioma.
Os pesquisadores analisaram adultos mais velhos que consumiam probióticos ou alimentos fermentados e avaliaram tanto a diversidade da microbiota quanto a presença de bactérias relacionadas aos probióticos e à produção de ácidos graxos de cadeia curta.
Participantes com maior presença de bactérias associadas aos probióticos apresentaram maior diversidade do microbioma intestinal e diferenças na composição das comunidades bacterianas.
A convergência dos resultados encontrados nas três bases foi considerada pelos autores um dos pontos relevantes do trabalho, embora as análises humanas sejam observacionais e, portanto, não permitam estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre consumo de probióticos e proteção muscular.
Experimentos avaliaram efeitos diretamente em células musculares
Além dos dados humanos, os pesquisadores realizaram experimentos laboratoriais com três cepas probióticas: Lactobacillus rhamnosus, Lactobacillus plantarum e Bifidobacterium longum.
Metabólitos produzidos por essas bactérias foram aplicados a células musculares para investigar possíveis efeitos sobre seu desenvolvimento.
Os experimentos indicaram aumento na formação de fibras musculares maduras. A taxa de fusão dos miotubos passou de 78,9% para 85,6%, além de haver aumento na espessura das fibras e na atividade de genes relacionados ao desenvolvimento muscular.
Os pesquisadores também testaram os ácidos graxos de cadeia curta acetato, propionato e butirato e utilizaram simulações moleculares para avaliar sua possível interação com proteínas envolvidas no crescimento muscular, no metabolismo energético e na inflamação.
Entre os compostos analisados, o butirato apresentou a interação prevista mais forte com as três proteínas avaliadas.
Os resultados laboratoriais ajudam a construir hipóteses sobre os mecanismos envolvidos no eixo intestino–músculo, mas não equivalem à demonstração desses efeitos em seres humanos.
Inteligência artificial foi usada para estimar risco de sarcopenia
Outra frente do estudo utilizou machine learning para combinar informações clínicas, nutricionais, inflamatórias e relacionadas ao microbioma.
Os pesquisadores desenvolveram modelos a partir de indicadores como força muscular, consumo de proteínas, inflamação e composição da microbiota para estimar o risco de sarcopenia.
Segundo os autores, a combinação dessas diferentes informações melhorou a capacidade de previsão e pode, futuramente, contribuir para identificar pessoas com maior risco e desenvolver estratégias nutricionais mais personalizadas.
Essa aplicação, entretanto, também permanece em estágio de pesquisa. O próprio estudo aponta a necessidade de desenvolvimento adicional e validação dos modelos em situações reais antes de uma eventual aplicação clínica.
Probióticos ainda não podem ser considerados estratégia comprovada contra sarcopenia
Apesar da associação encontrada nas três bases populacionais e dos resultados dos experimentos celulares, o estudo não demonstra que o consumo de probióticos previna ou trate a sarcopenia.
Os pesquisadores reconhecem que as evidências disponíveis sobre os mecanismos do eixo intestino–músculo ainda são fragmentadas e defendem a realização de ensaios clínicos mais longos, acompanhados de estudos laboratoriais e moleculares adicionais.
O trabalho amplia, porém, uma frente de investigação que conecta duas áreas tradicionalmente estudadas de forma separada: microbiota intestinal e preservação da função muscular durante o envelhecimento.
Se essa relação for confirmada por ensaios clínicos, a modulação do microbioma poderá ganhar espaço entre as estratégias nutricionais estudadas para o envelhecimento saudável. Por enquanto, os resultados colocam os probióticos como uma hipótese promissora nessa investigação, e não como uma intervenção comprovada contra a sarcopenia.
Saiba mais sobre o assunto:
Probióticos podem prevenir a sarcopenia?
Ainda não é possível afirmar isso. O estudo encontrou associação entre consumo de probióticos e melhores indicadores de força e massa muscular, mas os dados humanos analisados não estabelecem uma relação de causa e efeito. São necessários ensaios clínicos para confirmar um possível benefício.
O que é o eixo intestino-músculo?
É uma linha de pesquisa que investiga como a microbiota intestinal e os metabólitos produzidos por microrganismos podem se relacionar com processos envolvidos na saúde e na função muscular.
O que o estudo encontrou sobre probióticos e saúde muscular?
Nas bases populacionais analisadas, consumidores regulares de probióticos apresentaram maior força e massa muscular e menor ocorrência de sarcopenia. Experimentos celulares também identificaram efeitos de metabólitos bacterianos sobre o desenvolvimento de células musculares.
Quais probióticos foram analisados nos experimentos?
Os testes laboratoriais utilizaram metabólitos de Lactobacillus rhamnosus, Lactobacillus plantarum e Bifidobacterium longum.
Qual pode ser a relação entre microbiota intestinal e músculos?
A microbiota pode influenciar processos como inflamação, absorção de nutrientes e metabolismo, além de produzir compostos como ácidos graxos de cadeia curta. A participação desses mecanismos na saúde muscular ainda está sendo investigada.




