Tecnologia de tribologia oral busca preservar cremosidade em formulações com menos gordura e mais proteína
A britânica MicroLub levantou uma nova rodada de investimentos para acelerar a comercialização de uma tecnologia que utiliza microgéis de proteína e polissacarídeos para reproduzir parte da lubrificação proporcionada por gorduras e óleos nos alimentos.
Spin-off da Universidade de Leeds, a empresa procura resolver um dos principais desafios da reformulação: reduzir gordura ou aumentar a concentração de proteínas sem comprometer características sensoriais como cremosidade, suavidade e sensação na boca.
A tecnologia nasceu de pesquisas em tribologia alimentar, área que estuda como o atrito entre superfícies interfere na percepção dos alimentos durante o consumo. Em vez de tratar a gordura apenas como fonte de calorias, a abordagem considera sua função física na experiência sensorial.
Segundo a Universidade de Leeds, a MicroLub recebeu um aporte de £ 7,5 milhões para ampliar equipe e acelerar sua expansão nos Estados Unidos e na Ásia. A Northern Gritstone, que liderou o investimento, descreve a operação como uma rodada de £ 7 milhões, dos quais £ 4 milhões foram aportados pela gestora. A diferença entre os valores divulgados pelas duas fontes não foi detalhada.
Mais importante para a evolução da tecnologia, porém, é a etapa em que a empresa se encontra: a MicroLub afirma ter avançado da pesquisa acadêmica para produção em escala industrial e agora trabalha para transformar testes realizados com fabricantes de alimentos e ingredientes em contratos comerciais.
Gordura também exerce uma função física nos alimentos
Retirar gordura de uma formulação não significa apenas reduzir seu valor energético. Óleos e gorduras ajudam a diminuir o atrito dentro da boca e contribuem para características percebidas como cremosidade, maciez e suavidade. Quando parte desses componentes é retirada, a experiência sensorial pode mudar de forma significativa.
O problema também aparece no sentido inverso. Produtos com altas concentrações de proteínas podem apresentar maior adstringência, sensação arenosa ou uma textura menos agradável.
É nesse ponto que a MicroLub concentra sua tecnologia.
A plataforma produz microgéis a partir de proteínas de origem láctea ou vegetal e reveste essas estruturas com polissacarídeos em proporções controladas. As partículas resultantes funcionam como lubrificantes microscópicos, reduzindo o atrito e tentando reproduzir o comportamento sensorial normalmente associado a gorduras e óleos.
A arquitetura das partículas é parte central do processo. Segundo a empresa, uma quantidade excessiva de polissacarídeo altera o comportamento do sistema, enquanto proporções insuficientes podem fazer com que predominem características da própria proteína, incluindo justamente a adstringência que a tecnologia busca reduzir.
Microgéis tentam reproduzir a lubrificação do óleo
A MicroLub afirma que seus biolubrificantes reduzem o atrito molecular em duas ordens de magnitude em comparação com a água e em uma ordem de magnitude frente aos substitutos de gordura utilizados como referência pela companhia.
Segundo a empresa, isso aproxima o comportamento das partículas dos níveis de lubrificação normalmente associados aos óleos.
Esses números são resultados apresentados pela própria MicroLub e não significam, por si só, que todas as aplicações terão desempenho sensorial idêntico ao de produtos integrais.
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A tecnologia também não corresponde simplesmente a “substituir gordura por água”. O sistema depende da interação entre água, proteínas e polissacarídeos, organizados em estruturas microscópicas desenvolvidas especificamente para controlar o atrito.
Em determinadas formulações, a empresa afirma ser possível reduzir a gordura em 50% ou mais, enquanto materiais anteriores da companhia mencionam reduções de até 75% em aplicações específicas. O desempenho depende da categoria e da formulação utilizada.
Plataforma pode trabalhar com proteínas vegetais e lácteas
Outra característica da tecnologia é a flexibilidade na escolha das proteínas. A MicroLub informa trabalhar com ingredientes lácteos, como whey protein, e proteínas vegetais provenientes de fontes como ervilha, batata e soja. A seleção depende da aplicação, custo, disponibilidade de matérias-primas, cadeia de suprimentos e requisitos de formulação.
Essa versatilidade abre duas frentes diferentes para a tecnologia.
Na primeira, os microgéis podem permitir a redução parcial de gorduras mantendo características de textura e sensação na boca.
Na segunda, podem ajudar fabricantes a desenvolver produtos com maior concentração de proteína, reduzindo problemas sensoriais que normalmente aparecem quando esses ingredientes são adicionados em grandes quantidades.
Para alimentos plant-based, a companhia vê uma aplicação adicional. Proteínas vegetais podem introduzir adstringência e alterações de textura, e a plataforma busca reduzir esses efeitos para aproximar a experiência sensorial daquela encontrada em produtos convencionais.
Aplicações vão de lácteos a chocolate
A MicroLub trabalha com diferentes categorias de alimentos, incluindo lácteos, produtos de panificação, chocolate, bebidas proteicas e alternativas vegetais.
Em bebidas enriquecidas com proteína, por exemplo, a empresa pretende reduzir a sensação arenosa ou adstringente que pode surgir com maiores concentrações do ingrediente.
Em produtos lácteos e sobremesas, o objetivo é manter a cremosidade mesmo com menor quantidade de gordura.
Já em recheios e cremes de chocolate, a tecnologia também é apresentada como uma possibilidade para reduzir parte do uso de gorduras, incluindo manteiga de cacau, preservando propriedades de lubrificação relevantes para a textura.
A plataforma também vem sendo desenvolvida para cuidados pessoais, área em que o controle do atrito influencia a sensação de cremes, loções e outros produtos sobre a pele.
GLP-1 amplia interesse por reformulação, mas não é a origem da tecnologia
O avanço dos medicamentos da classe GLP-1 aparece entre as mudanças de mercado citadas pela MicroLub, pela Universidade de Leeds e por seus investidores.
A disseminação desses tratamentos vem aumentando o interesse da indústria por alimentos com maior teor de proteína e menor densidade calórica, ao lado de outras pressões regulatórias e mudanças de comportamento dos consumidores.
Isso não significa, porém, que a tecnologia tenha sido desenvolvida especificamente para usuários de GLP-1.
Sua proposta é mais ampla: oferecer aos formuladores uma ferramenta para controlar propriedades sensoriais enquanto alteram a composição nutricional dos alimentos.
Esse posicionamento permite que a plataforma seja utilizada em produtos voltados a diferentes tendências, incluindo redução de gordura, aumento de proteína, alimentos plant-based e reformulações associadas a novas exigências nutricionais.
Pesquisa acadêmica avança para aplicação industrial
A MicroLub foi fundada a partir do trabalho de Anwesha Sarkar, pesquisadora da Universidade de Leeds especializada em tribologia de alimentos e biofísica.
A tecnologia desenvolvida pela empresa deriva de anos de pesquisas sobre a interação entre proteínas, polissacarídeos e superfícies durante o consumo dos alimentos.
Agora, a principal questão deixa de ser apenas científica e passa a ser industrial.
O novo capital será direcionado à ampliação da equipe, desenvolvimento tecnológico, expansão internacional e conversão de projetos com fabricantes em aplicações comerciais.
Para a indústria de alimentos, essa transição é relevante porque evidencia uma mudança na própria lógica da reformulação.
Em vez de buscar somente um ingrediente que substitua quimicamente ou nutricionalmente a gordura, a MicroLub tenta reproduzir a função física que ela exerce durante o consumo.
A inovação, portanto, não está simplesmente em retirar óleo ou adicionar água. Está em compreender como a estrutura microscópica dos ingredientes interfere na percepção sensorial e utilizar esse conhecimento para redesenhar alimentos com menos gordura ou mais proteína.
Se a tecnologia conseguir transformar os atuais testes industriais em produtos comercializados em escala, a tribologia poderá deixar de ser apenas uma ferramenta de pesquisa e ganhar espaço como uma nova camada do desenvolvimento de alimentos: controlar o atrito para controlar a experiência sensorial.
Saiba mais sobre o assunto:
O que são os microgéis de proteína da MicroLub?
São estruturas microscópicas formadas a partir de proteínas e combinadas com polissacarídeos para reduzir o atrito durante o consumo e reproduzir parte da sensação de cremosidade associada às gorduras.
Como a tecnologia da MicroLub pode reduzir gordura nos alimentos?
Os microgéis atuam como lubrificantes microscópicos dentro da formulação, permitindo substituir parte da gordura enquanto buscam preservar propriedades sensoriais como cremosidade, suavidade e sensação na boca.
Quais proteínas podem ser utilizadas na tecnologia?
A plataforma pode trabalhar com proteínas de origem láctea e vegetal, incluindo fontes como whey protein, ervilha, soja e outras opções selecionadas de acordo com a aplicação.
A tecnologia da MicroLub foi desenvolvida para usuários de GLP-1?
Não especificamente. A plataforma foi criada para reformulação de alimentos e pode ser usada em produtos com menos gordura ou mais proteína. O crescimento do mercado de GLP-1 aparece como um contexto adicional de demanda por esse tipo de formulação.




