quarta-feira, 16/09/2026
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Tecnologia da Unicamp amplia potencial da goma de cajueiro como emulsificante

Modificação física melhora a funcionalidade do ingrediente e abre caminho para aplicações em alimentos e outros setores

 

 

Pesquisadores da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp desenvolveram uma tecnologia capaz de modificar fisicamente a goma de cajueiro e melhorar sua atuação como emulsificante, ampliando o potencial de uso da matéria-prima em alimentos, cosméticos e outras aplicações industriais.

O trabalho foi conduzido pelo professor Marcelo Cristianini e pela pesquisadora Bruna Castro Porto, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa surgiu da busca por alternativas à goma arábica, ingrediente utilizado pela indústria para estabilizar sistemas formados por componentes que normalmente não se misturam, como óleo e água.

A proposta, porém, não é demonstrar neste estágio uma substituição direta da goma arábica. O estudo mostra que a modificação física melhora propriedades funcionais da goma extraída do cajueiro e cria condições para que ela seja avaliada em diferentes aplicações industriais.

“A goma arábica é utilizada para ajudar a misturar e estabilizar substâncias que normalmente não se misturam, como óleo e água. Apesar de sua ampla aplicação industrial, sua disponibilidade e seu preço podem sofrer variações relacionadas às condições de produção e ao mercado internacional. Nesse contexto, investigamos o potencial de uma matéria-prima de origem nacional e renovável como a goma extraída do cajueiro”, afirma Cristianini.

Modificação física busca melhorar a capacidade emulsificante

A goma de cajueiro é um polissacarídeo natural extraído do caule da planta. Como outras gomas vegetais, sua estrutura molecular permite explorar propriedades tecnológicas importantes para diferentes formulações.

Para ampliar esse potencial, os pesquisadores desenvolveram um processo de modificação física do polímero.

A técnica altera propriedades funcionais da goma sem promover uma transformação química da molécula. Segundo a equipe, um dos principais resultados obtidos foi a melhora de sua capacidade emulsificante.

 

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Essa característica é particularmente relevante para alimentos em que é necessário manter componentes de natureza diferente distribuídos de forma estável, como acontece em determinadas bebidas, molhos e outras formulações que combinam fases aquosas e oleosas.

“A modificação física permite alterar as propriedades funcionais do polímero sem promover uma transformação química da molécula. Com esse processo, conseguimos melhorar a capacidade emulsificante da goma de cajueiro e, consequentemente, ampliar suas possibilidades de aplicação”, explica Cristianini.

Processo evita modificação química do ingrediente

A escolha pela modificação física também tem implicações para o desenvolvimento de produtos.

Cristianini destaca que alterações químicas podem modificar a forma como determinados ingredientes precisam ser identificados na composição dos alimentos.

“Essa é uma característica importante especialmente para a indústria de alimentos, porque modificações químicas podem exigir uma nova denominação do ingrediente e a sinalização dessa alteração ao consumidor. Um exemplo é o amido de milho modificado quimicamente, que precisa ser identificado dessa forma na composição do produto”, afirma.

No caso da goma de cajueiro, a tecnologia busca ajustar propriedades do material sem recorrer a esse tipo de transformação molecular.

O potencial de uso como emulsificante, no entanto, ainda precisa ser validado em diferentes formulações e condições industriais antes que seja possível determinar em quais aplicações a goma modificada poderia substituir total ou parcialmente ingredientes já utilizados pelo mercado.

Pesquisa busca alternativa de origem brasileira

A goma arábica serviu como uma das referências para o desenvolvimento da pesquisa por sua ampla utilização industrial.

Extraída principalmente de espécies de acácia, ela é empregada em diferentes aplicações, incluindo emulsões de aromas utilizadas na produção de bebidas.

A pesquisa da Unicamp investiga se a goma de cajueiro pode se tornar uma alternativa de origem nacional em parte dessas aplicações.

O cajueiro é uma planta nativa do Brasil e possui forte presença produtiva no Nordeste. Atualmente, sua cadeia é concentrada principalmente na castanha e no aproveitamento do pedúnculo, utilizado na produção de sucos e outros alimentos.

A goma abre uma terceira possibilidade de aproveitamento da planta.

Segundo os pesquisadores, a extração ocorre no caule e pode ser realizada sem comprometer a produção de castanhas nem o uso do pedúnculo.

“A possibilidade de aproveitar a goma cria uma nova frente de valorização do cajueiro. É uma forma de ampliar o aproveitamento da planta e, ao mesmo tempo, gerar uma oportunidade econômica adicional para quem já trabalha com essa cultura”, afirma Cristianini.

Neste estágio, porém, o impacto econômico para os produtores ainda é potencial. A tecnologia precisa avançar em desenvolvimento, escala e adoção industrial antes que seja possível estimar quanto a exploração da goma poderia representar para a cadeia produtiva do caju.

Symrise começa a avaliar aplicação em cosméticos

A tecnologia também despertou interesse fora da indústria de alimentos.

A Symrise, companhia que desenvolve ingredientes e soluções para diferentes mercados, recebeu amostras da goma modificada para realizar testes por meio de um Material Transfer Agreement (MTA).

A aproximação foi intermediada pela Agência de Inovação Inova Unicamp, responsável por conectar tecnologias desenvolvidas na Universidade a potenciais parceiros empresariais.

No caso da Symrise, as avaliações estão concentradas principalmente em aplicações de cuidados pessoais, incluindo formulações para shampoos e condicionadores voltados a cabelos cacheados.

A parceria não significa que a tecnologia já esteja comercialmente licenciada para essas aplicações. O MTA permite que a companhia receba e estude o material para verificar seu desempenho e identificar possibilidades de uso.

“A atuação da Inova Unicamp foi fundamental para viabilizar essa parceria. A Agência nos dá visibilidade e expõe nosso trabalho para o mercado de uma forma que não conseguiríamos fazer sozinhos, além de oferecer todo o suporte institucional necessário ao longo do processo”, diz Cristianini.

Tecnologia ainda precisa avançar em escala

A pesquisa permanece em etapa de desenvolvimento e avaliação de aplicações.

Entre os próximos passos está a otimização do processo de modificação da goma para permitir a produção de quantidades maiores de amostras e a realização de novos testes.

A equipe também avalia a possibilidade de aplicar a mesma abordagem a outros polissacarídeos naturais.

Embora a capacidade emulsificante seja uma das propriedades mais estudadas até agora, outras características desses materiais podem ampliar o campo de aplicação do processo.

Marcelo Cristianini e Bruna Castro Porto foram reconhecidos pela pesquisa na categoria Propriedade Intelectual Licenciada do Prêmio Inventores 2026, promovido pela Inova Unicamp.

Mais do que encontrar uma nova utilização para uma matéria-prima do cajueiro, o trabalho busca transformar essa goma natural em um ingrediente com propriedades funcionais ajustadas às necessidades da indústria.

O desafio agora será demonstrar como esse desempenho se comporta em formulações específicas, ampliar a produção de amostras e avaliar se a tecnologia consegue avançar da pesquisa acadêmica para aplicações industriais em maior escala.

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