Plano prevê ações em agricultura, inovação, compras públicas e exportações para apoiar a meta holandesa de 50% de proteína vegetal até 2030
Uma coalizão formada por empresas, varejistas, organizações agrícolas, entidades de foodservice, instituições de ensino e organizações da sociedade civil apresentou ao governo holandês uma proposta para criar um plano nacional de aceleração dos alimentos de origem vegetal, apoiado por um fundo público de € 65 milhões por ano.
O chamado Action Plan for More Plant-Based Food pretende atuar em diferentes etapas da cadeia, do cultivo e processamento ao desenvolvimento de novos produtos, compras públicas, criação de demanda e exportação. A lista divulgada pela TAPP Coalition reúne 60 organizações signatárias, incluindo Oatly, Foodvalley, ProVeg, Sodexo, Schouten Europe, The Vegetarian Butcher Collective e a associação que representa grandes redes de supermercados do país.
A proposta foi entregue a parlamentares holandeses e não representa, até o momento, um fundo aprovado ou uma nova política já adotada pelo governo. O objetivo da coalizão é transformar metas existentes para a transição proteica em instrumentos mais concretos de produção, inovação e desenvolvimento de mercado.
A Holanda já possui como objetivo oficial alcançar, até 2030, uma divisão de 50% de proteínas de origem vegetal e 50% de origem animal na dieta da população. O governo também mantém uma Estratégia Nacional de Proteínas destinada a ampliar a produção doméstica de proteínas vegetais e de novas fontes.
Fundo pretende atuar em toda a cadeia de alimentos vegetais
Os € 65 milhões anuais propostos não seriam destinados exclusivamente a fabricantes de substitutos de carne ou laticínios vegetais.
A intenção é financiar projetos em diferentes pontos da cadeia, incluindo agricultura, processamento, pesquisa, desenvolvimento de produtos, comportamento do consumidor, compras governamentais e internacionalização.
Segundo a proposta, o plano seria estruturado em cinco pilares: estímulo à demanda e melhoria do ambiente alimentar; fortalecimento do cultivo e da cooperação entre agricultores e indústria; utilização das compras públicas como instrumento de mercado; ampliação de pesquisa e inovação; e fortalecimento das exportações e do posicionamento internacional do setor.
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Para o desenvolvimento de alimentos, o quarto eixo é particularmente relevante. A coalizão propõe ampliar recursos destinados a solucionar gargalos tecnológicos e apoiar a criação de novos produtos, conectando a política agrícola à capacidade de inovação da indústria.
Um terço do fundo seria reservado especificamente à produção vegetal orgânica. A medida também se conecta à meta do governo holandês de ampliar para 15% a participação da agricultura orgânica na área agrícola do país até 2030.
Meta de proteína vegetal exige conexão entre oferta e demanda
A proposta parte da avaliação de que estimular apenas o consumo não será suficiente para cumprir os objetivos da transição proteica.
Para aumentar a participação das proteínas vegetais na alimentação, a coalizão argumenta que será necessário desenvolver simultaneamente a produção agrícola, a capacidade de processamento, novos alimentos e um mercado capaz de absorver esses produtos.
Essa conexão entre oferta e demanda aparece como um dos principais objetivos do fundo.
Na agricultura, os recursos poderiam apoiar produtores e cadeias dedicadas a culturas vegetais. Na indústria, entrariam pesquisa, processamento e desenvolvimento de produtos. No mercado, compras públicas e ações voltadas ao consumidor seriam usadas para aumentar a demanda.
O governo holandês já reconhece essa relação em sua política de proteínas. A Estratégia Nacional de Proteínas foi criada para ampliar a autossuficiência do país em proteínas vegetais e outras novas fontes, reduzindo a dependência de importações e fortalecendo cadeias produtivas locais.
Inovação entra como política de competitividade
Além das metas de consumo, a coalizão apresenta os alimentos vegetais como uma oportunidade industrial e tecnológica para o país.
“Com um investimento público de € 65 milhões por ano, podemos consolidar ainda mais essa posição inicial sólida, capitalizar novas oportunidades econômicas e impulsionar toda a cadeia”, afirma Jeroom Remmers, diretor da TAPP Coalition, em nome dos signatários.
Entre as organizações que apoiam a proposta estão empresas que desenvolvem alimentos vegetais, varejistas, produtores agrícolas, operadores de alimentação e instituições envolvidas com inovação.
Essa composição amplia o escopo da discussão. Em vez de tratar a transição proteica apenas como mudança no comportamento do consumidor, o plano procura conectá-la a agricultura, tecnologia, desenvolvimento industrial e exportação.
A Schouten Europe, por exemplo, destacou que a inovação e a internacionalização estão entre os pontos centrais da proposta. A companhia produz alimentos vegetais para varejo, foodservice e fabricantes em mais de 50 países.
Compras públicas podem funcionar como instrumento de escala
Outro pilar do plano é utilizar o poder de compra do setor público para estimular o mercado.
A proposta prevê ampliar a presença de refeições e produtos vegetais em cantinas e instituições públicas, criando demanda para agricultores e fabricantes.
Esse mecanismo pode ser especialmente relevante para novas cadeias produtivas porque oferece volumes mais previsíveis de compra enquanto produtores e empresas constroem capacidade industrial.
A coalizão também propõe medidas para melhorar disponibilidade, acessibilidade e atratividade dos alimentos vegetais, além de incentivar o consumo de frutas, vegetais, leguminosas, nozes, sementes e grãos integrais.
O desenho, portanto, vai além de proteínas alternativas altamente processadas e inclui diferentes categorias de alimentos de origem vegetal.
Dinamarca serve de referência
A iniciativa holandesa utiliza como referência a experiência da Dinamarca, que criou uma estratégia nacional específica para alimentos de origem vegetal acompanhada de financiamento público.
Segundo os responsáveis pelo plano holandês, o modelo dinamarquês mostrou que recursos públicos podem atuar simultaneamente sobre capacitação, agricultura, foodservice, testes de campo e desenvolvimento de novos produtos.
Rasmus Prehn, CEO da Organic Denmark e ex-ministro da Agricultura do país, destacou que o fundo dinamarquês tem apoiado desde formação profissional até o aumento do uso de leguminosas e alimentos orgânicos em cozinhas públicas e projetos de desenvolvimento de produtos.
A coalizão holandesa pretende adaptar essa lógica às características de sua própria cadeia agroalimentar.
Transição proteica avança para a agenda industrial
A proposta de € 65 milhões surge em um país que já vem estruturando políticas relacionadas à produção e ao consumo de proteínas.
Além da meta de 50/50 para 2030 e da Estratégia Nacional de Proteínas, o governo holandês mantém iniciativas voltadas ao cultivo de culturas proteicas e acompanha a participação de proteínas vegetais na alimentação. Documentos governamentais tratam a transição como oportunidade também para agricultores e para a indústria de processamento de alimentos.
O novo plano tenta avançar um estágio: transformar objetivos de consumo e produção em uma estratégia integrada de mercado, utilizando financiamento público para aproximar agricultura, indústria, pesquisa, varejo e consumidor.
Ainda não está definido se o governo adotará o fundo de € 65 milhões nem quais partes da proposta serão incorporadas às políticas públicas.
Mesmo assim, o movimento mostra uma mudança relevante para a indústria de alimentos. A transição proteica deixa de aparecer apenas como uma disputa entre produtos animais e alternativas vegetais e passa a envolver questões de capacidade agrícola, infraestrutura de processamento, P&D, compras públicas e competitividade internacional.
É justamente essa tentativa de organizar toda a cadeia (da lavoura ao desenvolvimento de novos alimentos e à criação de mercado) que transforma a proposta holandesa em uma discussão de política industrial para FoodTech, e não apenas em mais uma iniciativa de estímulo ao consumo plant-based.
Saiba mais sobre o assunto:
O que está sendo proposto para acelerar os alimentos plant-based na Holanda?
Uma coalizão de organizações do setor agroalimentar propõe a criação de um plano nacional acompanhado por um fundo público de € 65 milhões por ano para apoiar diferentes etapas da cadeia de alimentos vegetais.
Para que seria utilizado o fundo de € 65 milhões?
A proposta prevê investimentos em agricultura, processamento, pesquisa e inovação, desenvolvimento de produtos, compras públicas, comportamento do consumidor e exportações.
Qual é a meta da Holanda para o consumo de proteínas vegetais?
O país tem como objetivo alcançar até 2030 uma divisão de 50% de proteínas de origem vegetal e 50% de origem animal na alimentação.
O fundo de € 65 milhões já foi aprovado pelo governo holandês?
Não. Trata-se de uma proposta apresentada por uma coalizão de organizações. O governo ainda não aprovou a criação do fundo nem definiu quais medidas poderão ser incorporadas às políticas públicas.




