terça-feira, 18/08/2026
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Indústria amplia combinações de proteínas para além da disputa entre fontes

Cargill, Tirlán, Beneo e ADM apontam qualidade, funcionalidade e sistemas híbridos como novos vetores de desenvolvimento

 

A indústria de alimentos começa a ampliar a forma como trabalha com proteínas. Em vez de tratar fontes animais, vegetais, lácteas ou obtidas por fermentação apenas como alternativas concorrentes, fabricantes e fornecedores avaliam cada vez mais como diferentes proteínas podem ser combinadas para atender a objetivos específicos de nutrição, funcionalidade e experiência sensorial.

O movimento aparece nos posicionamentos de empresas como Cargill, Tirlán, Beneo e ADM, que apontam para um mercado mais diversificado, no qual a escolha da proteína passa a depender não apenas de sua origem ou quantidade, mas também de fatores como perfil de aminoácidos, digestibilidade, textura, sabor, desempenho no processamento e aplicação final.

A mudança desloca uma discussão que, durante anos, esteve concentrada na competição entre diferentes fontes. Proteínas vegetais, animais, lácteas e ingredientes produzidos por novas tecnologias passam a ser considerados componentes de um portfólio mais amplo, que pode ser combinado de acordo com as características desejadas em cada produto.

“Não prevemos que uma única fonte de proteína domine o futuro. Pelo contrário, o sucesso virá do aproveitamento dos pontos fortes de múltiplas fontes de proteína para atender às preferências e necessidades nutricionais em constante evolução dos consumidores”, afirma Aysegul Ozcan, diretora de marketing comercial da área de Nutrição Aprimorada da Cargill.

Qualidade ganha espaço além da quantidade de proteína

A diversificação das fontes acompanha outra mudança no desenvolvimento de produtos: aumentar o teor proteico, isoladamente, pode não ser suficiente para diferenciar uma formulação.

Aspectos como qualidade nutricional, perfil de aminoácidos essenciais, digestibilidade e absorção passam a ganhar relevância ao lado da quantidade declarada no rótulo. Ao mesmo tempo, benefícios associados à saúde muscular, saciedade, envelhecimento saudável, recuperação e bem-estar ampliam os critérios utilizados para avaliar as proteínas.

Para a Beneo, esse cenário pode favorecer combinações entre diferentes fontes vegetais. Proteínas de leguminosas e cereais, por exemplo, podem ser utilizadas conjuntamente para melhorar o perfil de aminoácidos de uma formulação.

Mas a combinação também pode responder a desafios tecnológicos.

Segundo Rudy Wouters, chefe do Centro de Tecnologia da Beneo, proporções específicas entre proteínas podem ser utilizadas para otimizar propriedades como viscosidade e emulsificação, com impactos sobre textura e sabor. A empresa desenvolveu, por exemplo, uma formulação de pão com alto teor proteico que combina concentrado de proteína de fava e glúten.

A estratégia pode avançar ainda para combinações entre proteínas e outros ingredientes. A Beneo cita o uso de proteínas vegetais com fibras prebióticas como uma possibilidade para desenvolver produtos que entreguem simultaneamente diferentes características nutricionais e funcionais.

Sistemas híbridos colocam diferentes fontes na mesma formulação

Essa lógica também começa a aparecer em produtos híbridos que combinam componentes de diferentes origens.

Em alimentos como hambúrgueres, salsichas e carne moída, ingredientes animais e vegetais podem ser utilizados conjuntamente para modificar características nutricionais, como os teores de proteínas, fibras e gordura, sem abandonar completamente a matriz tradicional do produto.

“[O futuro] trata menos de ‘carne versus vegetal’ e mais de criar um prato equilibrado que combine proteínas animais e vegetais, mantendo o sabor e a textura desejados”, afirma Wouters.

A ADM identifica movimento semelhante em bebidas destinadas à nutrição esportiva e ao desempenho, com formulações que combinam proteínas vegetais e lácteas.

Jacquelyn Rodenkirch-Schuh, diretora sênior global de Marketing de Produtos para Ingredientes Especiais da empresa, também aponta oportunidades para misturas entre soja, ervilha, feijões e outras leguminosas em aplicações de carnes, laticínios e alimentos de conveniência.

Nesse cenário, a origem da proteína deixa de funcionar necessariamente como elemento definidor da categoria. A formulação passa a ser construída a partir das propriedades que diferentes ingredientes conseguem entregar em conjunto.

Proteínas obtidas por fermentação ampliam as possibilidades

O ecossistema também pode incorporar proteínas produzidas por novas tecnologias.

A ADM anunciou recentemente uma parceria com a EVERY Company para viabilizar a fabricação em escala comercial da OvoPro, proteína de clara de ovo produzida por fermentação de precisão, em sua unidade de Clinton, no estado norte-americano de Iowa.

A tecnologia acrescenta outra possibilidade ao conjunto de fontes disponíveis para os formuladores, ao lado das proteínas animais e vegetais convencionais.

Para a Cargill, os avanços em proteínas vegetais, ingredientes derivados de fermentação e soluções híbridas devem ampliar as opções disponíveis para fabricantes e consumidores, enquanto os investimentos na produção de proteínas animais continuam fazendo parte desse mercado.

A perspectiva, portanto, não é necessariamente de substituição de uma tecnologia por outra, mas de um conjunto maior de ferramentas para formular produtos de acordo com diferentes objetivos.

Sabor, escala e custo continuam determinantes

A diversificação, porém, acrescenta complexidade ao desenvolvimento dos produtos.

Combinar diferentes fontes pode melhorar características nutricionais e tecnológicas, mas as formulações ainda precisam entregar sabor, textura e sensação na boca capazes de sustentar sua aceitação pelo consumidor.

“Não importa quão saudável ou sustentável seja um produto; se não tiver um sabor agradável ou a sensação na boca adequada, os consumidores simplesmente não serão convencidos”, afirma Wouters.

Além do desempenho sensorial, existe o desafio de transformar essas formulações em produtos economicamente viáveis e disponíveis em escala.

Segundo a Cargill, escalabilidade permanece entre os principais obstáculos do setor. Fabricantes precisam equilibrar segurança de abastecimento, competitividade de custos e desempenho nutricional e sensorial. A ADM também aponta a resiliência da cadeia de suprimentos como um fator relevante diante de limitações na oferta de fontes já estabelecidas, como o whey.

A combinação de proteínas, portanto, amplia as ferramentas disponíveis para o desenvolvimento de alimentos, mas não elimina os critérios tradicionais de sucesso comercial. A capacidade de explorar diferentes fontes dependerá de quanto essas soluções conseguem entregar simultaneamente qualidade nutricional, funcionalidade tecnológica, experiência sensorial, escala e custo competitivo.

É nessa combinação — e não necessariamente na predominância de uma única fonte — que Cargill, Tirlán, Beneo e ADM enxergam parte da próxima etapa do mercado de proteínas.

Saiba mais sobre o assunto:

Por que a indústria está combinando diferentes fontes de proteínas?
A combinação permite explorar características nutricionais e tecnológicas de diferentes proteínas em uma mesma formulação, incluindo perfil de aminoácidos, digestibilidade, viscosidade, emulsificação, sabor e textura.

O que são produtos proteicos híbridos?
São formulações que combinam componentes ou proteínas de diferentes origens. O material cita, por exemplo, produtos que unem ingredientes animais e vegetais, além de bebidas que combinam proteínas vegetais e lácteas.

A quantidade de proteína continua sendo o principal diferencial dos produtos?
O teor proteico continua relevante, mas as empresas ouvidas apontam uma ampliação dos critérios, com maior atenção à qualidade nutricional, perfil de aminoácidos, digestibilidade, funcionalidade, sabor, textura e benefícios associados.

Qual é o papel da fermentação no mercado de proteínas?
Ingredientes derivados de fermentação estão ampliando o conjunto de fontes disponíveis. Um exemplo citado é a proteína de clara de ovo OvoPro, da EVERY Company, que será produzida comercialmente por fermentação de precisão em parceria com a ADM.

Quais são os desafios para ampliar essas soluções?
Além da qualidade nutricional, os produtos precisam entregar sabor e textura e ser produzidos em escala com custos competitivos e abastecimento confiável.

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