Impactos podem surgir de forma desigual e defasada, afetando preços, disponibilidade, logística e estratégias de compra até 2028
O fortalecimento do El Niño está ampliando a atenção da indústria de alimentos sobre o abastecimento de matérias-primas agrícolas. Mais do que o risco imediato de perdas de safra, o fenômeno pode provocar efeitos diferentes entre commodities e regiões, aparecer com meses de defasagem e se combinar a estoques, custos de energia, fertilizantes, logística e políticas de biocombustíveis.
A consultoria de procurement Beroe estima que um El Niño prolongado, combinado a escassez de fertilizantes, tensões geopolíticas e custos elevados de energia, poderia contribuir para uma alta entre 14% e 16% nos preços globais das commodities alimentares. O cenário não representa uma previsão de aumento generalizado provocado exclusivamente pelo clima: trata-se de uma projeção condicionada à combinação de diferentes pressões sobre as cadeias de abastecimento.
O risco climático ganhou relevância adicional em setembro. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) afirma que o El Niño está se fortalecendo e calcula mais de 90% de probabilidade de um evento muito forte durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Para o trimestre entre outubro e dezembro, há 75% de chance de o índice utilizado pela agência atingir intensidade superior à dos eventos registrados desde 1950.
A própria NOAA ressalta, porém, que maior intensidade aumenta a possibilidade de ocorrência dos padrões climáticos normalmente associados ao El Niño, mas não determina os impactos que serão observados em cada país ou região.
Para fabricantes de alimentos, essa incerteza transforma o fenômeno também em uma questão de procurement: decidir quando contratar, quais origens utilizar, quanto estoque manter e como diversificar fornecedores diante de riscos que não atingem todas as matérias-primas da mesma maneira.
Impacto pode continuar depois do pico do El Niño
Um dos pontos mais relevantes da análise da Beroe é a defasagem entre o evento climático e sua repercussão comercial.
Segundo a consultoria, mercados de commodities podem apresentar suas respostas mais fortes nos preços cerca de 12 meses depois do pico de uma perturbação climática. Em um cenário de El Niño prolongado, parte dos efeitos poderia, portanto, continuar aparecendo em 2027 e chegar a 2028.
Isso ocorre porque a transmissão do risco climático depende do ciclo de cada cultura.
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Uma seca pode afetar imediatamente uma produção anual, enquanto outras culturas respondem meses depois. Estoques existentes, safras em outras regiões e disponibilidade de produtos substitutos também podem retardar ou reduzir o efeito sobre compradores.
Por isso, não existe um único “impacto do El Niño” para a indústria de alimentos. A exposição depende da commodity, da origem e do momento em que as empresas precisam acessar aquele ingrediente.
Cacau mostra como clima se combina a outros riscos
O cacau aparece na avaliação da Beroe como a categoria de maior risco de procurement no curto prazo.
A consultoria projeta uma possível alta próxima de 9% nos preços no curto prazo, diante das incertezas sobre a principal safra da África Ocidental. Chuvas intensas, pressão de doenças e desenvolvimento inicial mais fraco das lavouras já geram preocupação, enquanto o El Niño pode acrescentar uma nova fonte de estresse durante etapas importantes do cultivo.
Ao mesmo tempo, chegadas mais fortes aos portos e melhora dos estoques nas bolsas vêm funcionando como contrapeso, segundo a análise.
O exemplo mostra por que o risco climático não deve ser analisado isoladamente. Mesmo em uma commodity altamente exposta às condições meteorológicas, produção, doenças, estoques e fluxos comerciais atuam simultaneamente sobre disponibilidade e preço.
Açúcar mostra que o risco muda conforme a origem
No açúcar, a exposição é mais regional. A Beroe estima que os preços na Índia possam subir cerca de 4% nos próximos meses, pressionados por estoques mais apertados, incertezas sobre as monções e direcionamento de matéria-prima para produção de etanol.
Na Europa, os estoques ainda proporcionam alguma proteção, embora clima seco persistente e menor área de beterraba possam reduzir a disponibilidade ao longo da temporada.
Já o Brasil é apontado pela consultoria como uma fonte relativamente estável durante o período de moagem. Ainda assim, a divisão da cana entre açúcar e etanol permanece como uma variável capaz de interferir no volume disponível para exportação.
Isso significa que um comprador internacional pode encontrar situações bastante diferentes para o mesmo ingrediente dependendo da região de origem.
Óleos vegetais conectam clima, alimentos e energia
O mercado de óleos vegetais acrescenta outra camada à análise: a concorrência entre alimentos e energia.
A Beroe estima pressão sobre o óleo de colza europeu e sobre o óleo de soja norte-americano, mas destaca que o clima é apenas parte da explicação.
No caso do óleo de soja dos Estados Unidos, a consultoria projeta aumento de aproximadamente 5%, impulsionado principalmente pela demanda de diesel renovável, mesmo diante de uma oferta confortável de soja.
Para o óleo de colza europeu, a expectativa é de alta ao redor de 2%, em um cenário que combina déficits estruturais de oferta, riscos produtivos associados ao clima e demanda por biodiesel.
A formação do risco passa, portanto, pela interação de produção agrícola, política energética e mercado de biocombustíveis.
Para fabricantes que utilizam esses óleos como ingredientes, acompanhar apenas previsões meteorológicas pode ser insuficiente.
Milho mostra que perdas regionais podem ser compensadas
Nem todos os mercados analisados apresentam perspectiva de forte aperto. No milho, a Beroe considera o cenário global relativamente equilibrado.
A consultoria projeta alta de aproximadamente 4,2% na Europa diante de expectativas menores de produção e riscos climáticos. Ao mesmo tempo, perspectivas mais favoráveis nos Estados Unidos e a pressão sazonal da safra brasileira podem manter a disponibilidade global em níveis mais confortáveis.
Nesse caso, produção favorável em grandes regiões exportadoras pode compensar parcialmente problemas registrados em outras áreas.
É outro exemplo de por que a intensidade do El Niño, isoladamente, não permite projetar automaticamente escassez global de determinada commodity.
Óleo de palma pode sentir efeitos em 2027
O óleo de palma ilustra de forma ainda mais clara a defasagem entre clima e mercado.
A Beroe espera maior pressão sobre os preços no último trimestre de 2026 e ao longo de 2027, combinando riscos associados ao El Niño, efeitos atrasados da seca, produção mais fraca na Malásia e na Tailândia, envelhecimento das plantações e avanço dos mandatos de biodiesel.
Embora uma produção mais forte da Indonésia possa aliviar parte da pressão no curto prazo, a produtividade da palma pode responder meses depois a períodos de déficit hídrico.
Assim, condições registradas no fim de 2026 podem afetar volumes produzidos somente no ano seguinte.
Para compradores industriais, essa característica muda a lógica de planejamento: o fim do fenômeno climático não significa necessariamente o fim do risco de abastecimento.
Risco climático também chega à logística
A exposição das cadeias alimentares não termina na lavoura.
Eventos de seca também podem atingir corredores logísticos utilizados para transportar ingredientes e commodities entre continentes. A análise publicada pela Food Ingredients First destaca restrições ao tráfego marítimo como uma fonte adicional de risco, mostrando que alterações climáticas podem atingir simultaneamente produção e transporte.
Para uma indústria que depende de diferentes países para ingredientes como cacau, café, açúcar, óleos e grãos, o impacto pode surgir mesmo quando sua principal região fornecedora não sofreu uma perda agrícola direta.
Nesse cenário, o clima passa a ser uma variável que atravessa origem, transporte, estoque e custo final da matéria-prima.
Procurement passa a incorporar risco climático
Diante desse quadro, a Beroe recomenda que compradores aumentem o acompanhamento das condições climáticas, estoques, logística, custos de energia, disponibilidade de fertilizantes e políticas de biocombustíveis.
Entre as estratégias citadas estão diversificação de origens, cobertura antecipada por contratos, distribuição das compras ao longo de diferentes períodos e qualificação prévia de especificações alternativas quando as formulações permitirem.
Essas medidas não eliminam a exposição ao clima. Também não significam que todas as empresas devam aumentar estoques ou antecipar contratos da mesma maneira. A decisão depende da commodity, da formulação, dos fornecedores disponíveis e da tolerância de cada operação ao risco.
O que muda é a necessidade de incorporar informações climáticas cada vez mais cedo ao planejamento.
O El Niño de 2026/2027 mostra que o risco climático para a indústria de alimentos não termina quando uma lavoura perde produtividade. Ele pode surgir meses depois na disponibilidade de ingredientes, nos preços, na logística ou na competição por matérias-primas utilizadas também por outros setores.
Para a indústria, acompanhar o clima passa, portanto, a significar mais do que observar o comportamento das safras. Significa entender como um evento climático percorre a cadeia até chegar às decisões de abastecimento e por que seus efeitos podem continuar muito depois de o próprio fenômeno começar a perder força.
Saiba mais sobre o assunto:
Como o El Niño pode afetar a indústria de alimentos?
O fenômeno pode alterar condições de produção agrícola em diferentes regiões, afetando disponibilidade e preços de matérias-primas. Os impactos também podem chegar à logística, aos estoques e às estratégias de compra das empresas.
Quais commodities podem ser afetadas pelo El Niño?
Os efeitos variam conforme região, cultura e período. Entre os mercados avaliados estão cacau, açúcar, milho, óleo de palma, óleo de soja e óleo de colza, mas o impacto não ocorre de maneira uniforme entre eles.
O El Niño pode aumentar os preços das commodities alimentares?
A Beroe estima que um El Niño prolongado, combinado a outros fatores como custos de energia, fertilizantes e tensões geopolíticas, poderia contribuir para uma alta de 14% a 16% nos preços globais das commodities alimentares. Não se trata de uma previsão de aumento provocado exclusivamente pelo fenômeno climático.
Por que os efeitos do El Niño podem aparecer depois do evento?
Algumas culturas respondem às condições climáticas com meses de defasagem. Estoques, ciclos agrícolas, safras em outras regiões e logística também podem retardar a transmissão do impacto até os preços e a disponibilidade para a indústria.




