Rodada de US$ 3,8 milhões financiará o scale-up de ingredientes produzidos por leveduras a partir de fluxos residuais da indústria.
A MOA Foodtech captou € 3,3 milhões, aproximadamente US$ 3,8 milhões, para ampliar a escala de sua plataforma de fermentação de biomassa, que combina inteligência artificial, leveduras e subprodutos da cadeia agroalimentar para desenvolver ingredientes destinados à indústria de alimentos.
Com os novos recursos, a startup espanhola pretende avançar de fermentações realizadas em biorreatores de 120 mil litros para estruturas de 225 mil litros, ampliando a produção de seus primeiros ingredientes comerciais e a capacidade de trabalhar com fabricantes interessados em transformar fluxos residuais em produtos de maior valor agregado.
A rodada contou com apoio do Fundo do Conselho Europeu de Inovação (EIC), da Swanlaab Innvierte Agri Food Tech e do CDTI-Innvierte.
O scale-up ocorre enquanto a empresa começa a levar sua tecnologia para aplicações concretas. Segundo a MOA, seu substituto de ovo já está sendo validado em produtos de panificação, outros ingredientes passam por testes com fabricantes e uma versão destinada à nutrição animal já é utilizada em um produto comercial de pet food.
Fermentação utiliza subprodutos como fonte de nutrientes
Fundada no final de 2020 por Bosca Emparanza, Susana Sánchez e José María Elorza, a MOA desenvolveu uma plataforma para cultivar microrganismos utilizando diferentes subprodutos alimentícios e agrícolas como matéria-prima.
A empresa possui mais de 300 microrganismos em sua biblioteca, principalmente bactérias e leveduras, embora trabalhe atualmente apenas com cepas de levedura.
A proposta é substituir parcialmente matérias-primas mais padronizadas utilizadas em processos fermentativos por fluxos que já existem na cadeia agroalimentar, como grãos provenientes da indústria de destilados e resíduos agrícolas.
Isso acrescenta, porém, uma dificuldade ao processo.
Subprodutos industriais não necessariamente apresentam composição constante. A concentração de carbono, nitrogênio, minerais e outros componentes pode variar de acordo com origem, processamento e lote.
“Há muitos participantes na indústria que produzem mais de 100.000 toneladas por ano de diferentes subprodutos e estão em busca de novas soluções”, afirma Emparanza.
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Segundo o executivo, a MOA já estruturou uma base de dados com mais de 150 subprodutos que podem fornecer carbono, nitrogênio e sais necessários ao crescimento dos microrganismos.
“O que buscamos é um equilíbrio entre carbono e nitrogênio em nossas matérias-primas. Mas não é simples. As características desses subprodutos podem variar de um sistema para outro”, explica.
IA ajusta o processo de fermentação
Para lidar com essa variabilidade, a MOA desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial chamada Albatross.
A ferramenta combina informações sobre os microrganismos disponíveis na biblioteca da companhia com dados sobre os subprodutos que serão utilizados, ajudando a definir as condições do meio de cultura e do processo fermentativo.
Antes dessa etapa, a empresa sequencia o genoma dos microrganismos e cria modelos metabólicos específicos para as cepas com as quais pretende trabalhar.
Essas informações são combinadas com dados de laboratório e características das matérias-primas para prever quais condições podem favorecer a produção da biomassa desejada.
Segundo Emparanza, o uso da plataforma alterou significativamente o tempo necessário para algumas etapas de desenvolvimento.
“Como exemplo, levamos seis meses para desenvolver nosso primeiro ingrediente, desde o planejamento experimental até a definição das melhores condições em laboratório. Hoje, com o Albatross, conseguimos concluir esse mesmo processo em menos de duas semanas”, afirma.
O dado é apresentado pela própria empresa e se refere à comparação entre seu processo inicial de desenvolvimento e a metodologia atualmente utilizada com a plataforma.
Mais do que simplesmente acelerar experimentos, a IA busca resolver uma questão importante para a proposta industrial da MOA: como utilizar matérias-primas de composição variável sem perder previsibilidade no processo de fermentação.
Três ingredientes entram na etapa de scale-up
Os recursos captados também serão destinados a ampliar a produção dos três primeiros ingredientes desenvolvidos pela companhia.
O MOA Q5 é apresentado como substituto de ovo e emulsificante multifuncional, com aplicações previstas em produtos como molhos e itens de panificação.
Segundo a empresa, o ingrediente já está sendo validado por clientes em aplicações de panificação.
O MOA Yeast é um ingrediente à base de levedura voltado a características como sabor, textura e composição nutricional de alimentos.
Já o MOA Yeast FeG foi desenvolvido principalmente para aplicações em pet food e nutrição animal. De acordo com Emparanza, o ingrediente já é utilizado em um produto comercial de alimentação para animais de estimação, embora o cliente não possa ser identificado por acordos de confidencialidade.
Os ingredientes são atualmente fabricados por um parceiro de desenvolvimento e produção contratado pela MOA na Espanha e comercializados diretamente para fabricantes de alimentos e empresas de nutrição animal.
Plataforma também busca transformar resíduos de outras empresas
Além de comercializar ingredientes próprios, a MOA desenvolveu uma segunda frente de negócios baseada no codesenvolvimento com companhias que geram grandes volumes de subprodutos.
Nesse modelo, a empresa avalia a composição do fluxo residual, seleciona microrganismos e utiliza sua plataforma para investigar como aquela matéria-prima pode ser convertida em um novo ingrediente funcional.
Segundo Emparanza, a companhia já possui clientes trabalhando nesse formato.
A produção pode ser estruturada de maneiras diferentes de acordo com cada projeto, incluindo fabricantes terceirizados, instalações dos próprios parceiros ou licenciamento da tecnologia.
Isso significa que uma empresa interessada em valorizar seus subprodutos não necessariamente precisa construir uma nova planta de fermentação em suas instalações.
A estratégia amplia o papel da MOA de fabricante de ingredientes para fornecedora de uma plataforma que conecta subproduto, microrganismo, fermentação e nova aplicação alimentar.
Scale-up será teste para a plataforma
A passagem de 120 mil para 225 mil litros será uma etapa importante para avaliar como o processo se comporta em volumes maiores.
Fermentações realizadas com matérias-primas variáveis precisam manter parâmetros suficientemente controlados para que rendimento e características do ingrediente possam ser reproduzidos de forma consistente.
Nesse contexto, a inteligência artificial não aparece apenas como ferramenta para descobrir novas combinações em laboratório. Ela passa a fazer parte da tentativa de tornar previsível um processo alimentado por matérias-primas que, por natureza, podem apresentar diferenças entre lotes.
A MOA afirma trabalhar atualmente com leveduras não transgênicas e selecioná-las também levando em consideração os mercados regulatórios que pretende atender. As condições específicas de autorização podem variar de acordo com cepa, ingrediente, processo e país.
A rodada de US$ 3,8 milhões financia, portanto, mais do que um aumento de capacidade.
Ao avançar para biorreatores de 225 mil litros, ampliar produtos já em validação e trabalhar com fluxos residuais de diferentes indústrias, a MOA pretende testar se sua combinação de fermentação de biomassa, inteligência artificial e subprodutos agroalimentares consegue funcionar de forma consistente em escala industrial.
Se a estratégia avançar, o diferencial da plataforma estará justamente em transformar uma dificuldade típica da fermentação baseada em resíduos — a variabilidade da matéria-prima — em um parâmetro que possa ser analisado e ajustado durante o desenvolvimento do processo.
Saiba mais sobre este assunto:
O que a MOA Foodtech faz?
A MOA Foodtech desenvolve ingredientes por fermentação de biomassa utilizando leveduras e diferentes subprodutos agroalimentares como matéria-prima.
Como a inteligência artificial é usada pela MOA Foodtech?
A empresa utiliza a plataforma Albatross para combinar informações sobre microrganismos, composição dos subprodutos e condições de fermentação, buscando definir processos mais eficientes.
Qual será a nova escala de fermentação da MOA?
A empresa pretende ampliar sua operação de biorreatores de 120 mil litros para estruturas de 225 mil litros.
Quais ingredientes a MOA já desenvolveu?
Entre os primeiros produtos estão o MOA Q5, substituto de ovo e emulsificante, o MOA Yeast e o MOA Yeast FeG, voltado principalmente a pet food e nutrição animal.




