sexta-feira, 11/09/2026
spot_imgspot_img
InícioAgtechBiofungicida derivado de ameba avança para comercialização em cereais na Europa

Biofungicida derivado de ameba avança para comercialização em cereais na Europa

Syngenta e Amoéba fecham acordo para tecnologia voltada à septoriose e ferrugem-amarela, com lançamentos previstos a partir de 2028

 

Um biofungicida desenvolvido a partir do lisado de uma ameba avança para uma nova etapa de comercialização na Europa. A Syngenta Crop Protection e a francesa Amoéba firmaram um acordo de longo prazo para desenvolver e distribuir a formulação AXP20 no mercado de cereais, inicialmente com foco no controle da septoriose do trigo e da ferrugem-amarela.

A tecnologia utiliza o lisado da ameba unicelular Willaertia magna C2c Maky como substância biológica ativa. Pelo acordo, a Syngenta terá direitos exclusivos de distribuição para todos os cereais, com exceção do milho, nos 27 países da União Europeia, Reino Unido, Ucrânia e Suíça.

A parceria transforma em acordo comercial vinculante o memorando de entendimento firmado pelas empresas em novembro de 2025 e estabelece uma rota para levar o produto ao mercado. As primeiras aprovações são esperadas para o terceiro trimestre de 2028, com vendas iniciais previstas para o fim daquele ano e utilização por agricultores a partir da primavera europeia de 2029.

Antes disso, Syngenta e Amoéba ampliam a etapa de validação. Somente em 2026, as companhias afirmam estar conduzindo mais de 70 testes de campo com a tecnologia.

Biofungicida atua sobre a germinação dos fungos

A origem do AXP20 diferencia a tecnologia de produtos convencionais utilizados para proteção das culturas. Em vez de uma molécula química sintética, o princípio é obtido a partir do lisado de Willaertia magna C2c Maky, uma ameba unicelular.

Segundo as empresas, o biofungicida atua principalmente impedindo a germinação de esporos dos fungos e também pode estimular mecanismos naturais de defesa das plantas. Ensaios realizados até agora indicaram atividade contra a septoriose e a ferrugem-amarela, embora a validação em diferentes condições agrícolas continue antes da entrada comercial.

A tecnologia foi classificada pelo Fungicide Resistance Action Committee (FRAC) no grupo BM02, destinado a produtos biológicos com múltiplos modos de ação e considerados de baixo risco para desenvolvimento de resistência.

 

Leia Mais:

 

Esse atributo é particularmente relevante porque a resistência dos patógenos a fungicidas existentes aparece entre os desafios enfrentados atualmente pelos produtores de cereais europeus, juntamente com restrições regulatórias que vêm reduzindo algumas opções convencionais de proteção de cultivos.

A chegada do AXP20, porém, não significa uma substituição geral dos fungicidas convencionais. A própria Syngenta enquadra as soluções biológicas dentro de estratégias integradas de manejo, nas quais diferentes ferramentas podem ser utilizadas conjuntamente para controlar doenças e reduzir a pressão de resistência.

Septoriose e ferrugem-amarela atingem milhões de hectares

O primeiro mercado definido para a tecnologia ajuda a explicar a dimensão comercial do acordo.

A septoriose do trigo, causada por Zymoseptoria tritici, e a ferrugem-amarela, provocada por Puccinia striiformis, estão entre as doenças fúngicas de maior impacto econômico sobre os cereais europeus.

Segundo os dados apresentados pelas empresas, as duas doenças atingem conjuntamente entre 9 milhões e 12 milhões de hectares por ano. Na Alemanha, a septoriose pode provocar perdas de produtividade entre 5% e 50%, enquanto a ferrugem-amarela pode reduzir a produção entre 10% e 70% e, em variedades suscetíveis e condições severas, levar à perda completa da cultura.

O foco inicial de comercialização será trigo, espelta e triticale, em cultivos de inverno e primavera. O acordo já prevê a possibilidade de expansão futura para outras culturas e geografias à medida que novos dados sobre o desempenho do biofungicida forem obtidos.

Princípio ativo já passou por avaliação regulatória

O projeto também chega ao acordo comercial em um estágio regulatório mais avançado do que muitas tecnologias de biocontrole ainda em desenvolvimento.

A substância ativa recebeu aprovação na União Europeia em 2025 após avaliação da European Food Safety Authority (EFSA). Em junho de 2026, a Amoéba obteve ainda autorização de comercialização na França para o AXPERA, biofungicida baseado na mesma tecnologia.

Isso não significa, entretanto, que o produto a ser distribuído pela Syngenta já esteja disponível comercialmente para cereais em todos os mercados abrangidos pelo acordo.

A formulação destinada a esse mercado permanece identificada pelo código de desenvolvimento AXP20, e a futura marca comercial ainda dependerá das aprovações regulatórias. As primeiras autorizações nos principais mercados da União Europeia estão previstas para o terceiro trimestre de 2028; Reino Unido e Suíça devem seguir aproximadamente em 2029.

Os mais de 70 testes realizados neste ano fazem parte justamente do trabalho necessário para gerar dados de desempenho e apoiar os processos regulatórios antes do lançamento.

Acordo leva tecnologia para estrutura comercial da Syngenta

Para a Amoéba, a parceria também representa a passagem de uma tecnologia desenvolvida por uma empresa de biossoluções para uma estrutura de distribuição agrícola de maior escala.

“Entre muitas outras soluções biológicas, a triagem da Syngenta selecionou o AXP20 como o biofungicida de melhor desempenho”, afirmou Jean-Marc Petat, diretor-geral da Green for Agro, subsidiária de biossoluções da Amoéba, ao anunciar o acordo. A avaliação representa a posição das empresas e está relacionada aos testes realizados dentro do programa de desenvolvimento.

A Syngenta, por sua vez, incorpora o produto ao portfólio de biológicos destinado à proteção de cereais.

Matthew Pickard, responsável pelas áreas de tratamento de sementes e biológicos da Syngenta na Europa, relaciona a parceria ao cenário de redução das alternativas convencionais e de crescimento da resistência. Para o executivo, a tecnologia acrescenta uma nova ferramenta ao portfólio de biocontrole destinado aos produtores europeus.

Biológicos ampliam o repertório para proteção de cultivos

O AXP20 chega a uma etapa de desenvolvimento em que o desafio deixa de ser apenas demonstrar atividade antifúngica e passa a incluir desempenho consistente no campo, aprovação regulatória e capacidade de comercialização em diferentes sistemas agrícolas.

Nesse sentido, a parceria Syngenta-Amoéba mostra uma rota diferente de outras tecnologias emergentes de proteção de cultivos. Enquanto algumas plataformas exploram silenciamento gênico, novos microrganismos ou processos físicos, o AXP20 utiliza um material derivado de ameba para interferir no desenvolvimento dos fungos.

O acordo não demonstra que tecnologias biológicas substituirão os fungicidas convencionais. Mostra, porém, que a redução de opções disponíveis e o desafio da resistência estão abrindo espaço para novas ferramentas de biocontrole dentro dos programas de manejo de doenças.

A próxima etapa será determinar se os resultados observados nos testes podem ser reproduzidos de forma consistente em diferentes regiões e condições produtivas.

Com mais de 70 ensaios de campo em andamento, aprovação europeia da substância ativa e uma rota comercial definida para 2028 e 2029, o biofungicida derivado de Willaertia magna deixa de ser apenas uma tecnologia em desenvolvimento e se aproxima de um teste maior: entrar no manejo cotidiano de doenças em milhões de hectares de cereais europeus.

 

Saiba mais sobre o assunto:

 

O que é o biofungicida AXP20?
O AXP20 é uma formulação biológica desenvolvida pela Amoéba a partir do lisado da ameba Willaertia magna C2c Maky. A tecnologia está sendo desenvolvida para o controle de doenças fúngicas em cereais.

Quais doenças o biofungicida pretende controlar?
O foco inicial está na septoriose do trigo e na ferrugem-amarela, duas doenças de importância econômica para a produção de cereais na Europa.

Quando o biofungicida deve chegar ao mercado?
As primeiras aprovações nos principais mercados europeus são esperadas para o terceiro trimestre de 2028, com vendas previstas a partir do final daquele ano.

O biofungicida substituirá os fungicidas químicos?
O acordo não indica substituição completa dos fungicidas convencionais. A tecnologia é apresentada como uma nova ferramenta de biocontrole que poderá integrar estratégias de manejo de doenças.

RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Mais lidas

Últimos comentários