quinta-feira, 17/09/2026
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Embrapa propõe 163 medidas para ampliar resiliência climática da agropecuária

Documento vai além do El Niño e reúne ações de manejo, tecnologia, monitoramento e políticas para reduzir riscos de produção

 

 

A Embrapa reuniu 163 medidas para reduzir riscos de perdas climáticas na agropecuária brasileira, em uma nota técnica elaborada para a safra 2026/2027. Embora o trabalho tenha sido motivado pelo El Niño, as recomendações foram estruturadas para enfrentar também eventos recorrentes como secas, excesso de chuva, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.

O documento foi entregue ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e produzido no âmbito do grupo de trabalho criado para avaliar os possíveis impactos do fenômeno climático sobre a produção brasileira. Cerca de 50 especialistas da Embrapa participaram da elaboração das recomendações, com contribuição também do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

Mais do que responder a uma safra específica, a proposta aponta para uma mudança na forma como o risco climático é incorporado à produção de alimentos: sair de uma atuação concentrada na resposta às crises para uma estratégia permanente de antecipação, adaptação, monitoramento e redução da vulnerabilidade das cadeias produtivas.

Das 163 medidas, 14 são transversais a toda a agropecuária, 139 foram direcionadas a cadeias produtivas específicas e dez dependem de ações institucionais ou de políticas públicas.

El Niño funciona como gatilho para uma agenda mais ampla

Para a safra 2026/2027, a análise considera maior probabilidade de precipitações abaixo da média em áreas do Centro-Norte do Brasil e acima da média no Sul.

A própria Embrapa, porém, ressalta que essas projeções representam aumento de risco, e não uma previsão direta das perdas que ocorrerão em cada cultura, propriedade ou região. O efeito depende de fatores como intensidade e duração dos eventos, condições locais, sistema produtivo e capacidade de adaptação.

A nota trabalha com diferentes ameaças, incluindo atraso ou irregularidade do início da estação chuvosa, déficit hídrico prolongado, temperaturas elevadas, chuvas excessivas e tempestades severas.

 

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Os possíveis impactos foram avaliados em cadeias de grãos e fibras, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais e aquicultura.

Por isso, embora o El Niño tenha motivado o trabalho, a Embrapa defende que grande parte das medidas seja incorporada de maneira permanente à gestão das propriedades e às políticas destinadas à produção agropecuária.

Zarc, dados meteorológicos e diversificação entram na prevenção

Entre as 14 recomendações aplicáveis de forma transversal estão medidas que combinam informação climática, planejamento produtivo e instrumentos financeiros.

A Embrapa recomenda acompanhar previsões meteorológicas, utilizar dados climáticos locais e incorporar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) ao planejamento.

Também aparecem estratégias como diversificação espacial e temporal da produção, integração lavoura-pecuária e integração lavoura-pecuária-floresta, manutenção da infraestrutura das propriedades, dimensionamento da capacidade operacional e elaboração de planos de contingência.

O documento inclui ainda registro dos eventos e de seus impactos, avaliação econômica do nível de proteção adotado, criação de reservas financeiras, seguro rural e capacitação das equipes.

O conjunto mostra que a gestão de risco climático não depende de uma única tecnologia. Ela resulta da combinação entre dados, decisões agronômicas, infraestrutura, financiamento e mecanismos de transferência de risco.

Cada cadeia exige respostas específicas

Além das medidas gerais, a Embrapa apresenta 139 recomendações específicas para diferentes sistemas produtivos.

Elas envolvem fatores como manejo do solo, escolha de cultivares, planejamento das operações agrícolas, irrigação, drenagem e instalação de estruturas de proteção.

Essa diferenciação é importante porque um mesmo evento climático pode produzir consequências bastante diferentes de acordo com a cultura e a fase de desenvolvimento da planta.

Um período de déficit hídrico, por exemplo, não representa o mesmo nível de risco em todas as fases de uma lavoura. Da mesma forma, excesso de precipitação pode afetar plantio, desenvolvimento, colheita, qualidade da matéria-prima e acesso às áreas produtivas de maneiras distintas.

Nesse contexto, a gestão climática passa a integrar o próprio planejamento da produção, em vez de entrar apenas depois que um evento adverso já provocou perdas.

Pesquisa e tecnologia também entram na estratégia

Dez recomendações dependem principalmente de ações institucionais, científicas, financeiras ou de assistência técnica, e não apenas de decisões individuais dos produtores.

Entre elas estão o fortalecimento e aperfeiçoamento do Zarc, ampliação de linhas de financiamento voltadas à adaptação climática, aperfeiçoamento do seguro rural e fortalecimento da assistência técnica.

A nota também propõe ampliar pesquisa e validação de tecnologias para o desenvolvimento de materiais mais adaptados às condições climáticas, além de melhorar os sistemas de monitoramento agrometeorológico.

Gestão integrada de recursos hídricos, prevenção e combate a incêndios e recuperação de cobertura vegetal em regiões vulneráveis aparecem entre as outras ações estruturais.

Esse conjunto desloca parte da discussão climática para o campo da inovação: novas cultivares, modelos de previsão, dados de risco, sistemas de produção e ferramentas de decisão passam a fazer parte da capacidade de adaptação do setor.

Gestão de risco afeta também a indústria de alimentos

Para a cadeia de alimentos, a discussão não termina na propriedade rural.

Eventos climáticos podem alterar produtividade, disponibilidade, qualidade e regularidade do fornecimento de matérias-primas, afetando posteriormente processamento, custos e planejamento industrial.

Por isso, aumentar a resiliência agrícola também significa tentar reduzir oscilações na oferta de grãos, frutas, hortaliças, leite, carnes e outras matérias-primas que alimentam diferentes segmentos industriais.

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático exemplifica essa conexão. Ao indicar períodos e condições de menor risco para determinadas culturas, a ferramenta auxilia decisões de produção que, em escala agregada, influenciam a previsibilidade da própria cadeia de abastecimento.

A Embrapa já vem complementando a nota nacional com orientações mais específicas. Em setembro, por exemplo, publicou recomendações para aumentar a resiliência das lavouras diante de um El Niño forte no Cerrado, reforçando o uso do Zarc e de práticas conservacionistas.

Da reação à antecipação

O principal argumento da nota técnica é que os eventos de 2026/2027 não deveriam ser tratados como uma situação isolada.

Para Eduardo Monteiro, coordenador da Rede Zarc e pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, o desafio é consolidar uma política permanente capaz de antecipar, monitorar e responder de forma organizada a diferentes ameaças climáticas.

Nesse sentido, as 163 medidas não representam uma garantia contra perdas. Algumas podem ser implementadas imediatamente, enquanto outras dependem de investimentos, pesquisa, financiamento ou mudanças institucionais de médio e longo prazo.

O que o documento propõe é uma mudança na lógica da gestão: o risco climático deixa de ser apenas uma emergência enfrentada depois do evento e passa a ser uma variável incorporada previamente ao planejamento produtivo.

Para a produção de alimentos, essa transição é relevante porque conecta clima a decisões sobre genética, manejo, infraestrutura, informação e capacidade financeira.

Em um cenário no qual secas, excesso de chuva, calor, geadas e outros eventos podem atingir diferentes elos da produção, a estratégia da Embrapa aponta para uma agricultura em que resiliência climática passa a fazer parte da tecnologia e da gestão necessárias para manter a produção e reduzir a exposição das cadeias de alimentos a perdas futuras.

 

Saiba mais sobre o assunto:

Quais são as 163 medidas propostas pela Embrapa?
A Embrapa reuniu 163 recomendações para reduzir riscos climáticos na agropecuária, incluindo ações de manejo, monitoramento, infraestrutura, tecnologia, financiamento, seguro rural e políticas públicas.

As recomendações da Embrapa valem apenas para o El Niño?
Não. Embora o documento tenha sido elaborado no contexto do El Niño da safra 2026/2027, as medidas também abordam riscos associados a secas, excesso de chuva, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.

O que é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático?
O Zarc é uma ferramenta utilizada para indicar períodos e condições de menor risco climático para diferentes culturas e regiões, auxiliando produtores no planejamento agrícola.

Como os riscos climáticos podem afetar a indústria de alimentos?
Eventos climáticos podem alterar produtividade, qualidade, disponibilidade e regularidade das matérias-primas agrícolas, com impactos sobre abastecimento, processamento, custos e planejamento industrial.

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