Análise de lançamentos nos Estados Unidos mostra que destacar uma característica nutricional positiva não significa que o restante da composição também seja mais favorável
Destacar uma característica nutricional positiva na embalagem não significa que o produto tenha uma composição mais favorável como um todo. É o que mostra uma análise de 145.609 alimentos e bebidas lançados nos Estados Unidos entre 2015 e 2024.
O estudo, publicado na Nature Food por pesquisadores da Cornell University e da University of Kentucky, comparou produtos com e sem diferentes alegações presentes nas embalagens. A conclusão não é que os claims sejam falsos, mas que olhar apenas para o atributo destacado pode deixar de fora diferenças importantes em outros nutrientes.
Os exemplos ajudam a mostrar como isso acontece. Em algumas categorias de bebidas, produtos que destacavam redução ou baixo teor de sódio apresentavam maior quantidade de açúcar total. Entre alimentos, determinadas alegações relacionadas à gordura trans coexistiam com mais gordura saturada, sódio e energia ou com menos proteína.
Isso não significa que reduzir sódio tenha provocado aumento de açúcar ou que diminuir gordura trans tenha causado outras mudanças. A pesquisa comparou produtos diferentes e não acompanhou uma mesma formulação antes e depois de ser reformulada.
O achado coloca duas questões distintas para a indústria. Para P&D e desenvolvimento de produtos, chama atenção para o que acontece com o conjunto da formulação quando determinado atributo nutricional ganha prioridade. Para marketing e comunicação, mostra por que uma mensagem correta sobre uma característica específica não deve ser confundida com uma avaliação completa do alimento.
Mais da metade dos lançamentos tinha algum destaque no rótulo
Os pesquisadores analisaram dados da Mintel Global New Products Database (GNPD) referentes a alimentos e bebidas embalados recém-lançados no mercado americano entre janeiro de 2015 e dezembro de 2024.
As alegações foram organizadas em quatro grupos usados pela Mintel. Minus reuniu mensagens relacionadas à redução ou ausência de componentes como calorias, açúcar, sódio e gorduras. Plus incluiu atributos como proteína, fibra, vitaminas e minerais. Natural abrangeu características como orgânico, não transgênico e grãos integrais. Functional reuniu alegações associadas a funções ou benefícios fisiológicos, como saúde cardiovascular, suporte imune, probióticos e antioxidantes.
Essa classificação é importante porque o estudo não trata apenas de “alegações de saúde” no sentido regulatório. Ele reúne diferentes formas de destacar características nutricionais, de composição ou relacionadas à saúde na embalagem.
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Em todos os anos analisados, mais da metade dos novos produtos apresentava pelo menos uma dessas alegações. A proporção chegou a 61,1% em 2019 e 2020 e ficou em 54,5% em 2024. Entre os produtos com claims, a média era de 2,8 alegações por lançamento.
Para verificar se esses destaques acompanhavam uma composição nutricional mais favorável de forma mais ampla, os pesquisadores usaram o UK Nutrient Profiling Model 2004–2005.
O modelo não olha apenas para o nutriente mencionado na embalagem. Ele considera conjuntamente energia, gordura saturada, açúcar total e sódio, além de componentes considerados favoráveis, como frutas, vegetais e nozes, fibra e proteína.
Cerca de dois terços dos produtos analisados ficaram acima dos limites que o modelo utiliza para classificar alimentos e bebidas como less healthy. Mas isso não significa que produtos com alegações fossem, em geral, nutricionalmente piores.
Na maioria dos alimentos, ocorreu o contrário: os produtos com claims tendiam a apresentar pontuações mais favoráveis do que aqueles sem as mesmas alegações. A descoberta relevante surgiu nas exceções e nas diferenças entre categorias: ter uma característica favorável destacada na embalagem não garantia que os demais componentes seguissem o mesmo padrão.
Menos sódio podia coexistir com mais açúcar
Essas diferenças apareceram com maior frequência entre as bebidas.
Considerando todas as bebidas analisadas, quatro tipos de alegação estavam associados a uma composição geral menos favorável segundo o modelo: redução ou baixo teor de calorias, ausência de açúcar, redução ou baixo teor de sódio e redução ou baixo teor de gordura saturada. Um dos exemplos mais claros envolveu o sódio.
Em refrigerantes carbonatados, bebidas não carbonatadas de frutas ou sabores e cafés e chás prontos para beber, os produtos com alegações de redução ou baixo teor de sódio apresentavam maior quantidade de açúcar total, diferença que teve peso importante no resultado menos favorável obtido no modelo nutricional.
Nas bebidas não carbonatadas de frutas ou sabores, os produtos com alegação de redução ou baixo teor de gordura saturada efetivamente tinham menos desse nutriente, mas também apresentavam mais açúcar.
Entre os alimentos, uma das principais exceções envolveu alegações de baixo teor, ausência ou redução de gordura trans. Em laticínios e ovos, os produtos com esse claim apresentavam menos proteína e mais gordura saturada, energia e sódio do que aqueles sem a alegação. Em refeições e acompanhamentos, as diferenças apareceram principalmente em sódio e gordura saturada.
É nesse sentido que os pesquisadores discutem possíveis trade-offs: uma característica favorável pode coexistir com diferenças menos favoráveis em outras partes da composição.
Mas o estudo não mostra como essas diferenças surgiram. Os pesquisadores não acompanharam reformulações individuais nem identificaram ingredientes retirados ou adicionados pelas empresas. Os dados, portanto, não permitem afirmar que um fabricante aumentou açúcar para compensar uma redução de sódio, por exemplo.
Algumas comparações também envolveram poucos produtos. No caso das bebidas não carbonatadas de frutas ou sabores com alegação de redução ou baixo teor de gordura saturada, havia apenas 13 lançamentos com o claim, diante de 1.138 sem ele.
Os resultados apontam, assim, para diferenças na composição que são compatíveis com trade-offs entre nutrientes, mas não demonstram que uma mudança tenha causado a outra.
Para P&D, melhorar um atributo não encerra a formulação
Para quem desenvolve alimentos, o estudo traz uma questão que vai além da comunicação no rótulo: o que acontece com o restante do produto quando uma característica nutricional passa a ser uma meta da formulação?
Reduzir açúcar, sódio, gordura ou calorias pode fazer parte de um projeto de reformulação. Aumentar proteína ou fibra também pode ser uma especificação de desenvolvimento. Mas nenhum desses atributos existe isoladamente dentro do alimento.
Uma formulação precisa atender simultaneamente a requisitos nutricionais e a características como sabor, textura, estabilidade, conservação, processamento, custo e aceitação do consumidor. Alterar um componente pode exigir novas decisões sobre outros elementos do produto.
O estudo não investigou essas decisões dentro das empresas e, portanto, não mostra quais restrições técnicas, comerciais ou sensoriais explicam as diferenças observadas. Também não permite concluir que determinados trade-offs sejam inevitáveis.
A contribuição para P&D é mais específica: atingir uma meta em um nutriente não informa, por si só, o que aconteceu com o restante da composição.
Isso torna a avaliação do conjunto especialmente relevante em projetos nos quais um objetivo nutricional, e eventualmente um claim associado a ele, faz parte do briefing de inovação. Cumprir o critério para destacar determinada característica não significa necessariamente que todas as outras dimensões nutricionais tenham mudado na mesma direção.
Para marketing, uma mensagem verdadeira pode ser interpretada de forma mais ampla
No marketing e na comunicação, o problema é outro.
Uma alegação de baixo teor de sódio, por exemplo, comunica uma característica específica. Se o produto cumpre os critérios aplicáveis, essa informação pode estar correta independentemente do teor de outros nutrientes.
A pesquisa não avaliou se os claims eram falsos ou verdadeiros, se estavam em conformidade com as regras de rotulagem nem qual era a intenção das marcas ao utilizá-los. Seu objeto era comparar os atributos destacados nas embalagens com a composição nutricional mais ampla dos produtos.
A questão é que o significado que o consumidor atribui à mensagem pode ultrapassar aquilo que ela literalmente informa.
Pesquisas anteriores descrevem o chamado health halo, fenômeno pelo qual uma característica percebida como positiva influencia a avaliação mais ampla de um produto. É nesse contexto que a diferença encontrada pelo estudo ganha relevância para a comunicação: um atributo nutricional favorável pode ocupar posição de destaque na embalagem enquanto outros componentes contam uma história mais complexa.
Mas essa é uma implicação, não um resultado comportamental da pesquisa. O estudo da Cornell não mediu percepção dos consumidores, decisões de compra ou consumo. Portanto, não permite afirmar que as pessoas tenham sido induzidas a considerar esses produtos mais saudáveis.
O que ele permite dizer é que o conteúdo de uma alegação específica e a composição mais ampla do alimento são informações diferentes. Para marketing, reconhecer essa distinção ajuda a separar aquilo que o claim efetivamente comunica da interpretação mais abrangente que ele pode receber.
O que o estudo não permite concluir
Os resultados se referem a produtos lançados nos Estados Unidos entre 2015 e 2024. Eles não podem ser transferidos diretamente para Brasil, América Latina ou outros mercados, onde formulações, categorias, regulamentação e estratégias de comunicação podem ser diferentes.
A base da Mintel registra lançamentos e não necessariamente os produtos mais vendidos ou os alimentos que efetivamente compõem a dieta dos consumidores.
Há ainda uma diferença importante entre a ferramenta usada na pesquisa e as regras que determinam quais alegações podem aparecer nas embalagens americanas. O UK Nutrient Profiling Model foi adotado pelos pesquisadores como uma referência para avaliar vários componentes da composição ao mesmo tempo; ele não determina se os claims estudados são legais ou regulares nos Estados Unidos.
Por isso, a pontuação obtida pelo modelo também não deve ser transformada em um veredito absoluto sobre um produto ser “saudável” ou “não saudável”.
O estudo responde a uma pergunta mais delimitada: até que ponto uma característica destacada na embalagem permite antecipar a composição nutricional mais ampla do produto?
A análise de 145.609 lançamentos mostra que essa pista é incompleta. Em muitos casos, produtos com claims tinham composição mais favorável segundo o modelo utilizado. Em outros, porém, o atributo positivo destacado coexistia com diferenças menos favoráveis em outros nutrientes.
Para a indústria, é justamente essa distância entre a parte e o todo que importa: no desenvolvimento, porque uma meta nutricional precisa ser observada dentro da formulação completa; na comunicação, porque aquilo que o rótulo destaca é necessariamente apenas uma parte do produto.




