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Melhorar produtos existentes pode não bastar para atingir metas de nutrição e sustentabilidade, aponta estudo

Pesquisa com 44 fabricantes britânicos identifica oportunidades de melhoria nos portfólios atuais, mas aponta a necessidade de mudanças mais profundas na oferta de alimentos e nos padrões de consumo

 

Melhorar a qualidade nutricional e reduzir os impactos ambientais dos alimentos já comercializados pode trazer benefícios relevantes para a indústria, mas essas intervenções, isoladamente, podem ser insuficientes para alcançar objetivos mais amplos de saúde e sustentabilidade. Essa é uma das principais conclusões discutidas por pesquisadores da Universidade de Oxford em um estudo publicado em setembro na revista científica Nature Food.

A pesquisa analisou os portfólios de 44 grandes fabricantes de alimentos e bebidas no Reino Unido e identificou oportunidades de melhoria que poderiam ser alcançadas com mudanças em uma parcela relativamente pequena dos produtos. Entretanto, os autores observam que os ganhos estimados são limitados diante das transformações necessárias para cumprir metas empresariais, governamentais e sociais relacionadas à alimentação.

Na avaliação dos pesquisadores, avançar em direção a um sistema alimentar mais saudável e sustentável exigirá mudanças mais profundas, incluindo a introdução de novos alimentos com melhores perfis nutricionais e ambientais e o estímulo a padrões de consumo que favoreçam esses produtos.

A conclusão não diminui a importância de melhorar os alimentos existentes. Ela indica que otimizar um portfólio dentro de suas categorias atuais e transformar a composição da oferta alimentar são desafios relacionados, mas distintos.

O que os fabricantes podem melhorar nos portfólios atuais

Para investigar o potencial das mudanças, os pesquisadores desenvolveram uma metodologia que combina informações sobre qualidade nutricional, impacto ambiental e vendas de alimentos.

A análise reuniu 15.673 produtos de 396 marcas pertencentes a 44 fabricantes. Juntas, essas empresas representavam aproximadamente 51,5% do mercado britânico de alimentos e bebidas embalados em valor de vendas em 2019, ano de referência da base utilizada.

 

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O estudo encontrou diferenças consideráveis entre produtos de uma mesma categoria, tanto dentro dos portfólios de um fabricante quanto entre empresas concorrentes.

A partir dessas diferenças, os pesquisadores simularam melhorias nos produtos com desempenho inferior à mediana de suas respectivas categorias. Na prática, isso significa considerar a substituição hipotética de um produto por uma alternativa com pontuação nutricional ou ambiental equivalente à mediana dos produtos da mesma categoria comercializados pelo fabricante.

O modelo não pressupõe, portanto, uma mudança estrutural na composição da oferta. Um biscoito seria substituído, na simulação, por outro biscoito com melhor pontuação, e não por um alimento de categoria diferente, como frutas.

Os resultados mostram que as oportunidades de melhoria não estão distribuídas igualmente entre os produtos.

Em 12 dos 44 fabricantes, alterações hipotéticas em 10% ou menos dos itens seriam suficientes para alcançar mais da metade de todo o potencial de melhoria ambiental estimado pelo modelo. Na dimensão nutricional, esse resultado foi identificado em 17 fabricantes.

Isso não significa que modificar 10% dos produtos reduziria os impactos ambientais pela metade ou produziria uma melhoria nutricional de 50%. Os percentuais se referem à concentração dos ganhos possíveis dentro das condições estabelecidas pela simulação, e não à magnitude absoluta das melhorias.

Ao simular mudanças em 10% dos produtos, a pesquisa estimou reduções superiores a 5% no indicador ambiental agregado de 27 fabricantes. Na dimensão nutricional, 25 empresas apresentaram potencial de melhoria superior a 1% em suas pontuações.

Esses resultados representam cenários modelados, não intervenções efetivamente realizadas pelas empresas.

Por que melhorar os produtos atuais tem limites

A própria estrutura da simulação ajuda a explicar uma das principais limitações apontadas pelos autores.

Como as melhorias foram calculadas tomando como referência produtos da mesma categoria, o modelo estimou o que poderia ser alcançado com mudanças dentro das linhas existentes, sem considerar uma transformação mais ampla na composição dos portfólios.

Essa abordagem permite identificar oportunidades concretas de comparação entre produtos semelhantes, mas não avalia os efeitos de substituir parte da oferta atual por alimentos de outras categorias, potencialmente mais nutritivos e sustentáveis.

Na discussão do artigo, os pesquisadores observam que, embora grande parte dos ganhos possíveis possa estar concentrada em poucos produtos, a magnitude dessas melhorias permanece pequena em comparação com as mudanças necessárias para atingir objetivos mais amplos de nutrição e sustentabilidade.

Por isso, defendem que a transformação do sistema alimentar também precisa envolver mudanças na oferta e no consumo. Entre os caminhos mencionados estão a introdução de alimentos mais nutritivos e sustentáveis e o incentivo à substituição de escolhas alimentares por produtos e categorias com maior presença de frutas, vegetais, cereais integrais, nozes e leguminosas.

Trata-se de uma implicação discutida pelos autores a partir dos resultados e de pesquisas anteriores sobre transições alimentares. O estudo não comparou diretamente o desempenho de estratégias de reformulação com o desenvolvimento de novos alimentos, nem quantificou os ganhos que uma transformação mais ampla dos portfólios produziria.

Como identificar os produtos que merecem prioridade

Embora a pesquisa destaque os limites das melhorias dentro das categorias existentes, sua metodologia oferece uma ferramenta para orientar decisões de curto e médio prazo.

A seleção dos produtos prioritários não depende apenas de suas pontuações individuais. O modelo considera também a distância entre o desempenho de cada produto e a mediana de sua categoria, além do peso comercial dessa categoria no portfólio do fabricante.

Isso significa que um alimento com pontuação muito desfavorável não necessariamente representa a maior oportunidade de melhoria para a empresa. Um produto com desempenho menos problemático, mas pertencente a uma categoria de maior participação nas vendas, pode ter influência superior sobre os indicadores agregados.

A ponderação comercial permite identificar onde uma intervenção hipotética teria maior efeito sobre o resultado do portfólio. Entretanto, como o estudo não dispunha de dados individualizados de vendas para todos os produtos, os pesquisadores utilizaram uma aproximação baseada no valor comercial das categorias.

A análise também mostrou que as prioridades podem mudar conforme o objetivo escolhido.

Os indicadores nutricionais foram calculados a partir de um modelo britânico de perfil nutricional que considera componentes como energia, açúcares, gorduras saturadas, sódio, fibras e proteínas. Já a avaliação ambiental reuniu estimativas de emissões de gases de efeito estufa, uso da terra, uso da água e eutrofização.

Ao testar estratégias voltadas exclusivamente à nutrição ou ao ambiente, os pesquisadores identificaram situações em que maximizar os ganhos de uma dimensão reduzia os benefícios da outra ou provocava resultados desfavoráveis.

Assim, selecionar produtos para melhorar a qualidade nutricional não significa necessariamente escolher aqueles com maior potencial de redução de impacto ambiental.

O que os resultados significam para a indústria

Para fabricantes de alimentos e bebidas, a pesquisa apresenta duas implicações complementares.

A primeira é a possibilidade de utilizar indicadores quantitativos para orientar a gestão dos portfólios existentes, identificando produtos e categorias nos quais esforços de melhoria podem produzir maior efeito agregado.

A segunda é a necessidade de considerar estratégias que ultrapassem as melhorias incrementais dentro das linhas atuais, incluindo a composição futura da oferta de alimentos.

Essa distinção é relevante para áreas de inovação, P&D, sustentabilidade e estratégia. Melhorar formulações existentes pode contribuir para compromissos nutricionais e ambientais, mas a discussão apresentada pelos autores sugere que atingir objetivos mais ambiciosos também dependerá de quais alimentos as empresas desenvolverão, produzirão e colocarão no mercado.

A pesquisa, entretanto, não demonstra a viabilidade industrial ou comercial das mudanças simuladas. Custos de desenvolvimento, restrições de produção, aceitação sensorial e comportamento de compra não foram incorporados aos cenários.

Também há limites na avaliação ambiental. Os indicadores utilizados contemplam impactos associados à produção agrícola, mas não incluem etapas posteriores, como processamento industrial, transporte e armazenamento. Por isso, não representam uma avaliação integral do ciclo de vida dos produtos.

Os resultados estão ainda vinculados à composição e às condições do mercado britânico em 2019, não podendo ser automaticamente extrapolados para outros países ou para os portfólios atuais das empresas.

Para a indústria, a principal distinção está entre duas frentes complementares: melhorar o desempenho dos produtos que já fazem parte dos portfólios e repensar quais alimentos deverão compor sua oferta no futuro. A pesquisa mostra oportunidades para a primeira e aponta a importância da segunda para avanços mais amplos em nutrição e sustentabilidade.

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