terça-feira, 23/06/2026
spot_imgspot_img
InícioClimaMercado de carbono amplia foco e passa a medir a saúde do...

Mercado de carbono amplia foco e passa a medir a saúde do solo além do carbono

Startup alemã Seqana quer expandir monitoramento e incluir indicadores de resiliência, biodiversidade e produtividade em um momento em que a degradação dos solos se torna uma preocupação econômica e climática

 

 

Mais de 60% dos solos europeus são considerados não saudáveis e a degradação dessas áreas gera perdas econômicas estimadas em € 50 bilhões por ano, segundo a Comissão Europeia. O cenário vem ampliando a pressão para que agricultores, empresas e investidores passem a olhar além do carbono e encontrem formas mais abrangentes de medir a saúde do solo e a resiliência dos sistemas agrícolas.

É nesse contexto que a startup alemã Seqana anunciou uma rodada de financiamento de € 3,2 milhões liderada pelo fundo holandês Pymwymic, com participação dos investidores atuais HTGF e Counteract. A empresa desenvolve tecnologias de MRV — sigla para Monitoramento, Relato e Verificação — que combinam imagens de satélite, dados coletados em campo e inteligência artificial para quantificar carbono e outros indicadores ligados à saúde do solo.

Os recursos serão utilizados para ampliar as capacidades da plataforma, expandindo a medição para aspectos como estabilidade produtiva, qualidade do solo e resiliência das cadeias agrícolas.

O carbono continua importante, mas já não conta toda a história

Nos últimos anos, o carbono orgânico do solo se tornou a principal métrica da agricultura regenerativa e do mercado voluntário de carbono. Ele permite estimar a capacidade dos solos de armazenar carbono atmosférico e serve de base para programas de créditos de carbono agrícolas.

Mas a crescente incidência de eventos climáticos extremos e a necessidade de tornar a produção agrícola mais resiliente estão ampliando essa discussão.

Hoje, empresas do setor agroalimentar buscam entender não apenas quanto carbono o solo captura, mas também sua capacidade de reter água, preservar biodiversidade, sustentar a produtividade e reduzir riscos para as cadeias de suprimentos.

Para Stefan Goenner, cofundador e CEO da Seqana, o carbono continuará sendo central, mas precisa ser acompanhado por outras métricas.

 

Leia Mais:

 

“O carbono é fundamental para o que fazemos e continuará sendo. Foi assim que o mercado aprendeu inicialmente a atribuir valor ao solo e é a disciplina sobre a qual nossa medição se baseia. O que esta rodada acrescenta é a capacidade de gerenciar os demais benefícios que um solo saudável proporciona: estabilidade de produtividade, qualidade do produto e, em última análise, a continuidade da cadeia de suprimentos”, afirmou.

Segundo ele, a combinação dessas informações oferece uma visão mais completa dos riscos e oportunidades associados aos sistemas agrícolas.

A saúde do solo se transforma em risco financeiro

A discussão sobre saúde do solo também está migrando para o universo financeiro. Eventos climáticos extremos têm mostrado que solos mais resilientes podem representar uma vantagem competitiva para produtores e empresas da cadeia agroalimentar.

Durante as secas que atingiram a Europa em 2023, por exemplo, propriedades francesas com práticas regenerativas avançadas registraram perdas médias de produtividade de 8%, enquanto fazendas menos regenerativas tiveram quedas próximas a 22%.

A diferença ajudou a reforçar uma percepção crescente no mercado: medir a saúde do solo não é apenas uma questão de sustentabilidade, mas de gestão de risco.

Essa mudança de mentalidade vem impulsionando o desenvolvimento de tecnologias de MRV — sigla para Monitoramento, Relato e Verificação — capazes de transformar características biológicas e agronômicas em indicadores confiáveis e auditáveis.

IA e satélites entram na nova geração de MRV

Fundada em Berlim em 2020, a Seqana desenvolveu uma plataforma que combina imagens de satélite, dados coletados em campo e modelos proprietários de aprendizado de máquina para estimar a saúde do solo em larga escala.

A empresa utiliza essas informações para criar mapas digitais e indicadores que auxiliam empresas, agricultores e desenvolvedores de projetos a monitorar práticas regenerativas e avaliar estoques de carbono.

Mais do que fornecer dados, a startup vem ajudando a definir como esses dados serão utilizados pelo mercado.

A Seqana participou da elaboração da metodologia VM0042 v3 da Verra, uma das principais referências do mercado voluntário de carbono, além das Diretrizes do Modelo SOC (Soil Organic Carbon) do Gold Standard.

Entre seus clientes estão empresas como Danone, Bayer, Klim e eAgronom, e suas ferramentas já foram aplicadas em milhões de hectares.

O próximo capítulo da agricultura regenerativa

O novo financiamento permitirá à Seqana ampliar sua capacidade de medição para incluir outros indicadores relacionados à saúde do solo e aos estoques de carbono.

A rodada também combina capital de risco e dívida, incluindo um empréstimo para startups do Landwirtschaftliche Rentenbank, além de complementar financiamentos anteriores recebidos da Agência Espacial Europeia.

Mais do que fortalecer uma empresa, o investimento reflete uma mudança maior.

O mercado de carbono ajudou a tornar o solo visível ao atribuir valor ao carbono armazenado sob a terra.

Agora, a próxima fronteira parece ser entender que o verdadeiro valor do solo pode ir muito além disso.

Produtividade, biodiversidade, estabilidade climática e segurança das cadeias de suprimentos começam a entrar na equação.

E quem conseguir medir esses fatores de forma confiável poderá ajudar a definir os rumos da agricultura regenerativa nas próximas décadas.

Saiba mais sobre o assunto:

O que é saúde do solo?
A saúde do solo é a capacidade que ele possui de sustentar plantas, armazenar carbono, reter água, preservar biodiversidade e manter a produtividade agrícola ao longo do tempo.

O que é MRV no mercado de carbono?
MRV significa Monitoramento, Relato e Verificação. Trata-se de um conjunto de metodologias utilizadas para medir e validar resultados em projetos de carbono e agricultura regenerativa.

Por que medir apenas carbono não é suficiente?
Embora o carbono seja um indicador importante, ele não reflete sozinho aspectos como biodiversidade, estabilidade produtiva, retenção de água e resiliência climática dos sistemas agrícolas.

O que faz a Seqana?
A Seqana é uma empresa alemã que utiliza imagens de satélite, dados de campo e inteligência artificial para medir carbono e indicadores de saúde do solo em projetos agrícolas e mercados de carbono.

Por que a saúde do solo é importante para a economia?
Segundo a Comissão Europeia, a degradação dos solos custa cerca de € 50 bilhões por ano à União Europeia, afetando produtividade, segurança alimentar e resiliência das cadeias de suprimentos.

RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Mais lidas

Últimos comentários