Sistema opera fluxo de 55 etapas sem remodelar a loja; startup captou US$ 668 milhões para acelerar a comercialização
Um robô capaz de executar autonomamente as 55 etapas necessárias para preparar e entregar um Blizzard está operando em uma loja da Dairy Queen em Xangai, utilizando o mesmo espaço, equipamentos e ferramentas projetados originalmente para funcionários humanos. O projeto coloca a tecnologia da startup Sharpa em um ambiente comercial real, sem necessidade de remodelar a operação para receber o sistema.
A implantação ocorre enquanto a empresa avança da validação técnica para a comercialização de seus robôs. A Sharpa captou mais de 4,5 bilhões de yuans, cerca de US$ 668 milhões, em uma rodada que avaliou a startup em aproximadamente US$ 3,3 bilhões. Os recursos serão utilizados para ampliar pesquisa e desenvolvimento, contratar profissionais e acelerar a implantação comercial da tecnologia.
Entre os investidores estão Alibaba Group, Meituan, Tencent e JD.com, além de fundos como HSG, Qiming Venture Partners, DragonBall Capital e Luminous Ventures.
Na Dairy Queen, o teste coloca em prática uma das premissas centrais da Sharpa: desenvolver robôs de uso geral capazes de trabalhar em ambientes construídos para pessoas, em vez de exigir que instalações, equipamentos e processos sejam redesenhados para a automação.
Robô utiliza a mesma estrutura dos funcionários
A operação está sendo realizada em uma unidade da Dairy Queen na Rua Wujiang, em Xangai, administrada pelo Grupo CFB. Sharpa e DQ apresentam o projeto como um passo em direção à operação autônoma de restaurantes durante períodos prolongados, utilizando robôs em estruturas comerciais existentes.
O sistema gerencia todo o processo de produção de um Blizzard Treat, desde o recebimento do pedido até o preparo e a entrega ao cliente. Segundo a Sharpa, o robô foi projetado para operar durante o horário comercial da loja, das 10h às 22h, sem necessidade de supervisão humana constante.
Um dos diferenciais apresentados pela empresa é o conceito denominado “remodelação zero”.
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Na unidade de Xangai, equipamentos, ingredientes, procedimentos e padrões operacionais da Dairy Queen foram mantidos. O robô utiliza utensílios desenvolvidos para trabalhadores humanos e atua dentro do layout e do fluxo de produção que já existiam na loja.
A estratégia busca reduzir uma das barreiras para a adoção comercial da robótica: a necessidade de construir espaços ou equipamentos específicos para a automação.
Se um sistema consegue utilizar máquinas, utensílios e instalações já presentes em restaurantes, sua implantação pode, em princípio, ser replicada com menos alterações físicas na operação.
Fluxo de produção envolve 55 etapas interdependentes
Adaptar-se ao espaço existente, porém, é apenas uma parte do desafio.
A preparação e entrega do Blizzard envolve 55 etapas interdependentes, nas quais uma falha pode interferir nas ações seguintes. Para executar o processo, o sistema da Sharpa combina planejamento de tarefas, execução, avaliação do estado da operação e mecanismos de correção de erros.
Em vez de treinar o fluxo inteiro como uma única sequência, a empresa divide o processo em subtarefas menores.
Depois de concluir uma etapa, o sistema verifica o estado resultante. Se identificar uma diferença em relação ao que era esperado, o robô pode repetir a ação ou iniciar um procedimento de recuperação antes de avançar.
Na prática, a operação cria um ciclo de planejamento, execução, verificação e correção.
Essa capacidade é especialmente relevante em tarefas longas. Pequenos erros que seriam pouco relevantes em uma ação isolada podem se acumular ao longo de dezenas de etapas e impedir que o produto final seja concluído corretamente.
Sensoriamento tátil participa de 98% das tarefas
Para lidar com objetos e equipamentos desenvolvidos para pessoas, a Sharpa também utiliza sensoriamento tátil.
O sistema instalado na Dairy Queen combina modelos de inteligência artificial, sensores e hardware de manipulação. Segundo a empresa, informações táteis são utilizadas em 98% das 55 etapas do processo de produção.
As situações enfrentadas pelo robô ajudam a mostrar a complexidade desse tipo de automação.
Retirar um copo de papel exige que o sistema responda a variações de atrito e resistência. Durante a mistura do produto em alta velocidade, é necessário ajustar a força da pegada conforme vibrações e forças se modificam.
Até mesmo a apresentação característica do Blizzard, em que o copo é virado de cabeça para baixo, exige que o robô adapte seus movimentos às mudanças de orientação e de centro de gravidade.
A mão robótica Sharpa Wave utiliza múltiplos dedos e foi desenvolvida com dimensões e graus de liberdade inspirados na mão humana. A proposta é permitir a manipulação de objetos como copos, colheres e portas de armários sem ferramentas especialmente criadas para o robô.
IA combina visão, tato e informações do próprio robô
A tecnologia também utiliza um modelo multimodal para interpretar o ambiente e decidir como prosseguir.
O sistema combina visão, linguagem, informações táteis, feedback de força e dados internos sobre a posição e o movimento das articulações do robô. Essas informações são analisadas junto com observações e ações anteriores para prever o resultado provável de uma ação e definir o próximo passo.
A Sharpa desenvolveu ainda o CraftNet, modelo hierárquico que incorpora dados táteis e trabalha em conjunto com a mão robótica para ajustar a posição dos dedos e a força aplicada durante a manipulação.
O objetivo não é apenas fazer com que o robô consiga completar uma tarefa uma vez, mas verificar se consegue repetir processos complexos durante períodos prolongados e diante das variações naturais de uma operação comercial.
Confiabilidade é o próximo teste da automação
Segundo a Sharpa, três desafios precisam ser superados para ampliar o uso comercial da tecnologia: reduzir a dependência de ambientes especialmente projetados, executar tarefas complexas de forma autônoma e manter confiabilidade durante longos períodos de operação.
Durante o funcionamento de um restaurante, o sistema precisa lidar com variações no volume de pedidos, movimento de clientes e alterações no ambiente. A operação prolongada na Dairy Queen busca avaliar se a tecnologia consegue produzir valor econômico de maneira consistente, e não apenas demonstrar uma capacidade técnica em condições controladas.
Li Yifan, cofundador da Sharpa, afirma que a comercialização de robôs depende justamente da capacidade de executar trabalhos complexos por períodos prolongados e diante de situações variáveis sem exigir que o ambiente seja redesenhado para recebê-los. A empresa escolheu o restaurante como um dos primeiros testes dessa proposta antes de tentar transferir as capacidades para outros setores.
US$ 668 milhões para sair da validação e chegar ao mercado
Fundada em 2024, a Sharpa trabalha com manipulação dextra e sistemas de inteligência incorporada que integram software, modelos, sensores e hardware robótico. Atualmente, atende fabricantes de robôs, instituições de pesquisa e clientes do setor de alimentação.
A empresa vê o foodservice como um dos mercados iniciais para suas tecnologias antes de avançar para outras aplicações comerciais e, posteriormente, domésticas. Sua ambição é reutilizar capacidades de manipulação, dados e modelos aprendidos em diferentes ambientes.
É nesse contexto que a rodada de aproximadamente US$ 668 milhões ganha importância.
O capital não financia apenas o desenvolvimento de novos componentes. Segundo a própria Sharpa, uma das prioridades é mover seus robôs da validação técnica para a implantação comercial.
A operação na Dairy Queen funciona como um teste dessa passagem. Em vez de demonstrar um braço robótico realizando uma única atividade em ambiente controlado, a empresa colocou o sistema diante de um fluxo composto por dezenas de ações, equipamentos convencionais e condições de funcionamento de uma loja real.
Ainda será necessário demonstrar até que ponto esse desempenho pode ser repetido de maneira confiável em outras unidades, produtos e operações. A própria Sharpa reconhece que transferir essas capacidades para além de fluxos específicos permanece uma questão central para a robótica de uso geral.
Por enquanto, o projeto da Dairy Queen coloca à prova uma abordagem particularmente relevante para a automação do foodservice: em vez de redesenhar a cozinha para o robô, desenvolver um robô capaz de entender, manipular e trabalhar dentro de uma cozinha feita para pessoas.
Saiba mais sobre o assunto:
O que o robô da Sharpa faz na Dairy Queen?
O sistema executa autonomamente um fluxo de 55 etapas para preparar e entregar um Blizzard Treat, desde o recebimento do pedido até a entrega ao consumidor.
A Dairy Queen precisou adaptar a loja para receber o robô?
Segundo a Sharpa, não. Equipamentos, ingredientes, procedimentos e layout foram mantidos, e o robô utiliza ferramentas originalmente desenvolvidas para funcionários humanos.
Que tecnologias o robô utiliza?
O sistema combina inteligência artificial, visão, informações táteis, sensores de força e dados sobre o próprio estado do robô. A Sharpa afirma que o sensoriamento tátil participa de 98% das 55 etapas.
Quanto a Sharpa captou para ampliar sua tecnologia?
A startup levantou mais de 4,5 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 668 milhões, em uma rodada destinada também a acelerar a passagem da validação técnica para a implantação comercial.




