Avaliações da Vilma Alimentos em parceria com a Embrapa identificaram aplicações viáveis em seis de 11 produtos; diferenças na força do glúten limitam a substituição na panificação.
A farinha de triticale, cereal obtido do cruzamento entre trigo e centeio, demonstrou potencial para substituir parcial ou integralmente a farinha de trigo em seis dos 11 produtos alimentícios avaliados em testes industriais realizados pela Vilma Alimentos, em Minas Gerais, em parceria com a Embrapa Trigo. Os resultados, divulgados em outubro de 2026, mostram desempenho especialmente favorável na fabricação de biscoitos, com substituição total em dois tipos, enquanto aplicações que exigem maior desenvolvimento da massa continuam apresentando limitações tecnológicas.
As avaliações fazem parte de um trabalho de pesquisa que conecta a adaptação do triticale às condições de cultivo do Cerrado ao desenvolvimento de novas aplicações para a indústria de alimentos. O objetivo é identificar em quais produtos a farinha pode ser utilizada sem comprometer características importantes para o processamento e a qualidade final.
Biscoitos apresentam os resultados mais favoráveis
Dos 11 produtos avaliados, seis apresentaram resultados considerados viáveis pela empresa. Em dois tipos de biscoitos, os ensaios indicaram a possibilidade de substituir integralmente a farinha de trigo pela de triticale.
Nos biscoitos moldados, a proporção de triticale chegou a 100% da farinha utilizada, mantendo boa expansão durante o processamento e características semelhantes às do produto elaborado exclusivamente com trigo. Segundo informações divulgadas pela AgroRevenda, a substituição integral também apresentou desempenho adequado em biscoitos de cortar com arame ou depositados.
Outro resultado foi obtido com os biscoitos laminados doces, conhecidos comercialmente como biscoitos de maisena. Nesse caso, a substituição pôde chegar a 30%, preservando atributos de textura, cor e sabor característicos do produto.
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Os testes também identificaram possibilidades de substituição parcial em wafers, bolos e pizzas. Os resultados indicam que a utilização do triticale depende das características de cada formulação, não sendo possível aplicar um único percentual de substituição a todas essas categorias.
Segundo a pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, a capacidade da farinha de conferir crocância e firmeza aos biscoitos é uma das características que favorecem sua aplicação. A pesquisadora também aponta a possibilidade de eliminar aditivos utilizados para obter esses atributos. Essa indicação, entretanto, não equivale à demonstração de uma redução efetiva de aditivos em produtos comercializados.
Menor força do glúten restringe aplicações em pães
As diferenças entre a farinha de triticale e a farinha de trigo ajudam a explicar por que os resultados variam conforme o alimento.
As avaliações iniciais identificaram uma farinha mais escura e com menor força de glúten. Essa força está relacionada à capacidade da massa de resistir ao processamento, reter os gases produzidos durante a fermentação e desenvolver a estrutura necessária ao crescimento de determinados produtos.
Na fabricação de biscoitos, em que crocância, firmeza e características específicas de textura podem ser prioritárias, essas propriedades podem ser aproveitadas. Já em pães que dependem de uma estrutura de massa mais desenvolvida, a substituição apresenta restrições.
Para panificação, a Embrapa informou que a mistura indicada nos ensaios foi de 50% de farinha de trigo e 50% de triticale, limitada à fabricação de pães de baixo crescimento. O resultado não significa que a mesma proporção seja adequada para pães de maior volume ou que a farinha convencional possa ser integralmente substituída na panificação.
A diferença entre as aplicações reforça que a viabilidade industrial do ingrediente precisa ser determinada produto a produto, levando em consideração o desempenho da massa e os atributos desejados no alimento final.
Pesquisa conecta desenvolvimento de ingredientes e produção no Cerrado
Os testes industriais ocorreram em paralelo a pesquisas de adaptação do triticale a novas regiões produtoras.
Em 2024, uma carga de 20 toneladas de grãos da cultivar BRS Saturno, desenvolvida pela Embrapa, foi enviada do Rio Grande do Sul para avaliações no Cerrado mineiro. Os primeiros resultados já indicavam possibilidades de utilização da farinha em biscoitos, massas para pizzas e misturas para bolos.
As análises de qualidade industrial realizadas em 2026 permitiram delimitar melhor essas aplicações.
Na frente agrícola, experimentos conduzidos em Carandaí, na Zona da Mata mineira, registraram produtividade superior a seis toneladas por hectare em lavouras experimentais, segundo os destaques divulgados pela Embrapa. Esses resultados representam desempenho em condições de pesquisa, não uma produtividade garantida para o cultivo comercial.
A relação entre as duas frentes é importante para o desenvolvimento de matérias-primas alimentícias: além de identificar uma cultura capaz de produzir grãos em determinadas condições agrícolas, é necessário verificar se sua farinha atende às exigências dos processos industriais.
Viabilidade técnica ainda não significa adoção comercial
Os resultados divulgados representam uma etapa de avaliação industrial da farinha de triticale. Eles demonstram possibilidades de aplicação em formulações específicas, mas não estabelecem, por si só, que os produtos testados estejam sendo fabricados e comercializados regularmente.
Também não foram apresentados dados suficientes para concluir que a substituição do trigo resulte em redução de custos, ganhos de produtividade industrial ou vantagens nutricionais e ambientais mensuráveis.
Para fabricantes de alimentos, o principal resultado é a identificação de usos tecnicamente promissores para uma matéria-prima alternativa, especialmente em biscoitos. O avanço amplia a base de conhecimento disponível para o desenvolvimento de formulações, enquanto sua eventual incorporação a linhas comerciais dependerá de avaliações adicionais de produção, qualidade e viabilidade econômica.




