terça-feira, 25/08/2026
spot_imgspot_img
InícioPesquisaEstudo associa consumo habitual de café a menor gordura visceral e maior...

Estudo associa consumo habitual de café a menor gordura visceral e maior massa muscular

Pesquisa com 2.264 adultos também identificou diferenças metabólicas e hormonais, mas não estabelece relação de causa e efeito

 

 

O consumo habitual de café foi associado a diferenças na composição corporal, no metabolismo e em indicadores hormonais em um estudo realizado com 2.264 adultos na Finlândia. Entre os participantes que consumiam maiores quantidades da bebida, os pesquisadores observaram menor gordura corporal e visceral, maior massa muscular esquelética e níveis mais baixos de alguns biomarcadores relacionados à resistência à insulina.

Publicado no European Journal of Nutrition, o trabalho analisou participantes de 46 anos integrantes da Northern Finland Birth Cohort 1966. O objetivo foi investigar como o consumo regular de café se relacionava com metabólitos circulantes, marcadores de risco cardiometabólico e hormônios sexuais.

Um dos resultados que mais chama atenção apareceu quando os pesquisadores compararam indivíduos com índice de massa corporal (IMC) semelhante. Mesmo dentro dessa condição, participantes com maior consumo de café apresentaram menor quantidade de gordura total e visceral e maior massa muscular esquelética do que aqueles que consumiam a bebida com menor frequência.

Os autores, porém, destacam que o estudo é observacional. Portanto, os resultados mostram associações estatísticas, mas não permitem concluir que o café seja responsável diretamente pelas diferenças encontradas.

Café foi associado a diferenças além do peso corporal

A pesquisa buscou analisar o metabolismo de maneira mais ampla do que indicadores tradicionais como peso e IMC.

Entre homens e mulheres, maior consumo de café foi associado a concentrações mais baixas de aminoácidos de cadeia ramificada circulantes, conhecidos como BCAAs. Níveis persistentemente elevados desses compostos já foram relacionados em estudos anteriores à resistência à insulina e a maior risco de diabetes tipo 2.

A análise da composição corporal acrescentou outra camada aos resultados.

Participantes com IMC semelhante apresentaram diferenças na distribuição da gordura e na quantidade de massa muscular dependendo do nível de consumo de café. O grupo que consumia mais café apresentou, em média, menos gordura corporal total, menor adiposidade visceral e maior massa muscular esquelética.

 

Leia Mais:

 

Esses achados sugerem que observar apenas o peso ou o IMC pode não capturar todas as diferenças metabólicas associadas aos padrões de consumo da bebida.

“O café é consumido por milhões de pessoas todos os dias; no entanto, ainda sabemos surpreendentemente pouco sobre como ele se relaciona com nosso metabolismo e nossos hormônios”, afirma Luca Verroest, autor principal do estudo e pesquisador de doutorado na Universidade de Oulu.

Homens apresentaram associações hormonais mais marcantes

O estudo também encontrou diferenças relacionadas aos hormônios sexuais, com associações mais evidentes entre os participantes do sexo masculino.

Entre os homens, maior consumo de café esteve correlacionado a um perfil glicose-insulina mais favorável e a concentrações mais elevadas de testosterona total e biodisponível.

Também foram observados níveis maiores de globulina ligadora de hormônios sexuais, conhecida pela sigla SHBG. Essa proteína atua no transporte de hormônios sexuais no sangue e influencia a quantidade disponível para os tecidos.

Ao mesmo tempo, o índice de andrógenos livres, indicador utilizado para estimar a proporção de testosterona que circula sem estar ligada a proteínas, apresentou valores moderadamente menores entre os homens que consumiam maiores quantidades de café.

Nas mulheres, as associações hormonais foram menos pronunciadas. O grupo com maior consumo apresentou, de maneira geral, níveis mais elevados de SHBG e menores medidas relacionadas aos andrógenos livres.

“O que mais chamou a atenção em nossas descobertas foi uma assinatura hormonal distinta que persistiu mesmo após levarmos em conta o IMC e fatores relacionados ao estilo de vida, sendo que várias dessas associações diferiram entre homens e mulheres”, afirma Verroest.

Pesquisa ainda não identifica quais componentes podem estar envolvidos

Embora os resultados indiquem associações entre café e diferentes indicadores metabólicos, o trabalho não determina quais mecanismos biológicos poderiam explicar essas relações.

Também não é possível, a partir dos dados analisados, estabelecer se algum componente específico do café é responsável pelas diferenças observadas. Essa é uma das questões que os pesquisadores pretendem investigar nas próximas etapas.

A equipe trabalha agora com modelos animais para avaliar se o café ou determinados compostos presentes na bebida podem provocar diretamente algumas das alterações metabólicas identificadas no estudo observacional. A intenção é que os resultados possam posteriormente orientar estudos de intervenção em humanos.

Essa etapa será necessária para separar uma associação populacional de uma eventual relação biológica de causa e efeito.

Os próprios autores ressaltam que ainda são necessários estudos clínicos antes que os resultados possam sustentar recomendações alimentares relacionadas ao consumo de café.

Café amplia espaço na pesquisa sobre metabolismo e nutrição

O estudo se soma a uma linha crescente de pesquisas dedicadas a compreender como o café e seus componentes interagem com diferentes processos do organismo.

Neste caso, o diferencial está na combinação entre metabolismo, composição corporal e hormônios sexuais, em vez de analisar apenas um desfecho isolado.

A escolha da população finlandesa também oferece um cenário particular para esse tipo de investigação. A Finlândia está entre os mercados de maior consumo de café do mundo e, segundo os pesquisadores, o consumo médio anual chega a cerca de 11,8 quilos por pessoa.

Para mercados ligados à produção e industrialização da bebida, como o brasileiro, esse tipo de pesquisa também amplia o interesse científico sobre o café para além de atributos tradicionais como origem, processamento, qualidade sensorial e teor de cafeína.

Os resultados ainda não permitem afirmar que aumentar o consumo de café leve a menor gordura visceral, maior massa muscular ou alterações hormonais. O que o estudo mostra é que diferentes padrões de consumo da bebida estão associados a perfis distintos de composição corporal e metabolismo.

Identificar se essas relações são provocadas pelo próprio café e quais de seus compostos poderiam estar envolvidos será o próximo passo para determinar se os achados observacionais podem se transformar em evidências com aplicação nutricional mais direta.

 

Saiba mais sobre o assunto:

 

O consumo de café reduz a gordura visceral?
O estudo encontrou uma associação entre maior consumo habitual de café e menor gordura visceral, mas não demonstrou que o café seja a causa direta dessa diferença.

Café pode aumentar a massa muscular?
Os participantes que consumiam mais café apresentaram maior massa muscular esquelética em média, mas o estudo é observacional e não permite concluir que o café provoque esse efeito.

Qual foi a relação entre café e metabolismo?
Maior consumo de café foi associado a níveis mais baixos de aminoácidos de cadeia ramificada e, entre os homens, a um perfil glicose-insulina mais favorável.

O café alterou os níveis de testosterona?
Entre os homens, maior consumo de café esteve associado a níveis mais elevados de testosterona total e biodisponível. A pesquisa, porém, não estabelece uma relação direta de causa e efeito.

RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

spot_img

Mais lidas