Empresa relata três campanhas em fermentadores de 100 mil litros e anuncia contrato de fornecimento para ingrediente proteico
A BMC Ingredients, anteriormente conhecida como Better Meat Co., anunciou a realização de três campanhas de fermentação em sistemas de 100 mil litros e a obtenção de seu primeiro contrato comercial de fornecimento para o Rhiza Pro, ingrediente proteico produzido a partir de micélio de fungos. A empresa norte-americana pretende iniciar a produção comercial na Índia no segundo trimestre de 2027, por meio de um parceiro industrial.
Os avanços foram apresentados pelo cofundador e CEO Paul Shapiro em reportagem publicada pelo AgFunderNews em 5 de novembro de 2026. Segundo o executivo, as campanhas ocorreram após a transferência da tecnologia para instalações industriais. O contrato foi descrito como um acordo de valor de sete dígitos, sem divulgação do montante exato ou dos volumes de fornecimento.
O anúncio reúne duas etapas importantes para a expansão industrial de ingredientes obtidos por fermentação: a ampliação do processo produtivo para equipamentos de maior capacidade e o estabelecimento de compromissos comerciais. Para a BMC, esses movimentos fazem parte da estratégia de levar a proteína de micélio do desenvolvimento tecnológico ao fornecimento regular para fabricantes de alimentos.
Como funciona a produção de proteína de micélio
A tecnologia da BMC utiliza o fungo filamentoso Neurospora crassa, linhagem BSTR26, para produzir biomassa rica em proteínas e fibras alimentares. O micélio é formado por filamentos que constituem a estrutura vegetativa de determinados fungos e que, quando cultivados em condições controladas, podem gerar uma biomassa aproveitável como ingrediente alimentar.
A produção ocorre por fermentação submersa. O microrganismo cresce em um meio nutritivo dentro de biorreatores, sob controle das condições de cultivo. Ao final do processo, a biomassa é separada do meio por filtração e submetida a etapas de fragmentação, tratamento térmico e desidratação, até a obtenção do ingrediente final.
O processo está descrito na documentação técnica examinada pela agência reguladora canadense Health Canada. O ingrediente avaliado, denominado Rhiza Mycoprotein, é uma biomassa desidratada e não viável, produzida com uma linhagem não geneticamente modificada de N. crassa.
Segundo a avaliação canadense, sua composição aproximada inclui 45% de proteínas e 30% de fibras alimentares. Esses valores correspondem ao ingrediente submetido à avaliação regulatória e não devem ser automaticamente estendidos a todas as formulações comerciais da empresa.
A BMC desenvolveu duas linhas de ingredientes. O Rhiza Tex é direcionado principalmente à incorporação em produtos cárneos e alternativas vegetais à carne. Já o Rhiza Pro, apresentado em pó, é destinado a aplicações como bebidas proteicas, barras nutricionais e produtos de panificação. Para essa segunda linha, a empresa declara um teor de 51% de proteína.
Com o Rhiza Pro, a BMC busca ampliar as aplicações de sua tecnologia para diferentes categorias de alimentos, além dos produtos formulados para substituir ou combinar proteínas de origem animal.
O significado industrial dos fermentadores de 100 mil litros
A realização das três campanhas em sistemas de 100 mil litros representa o principal avanço de escala anunciado pela BMC. Segundo Shapiro, a transferência do processo para instalações industriais exigiu adaptações técnicas para acomodar o microrganismo e suas condições específicas de cultivo.
A ampliação da fermentação é uma etapa importante na produção industrial de ingredientes derivados de microrganismos. Um processo desenvolvido em laboratório ou em equipamentos piloto precisa manter condições adequadas de crescimento quando transferido para biorreatores de maior capacidade.
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Esse aumento de escala envolve o controle da disponibilidade de oxigênio, da mistura do meio de cultivo, da temperatura e do comportamento da biomassa durante a fermentação. No caso de fungos filamentosos, as características físicas do micélio também influenciam o funcionamento do processo.
Por isso, a execução de campanhas em equipamentos de 100 mil litros, caso acompanhada de resultados consistentes, representa um passo relevante na avaliação da possibilidade de fabricar o ingrediente em volumes industriais. Ela permite testar o processo em condições mais próximas daquelas exigidas para o abastecimento comercial.
A capacidade nominal dos fermentadores, entretanto, não corresponde necessariamente ao volume efetivamente processado ou à quantidade de ingrediente produzido.
A BMC não divulgou dados operacionais suficientes para avaliar o rendimento, a produtividade e a repetibilidade das três campanhas. Também não foram localizados relatórios independentes de validação dessas operações. Assim, os resultados anunciados indicam um avanço na ampliação do processo, mas ainda não permitem estabelecer sua capacidade de produção comercial regular.
Primeiro contrato comercial envolve o Rhiza Pro
Além das campanhas industriais, a BMC anunciou seu primeiro contrato de fornecimento de sete dígitos, relacionado ao Rhiza Pro. O acordo foi apresentado por Shapiro como parte da expansão comercial da empresa para o mercado de ingredientes proteicos em pó.
A empresa não identificou o comprador nem divulgou a moeda, o valor exato, os volumes contratados ou o cronograma de entregas. A documentação pública examinada também não permite estabelecer se já ocorreram entregas comerciais relacionadas ao contrato.
Segundo Shapiro, o Rhiza Pro tem despertado interesse de fabricantes que procuram alternativas à proteína do soro do leite, conhecida como whey protein. O executivo atribui ao ingrediente características de solubilidade e sabor adequadas a determinadas formulações.
Essas declarações ajudam a compreender o posicionamento comercial pretendido pela BMC, mas não demonstram equivalência tecnológica ou competitividade econômica em relação às proteínas já utilizadas pela indústria.
O contrato anunciado acrescenta uma dimensão comercial à ampliação industrial da empresa. Para fabricantes de ingredientes obtidos por fermentação, a passagem à produção regular depende não apenas da capacidade de cultivar o microrganismo em maior escala, mas também de transformar a biomassa em um produto que atenda, de forma consistente, às especificações e às necessidades de abastecimento dos clientes.
Produção na Índia está prevista para 2027
A estratégia industrial da BMC envolve a utilização de instalações de um parceiro na Índia, em vez da construção de uma estrutura produtiva integralmente própria.
Esse modelo permite recorrer à infraestrutura industrial de terceiros para ampliar a fabricação, embora sua implementação dependa da transferência da tecnologia e da adequação das condições operacionais ao processo utilizado pela empresa.
Segundo a BMC, a produção comercial deverá começar no segundo trimestre de 2027. O cronograma está associado à intenção de disponibilizar o ingrediente para fabricantes de alimentos a partir da operação indiana.
A identidade do parceiro industrial e as condições específicas do projeto não foram estabelecidas na documentação pública consultada. Também não foram divulgadas informações suficientes sobre a capacidade efetiva de produção prevista.
A empresa anunciou ainda, em outubro de 2026, ter recebido uma carta de aprovação da Food Safety and Standards Authority of India (FSSAI) para o ingrediente Rhiza. A informação foi reproduzida por veículos especializados, mas a íntegra da carta individual não foi examinada nesta apuração.
A etapa regulatória anunciada constitui parte da preparação para a comercialização do ingrediente no país, sem significar que a operação industrial já tenha começado.
Ingrediente passou por avaliações regulatórias nos Estados Unidos e no Canadá
Nos Estados Unidos, a biomassa micelial produzida a partir de Neurospora crassa BSTR26 foi objeto da notificação GRAS nº 1117, apresentada pela Better Meat Co. à Food and Drug Administration (FDA).
O procedimento foi encerrado em julho de 2024, quando a agência informou não ter questionamentos sobre a conclusão da empresa de que o ingrediente é geralmente reconhecido como seguro nas condições de uso especificadas.
A manifestação da FDA não constitui uma autorização irrestrita para todas as aplicações alimentícias. A avaliação contempla determinadas categorias de produtos e concentrações máximas de utilização.
No Canadá, a Health Canada concluiu, em julho de 2026, sua avaliação do Rhiza Mycoprotein sem apresentar objeções ao uso alimentar proposto. A análise examinou aspectos relacionados à identidade do microrganismo, ao processo de fabricação, à composição e à segurança do ingrediente.
As avaliações fornecem documentação técnica sobre as características e condições de uso do Rhiza nos mercados examinados, mas não substituem as exigências regulatórias aplicáveis em outros países ou a outras formulações e aplicações.
Próxima etapa será iniciar a fabricação comercial na Índia
As campanhas de fermentação anunciadas, o primeiro contrato para Rhiza Pro e o projeto industrial na Índia colocam a BMC diante de uma nova etapa de desenvolvimento: converter os avanços técnicos relatados em fabricação e fornecimento comercial de proteína de micélio.
A estratégia combina a ampliação do processo de fermentação com o uso de infraestrutura industrial de terceiros e a busca por clientes em diferentes categorias de alimentos.
O próximo marco anunciado pela empresa será o início da produção comercial na Índia, previsto para o segundo trimestre de 2027. A entrada em operação permitirá avaliar a capacidade da empresa de transformar os resultados anunciados em fornecimento regular para fabricantes de alimentos.




