Syngenta e Amoéba fecham acordo para tecnologia voltada à septoriose e ferrugem-amarela, com lançamentos previstos a partir de 2028
Um biofungicida desenvolvido a partir do lisado de uma ameba avança para uma nova etapa de comercialização na Europa. A Syngenta Crop Protection e a francesa Amoéba firmaram um acordo de longo prazo para desenvolver e distribuir a formulação AXP20 no mercado de cereais, inicialmente com foco no controle da septoriose do trigo e da ferrugem-amarela.
A tecnologia utiliza o lisado da ameba unicelular Willaertia magna C2c Maky como substância biológica ativa. Pelo acordo, a Syngenta terá direitos exclusivos de distribuição para todos os cereais, com exceção do milho, nos 27 países da União Europeia, Reino Unido, Ucrânia e Suíça.
A parceria transforma em acordo comercial vinculante o memorando de entendimento firmado pelas empresas em novembro de 2025 e estabelece uma rota para levar o produto ao mercado. As primeiras aprovações são esperadas para o terceiro trimestre de 2028, com vendas iniciais previstas para o fim daquele ano e utilização por agricultores a partir da primavera europeia de 2029.
Antes disso, Syngenta e Amoéba ampliam a etapa de validação. Somente em 2026, as companhias afirmam estar conduzindo mais de 70 testes de campo com a tecnologia.
Biofungicida atua sobre a germinação dos fungos
A origem do AXP20 diferencia a tecnologia de produtos convencionais utilizados para proteção das culturas. Em vez de uma molécula química sintética, o princípio é obtido a partir do lisado de Willaertia magna C2c Maky, uma ameba unicelular.
Segundo as empresas, o biofungicida atua principalmente impedindo a germinação de esporos dos fungos e também pode estimular mecanismos naturais de defesa das plantas. Ensaios realizados até agora indicaram atividade contra a septoriose e a ferrugem-amarela, embora a validação em diferentes condições agrícolas continue antes da entrada comercial.
A tecnologia foi classificada pelo Fungicide Resistance Action Committee (FRAC) no grupo BM02, destinado a produtos biológicos com múltiplos modos de ação e considerados de baixo risco para desenvolvimento de resistência.
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Esse atributo é particularmente relevante porque a resistência dos patógenos a fungicidas existentes aparece entre os desafios enfrentados atualmente pelos produtores de cereais europeus, juntamente com restrições regulatórias que vêm reduzindo algumas opções convencionais de proteção de cultivos.
A chegada do AXP20, porém, não significa uma substituição geral dos fungicidas convencionais. A própria Syngenta enquadra as soluções biológicas dentro de estratégias integradas de manejo, nas quais diferentes ferramentas podem ser utilizadas conjuntamente para controlar doenças e reduzir a pressão de resistência.
Septoriose e ferrugem-amarela atingem milhões de hectares
O primeiro mercado definido para a tecnologia ajuda a explicar a dimensão comercial do acordo.
A septoriose do trigo, causada por Zymoseptoria tritici, e a ferrugem-amarela, provocada por Puccinia striiformis, estão entre as doenças fúngicas de maior impacto econômico sobre os cereais europeus.
Segundo os dados apresentados pelas empresas, as duas doenças atingem conjuntamente entre 9 milhões e 12 milhões de hectares por ano. Na Alemanha, a septoriose pode provocar perdas de produtividade entre 5% e 50%, enquanto a ferrugem-amarela pode reduzir a produção entre 10% e 70% e, em variedades suscetíveis e condições severas, levar à perda completa da cultura.
O foco inicial de comercialização será trigo, espelta e triticale, em cultivos de inverno e primavera. O acordo já prevê a possibilidade de expansão futura para outras culturas e geografias à medida que novos dados sobre o desempenho do biofungicida forem obtidos.
Princípio ativo já passou por avaliação regulatória
O projeto também chega ao acordo comercial em um estágio regulatório mais avançado do que muitas tecnologias de biocontrole ainda em desenvolvimento.
A substância ativa recebeu aprovação na União Europeia em 2025 após avaliação da European Food Safety Authority (EFSA). Em junho de 2026, a Amoéba obteve ainda autorização de comercialização na França para o AXPERA, biofungicida baseado na mesma tecnologia.
Isso não significa, entretanto, que o produto a ser distribuído pela Syngenta já esteja disponível comercialmente para cereais em todos os mercados abrangidos pelo acordo.
A formulação destinada a esse mercado permanece identificada pelo código de desenvolvimento AXP20, e a futura marca comercial ainda dependerá das aprovações regulatórias. As primeiras autorizações nos principais mercados da União Europeia estão previstas para o terceiro trimestre de 2028; Reino Unido e Suíça devem seguir aproximadamente em 2029.
Os mais de 70 testes realizados neste ano fazem parte justamente do trabalho necessário para gerar dados de desempenho e apoiar os processos regulatórios antes do lançamento.
Acordo leva tecnologia para estrutura comercial da Syngenta
Para a Amoéba, a parceria também representa a passagem de uma tecnologia desenvolvida por uma empresa de biossoluções para uma estrutura de distribuição agrícola de maior escala.
“Entre muitas outras soluções biológicas, a triagem da Syngenta selecionou o AXP20 como o biofungicida de melhor desempenho”, afirmou Jean-Marc Petat, diretor-geral da Green for Agro, subsidiária de biossoluções da Amoéba, ao anunciar o acordo. A avaliação representa a posição das empresas e está relacionada aos testes realizados dentro do programa de desenvolvimento.
A Syngenta, por sua vez, incorpora o produto ao portfólio de biológicos destinado à proteção de cereais.
Matthew Pickard, responsável pelas áreas de tratamento de sementes e biológicos da Syngenta na Europa, relaciona a parceria ao cenário de redução das alternativas convencionais e de crescimento da resistência. Para o executivo, a tecnologia acrescenta uma nova ferramenta ao portfólio de biocontrole destinado aos produtores europeus.
Biológicos ampliam o repertório para proteção de cultivos
O AXP20 chega a uma etapa de desenvolvimento em que o desafio deixa de ser apenas demonstrar atividade antifúngica e passa a incluir desempenho consistente no campo, aprovação regulatória e capacidade de comercialização em diferentes sistemas agrícolas.
Nesse sentido, a parceria Syngenta-Amoéba mostra uma rota diferente de outras tecnologias emergentes de proteção de cultivos. Enquanto algumas plataformas exploram silenciamento gênico, novos microrganismos ou processos físicos, o AXP20 utiliza um material derivado de ameba para interferir no desenvolvimento dos fungos.
O acordo não demonstra que tecnologias biológicas substituirão os fungicidas convencionais. Mostra, porém, que a redução de opções disponíveis e o desafio da resistência estão abrindo espaço para novas ferramentas de biocontrole dentro dos programas de manejo de doenças.
A próxima etapa será determinar se os resultados observados nos testes podem ser reproduzidos de forma consistente em diferentes regiões e condições produtivas.
Com mais de 70 ensaios de campo em andamento, aprovação europeia da substância ativa e uma rota comercial definida para 2028 e 2029, o biofungicida derivado de Willaertia magna deixa de ser apenas uma tecnologia em desenvolvimento e se aproxima de um teste maior: entrar no manejo cotidiano de doenças em milhões de hectares de cereais europeus.
Saiba mais sobre o assunto:
O que é o biofungicida AXP20?
O AXP20 é uma formulação biológica desenvolvida pela Amoéba a partir do lisado da ameba Willaertia magna C2c Maky. A tecnologia está sendo desenvolvida para o controle de doenças fúngicas em cereais.
Quais doenças o biofungicida pretende controlar?
O foco inicial está na septoriose do trigo e na ferrugem-amarela, duas doenças de importância econômica para a produção de cereais na Europa.
Quando o biofungicida deve chegar ao mercado?
As primeiras aprovações nos principais mercados europeus são esperadas para o terceiro trimestre de 2028, com vendas previstas a partir do final daquele ano.
O biofungicida substituirá os fungicidas químicos?
O acordo não indica substituição completa dos fungicidas convencionais. A tecnologia é apresentada como uma nova ferramenta de biocontrole que poderá integrar estratégias de manejo de doenças.




