**Sibelle de Andrade Silva
Missão Foodtech hub latam – Holanda · 13 a 18 de setembro de 2026
Entre 13 e 18 de setembro estive na Holanda com a delegação reunida pelo Foodtech Hub Latam. Nos reunimos com FoodX, NIZO, Wageningen University & Research, Foodvalley, Unilever Foods Innovation Centre ‘Hive’e agências públicas de desenvolvimento. Éramos empresas, universidade, instituto de pesquisa e governo.
O Brasil exportou US$ 169,2 bilhões em produtos do agronegócio em 2025, 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior, sustentado por uma safra recorde de 352,2 milhões de toneladas. A Holanda, com seus 41,5 mil km² de território e cerca de 1,8 milhão de hectares agrícolas, exportaram € 137,5 bilhões.

Nós no Brasil mobilizamos aproximadamente 277 milhões de hectares para chegar a patamar comparável. Por hectare, a distância é de duas ordens de grandeza, e ela não está no campo. Está no que acontece antes e depois dele.
Dito de outro modo: a diferença entre os dois modelos é, em larga medida, intangível. E intangível, no comércio internacional, tem nome jurídico: propriedade intelectual.
Os números da balança reforçam o ponto. Nossas importações agroalimentares equivalem a cerca de 12% do que exportamos; na Holanda, a 69%. Eles compram insumo, agregam conhecimento e revendem. Nós, majoritariamente, escoamos o que produzimos. São modelos distintos, que tem a aprender um com o outro. E, no caso brasileiro, é nítida a avenida de oportunidades em valor agregado ainda a ser explorada.

E as lições que mais me marcaram tem haver justamente com valor agregado e propriedade intelectual. Vi isso de forma quase literal em dois momentos da missão.
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O primeiro foi na Wageningen, num projeto de quatro anos que acompanhou toda a cadeia de leguminosas, do melhoramento ao processamento. A conclusão foi contraintuitiva: fatores pré-colheita (a variedade escolhida, o clima) determinam a extratibilidade da proteína e o resultado sensorial final, e há casos em que alta produtividade no campo corresponde a baixa proteína extraível. Ou seja, a decisão que define o valor capturado lá na ponta é tomada na genética, não na lavoura.
Não por acaso, a Holanda é o maior exportador mundial de sementes de hortaliças, de material de propagação ornamental e de batata-semente: cerca de 250 empresas que lançam mais de mil variedades novas por ano, num ambiente que o Banco Mundial já classificou como líder global em regulação de sementes, justamente pela disponibilidade de proteção de cultivares e pela agilidade no registro de novas variedades.
O produto holandês de maior valor por quilo não é a hortaliça. É a variedade protegida que a origina.
O segundo momento foi na Wageningen Food Safety Research, laboratório de referência nacional e europeu com quase 130 anos. Ali se verifica a origem de um café por cromatografia e marcadores genéticos, e se produz prova técnica usada em processos judiciais de fraude alimentar. Para quem trabalha com propriedade intelectual, a implicação é imediata: indicação geográfica sem ciência de autenticidade é declaração; com ciência de autenticidade, é direito exequível. O Brasil tem dezenas de IGs registradas e um portfólio de produtos tropicais com identidade única. Falta-nos, em boa medida, a infraestrutura analítica que torna essas marcas defensáveis em mercados que pagam prêmio por elas.

Há ainda a camada que para mim foi a descoberta da viagem: as nove agências regionais de desenvolvimento, as ROMs (Regionale Ontwikkelingsmaatschappijen), com acionistas públicos e mandato triplo (inovar, investir, internacionalizar) e a função concreta de fazer o soft landing de empresas estrangeiras na região cuja vocação técnica corresponde ao seu negócio. Uma empresa de ingredientes não aterrissa “na Holanda”: aterrissa em Gelderland, ao lado da Wageningen e do NIZO, com acompanhamento gratuito e confidencial da Oost NL, que integra também a rede federal Invest in Holland. É política industrial feita com endereço.
E no NIZO, a regra é dita com clareza: a PI gerada em projeto de cliente pertence ao cliente; em parcerias público-privadas, PI e compartilhamento de conhecimento são negociados antes. Na Wageningen Food Safety Research, por ser entidade financiada pelo governo, não há projeto bilateral com empresa isolada (apenas consórcios e PPPs), o que obriga a pactuar desde o início como se lida com pesquisa pré-competitiva quando concorrentes diretos sentam à mesma mesa.
É esse o ponto que trago de volta. Temos a Lei de Proteção de Cultivares desde 1997 e um sistema de acesso ao patrimônio genético estruturado pela Lei 13.123/2015, hoje articulado ao Protocolo de Nagoia.
O que ainda falta é tratar propriedade intelectual como política de agregação de valor, e não como etapa burocrática ao final da pesquisa. Quando a PI entra depois, ela apenas registra. Quando entra no desenho do projeto, ela define quem fica com o valor.
Nesse contexto, a biodiversidade amazônica é o nosso ativo mais assimétrico: enorme em potencial, frágil em apropriação. Sem titularidade, cotitularidade e repartição de benefícios acordadas na largada das parcerias internacionais, o risco não é deixar de gerar valor: é gerá-lo e vê-lo capturado fora.
Chegamos à Holanda como potência de volume. Volto convencida de que o próximo salto brasileiro não virá de mais hectares, e sim do que conseguirmos proteger, licenciar e escalar a partir deles.




