segunda-feira, 27/07/2026
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Biocombustíveis ganham espaço como alternativa para descarbonizar plantas industriais existentes

Acordo entre Rio Tinto e Superchar reforça uma estratégia que busca reduzir emissões em processos industriais sem exigir a substituição de refinarias e outras instalações 

 

 

A descarbonização da indústria pesada começa a avançar por um caminho mais pragmático. Em vez de depender exclusivamente da construção de novas plantas ou da adoção de tecnologias ainda em desenvolvimento, empresas têm investido na substituição gradual de combustíveis fósseis por alternativas renováveis capazes de operar na infraestrutura já existente.

Esse movimento ganhou um novo exemplo com o acordo firmado entre a Rio Tinto e a australiana Superchar Limited (SCL). A mineradora utilizará biopellets produzidos a partir de biomassa em suas refinarias de alumina em Gladstone, na Austrália, como parte da estratégia para reduzir emissões de carbono sem modificar significativamente os equipamentos industriais.

Mais do que um contrato de fornecimento, a iniciativa evidencia uma tendência crescente na indústria de base: acelerar a redução das emissões utilizando soluções compatíveis com ativos industriais já instalados.

Descarbonizar sem reconstruir fábricas

O maior desafio da descarbonização industrial não está apenas em encontrar combustíveis de menor impacto ambiental, mas em fazê-los funcionar em instalações projetadas para operar com carvão ou gás natural.

Nas refinarias de alumina, o vapor utilizado durante o processamento da bauxita é produzido, em grande parte, pela queima desses combustíveis fósseis. Segundo o Instituto Internacional do Alumínio (IAI), o refino de alumina e a fundição respondem por aproximadamente 90% das emissões de toda a cadeia produtiva do alumínio, setor responsável por cerca de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa.

 

Leia Mais:

 

No caso das refinarias da Rio Tinto em Gladstone, aproximadamente 75% das emissões estão associadas justamente à geração de vapor para o processo industrial.

Em vez de substituir integralmente essa infraestrutura, a empresa pretende introduzir gradualmente os biopellets nas caldeiras existentes, permitindo avaliar desempenho operacional, estabilidade do processo e potencial de redução de emissões.

Testes mostram compatibilidade com a infraestrutura atual

Os primeiros testes realizados pela Rio Tinto indicaram que os biopellets conseguiram substituir até 30% do carvão utilizado na geração de vapor sem necessidade de modificações significativas nos equipamentos das refinarias.

Com o novo acordo firmado com a Superchar, a empresa ampliará essa etapa de validação, avaliando misturas entre 5% e 50% de biopellets para medir desempenho operacional, custos, confiabilidade do abastecimento e impacto sobre as emissões.

Segundo Armando Torres, diretor de operações da Rio Tinto, a substituição dos combustíveis fósseis dependerá da combinação de diferentes tecnologias e do desenvolvimento gradual dessas soluções em ambiente industrial.

Caso os testes confirmem os resultados esperados, a companhia estima que a utilização dos biopellets poderá reduzir em até 90 mil toneladas anuais as emissões de CO₂ equivalente de Escopo 1 em suas operações de Gladstone.

Biochar amplia opções para setores de difícil eletrificação

A estratégia adotada pela Rio Tinto reflete um desafio comum às chamadas indústrias de difícil abatimento de emissões (hard-to-abate sectors).

Processos como produção de alumínio, cimento, aço e produtos químicos dependem de grandes volumes de calor em altas temperaturas, o que limita a substituição direta dos combustíveis fósseis por eletrificação.

Nesse contexto, combustíveis renováveis produzidos a partir de biomassa, hidrogênio de baixo carbono, captura de carbono e melhorias de eficiência energética vêm sendo avaliados como soluções complementares para reduzir emissões sem comprometer a continuidade operacional das plantas industriais.

Os biopellets fornecidos pela Superchar são produzidos por meio da pirólise do capim-bana, uma gramínea de rápido crescimento cultivada em áreas consideradas marginais para a agricultura. Segundo a empresa, o combustível foi desenvolvido justamente para permitir sua utilização em caldeiras industriais convencionais, reduzindo a necessidade de investimentos em novos equipamentos.

Descarbonização passa a combinar diferentes tecnologias

O projeto de Gladstone integra uma estratégia mais ampla da Rio Tinto para reduzir em 50% suas emissões de Escopos 1 e 2 até 2030, tendo 2018 como ano-base.

Além dos biopellets, a empresa também investe em eletricidade renovável, armazenamento em baterias, pesquisas com hidrogênio, soluções para calor industrial e na tecnologia ELYSIS, desenvolvida para eliminar emissões diretas de carbono durante a etapa de fundição do alumínio.

A combinação dessas iniciativas ilustra uma característica cada vez mais presente nos projetos de descarbonização industrial: não existe uma tecnologia única capaz de resolver todos os desafios do setor.

Em vez disso, empresas vêm construindo estratégias baseadas em diferentes soluções, aplicadas de acordo com as características de cada processo produtivo.

A transição industrial avança por etapas

O acordo entre Rio Tinto e Superchar ainda depende da conclusão dos estudos de viabilidade e da validação operacional em escala comercial. As entregas dos biopellets estão previstas para começar em 2028.

Mesmo assim, a iniciativa demonstra uma mudança importante na estratégia de descarbonização da indústria pesada. Em vez de aguardar tecnologias disruptivas ou a construção de novas instalações, empresas passam a priorizar soluções capazes de reduzir emissões nas plantas que já estão em operação.

Se os resultados forem confirmados, os biocombustíveis poderão ampliar seu papel como alternativa para setores que dependem de calor industrial de alta temperatura, tornando-se mais uma ferramenta para acelerar a transição para uma produção de baixo carbono.

Saiba mais sobre o assunto:

 

O que é descarbonização industrial?
É o conjunto de estratégias utilizadas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa em processos industriais, por meio de tecnologias como eletrificação, combustíveis renováveis, hidrogênio, captura de carbono e aumento da eficiência energética.

Como a Rio Tinto pretende reduzir as emissões de suas refinarias?
A empresa está testando a substituição gradual do carvão por biopellets produzidos a partir de biomassa, utilizando as caldeiras já existentes nas refinarias de alumina.

O que é biochar?
Biochar é um material rico em carbono obtido pela pirólise de biomassa. Além de aplicações agrícolas, tecnologias derivadas desse processo podem ser utilizadas na produção de combustíveis renováveis para processos industriais.

Por que o refino de alumina é um desafio para a descarbonização?
O processo exige grandes quantidades de calor em altas temperaturas para gerar vapor, o que ainda depende, em grande parte, da queima de carvão ou gás natural.

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