Ensaio clínico identificou mudanças epigenéticas relacionadas à inflamação, ao metabolismo e à função imunológica
Uma dieta vegana foi associada a alterações em marcadores moleculares relacionados ao envelhecimento biológico após apenas quatro semanas. O resultado foi observado em um ensaio clínico randomizado realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego), nos Estados Unidos, e da Universidade de Freiburg, na Alemanha.
O estudo analisou padrões de metilação do DNA de 48 adultos saudáveis submetidos a dietas com ingestão calórica semelhante. Enquanto um grupo seguiu uma alimentação vegana, outro recebeu uma dieta rica em carne. Ao final do período, dois relógios epigenéticos associados a desfechos de saúde indicaram sinais de envelhecimento biológico mais lento entre os participantes do grupo vegano.
Os pesquisadores também identificaram alterações relacionadas à função imunológica, inflamação, metabolismo, sinalização de insulina e mecanismos de reparo do DNA.
Os resultados, publicados na revista científica MedComm, mostram que mudanças na composição da alimentação podem produzir respostas moleculares mensuráveis em um período relativamente curto. Os próprios autores, porém, destacam que o estudo envolveu uma amostra pequena e durou apenas um mês, o que impede concluir se os efeitos observados persistem no longo prazo ou se resultam em benefícios clínicos duradouros.
Alimentação provocou mudanças no epigenoma
Para investigar os efeitos da dieta independentemente de uma simples redução de calorias, os pesquisadores submeteram inicialmente todos os participantes à mesma alimentação padronizada durante uma semana.
Depois desse período, os 48 adultos foram distribuídos aleatoriamente entre os dois padrões alimentares. As dietas foram formuladas para oferecer ingestão calórica semelhante, permitindo aos cientistas analisar com maior precisão os efeitos associados à composição dos alimentos consumidos.
Antes e depois da intervenção, foram avaliados mais de 800 mil locais de metilação do DNA em amostras de sangue.
A metilação é um mecanismo epigenético capaz de regular a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA. Alterações nesses padrões podem estar relacionadas a diferentes processos biológicos e são utilizadas pelos pesquisadores para estudar como fatores ambientais e comportamentais interagem com a expressão genética.
“Nosso estudo reforça as evidências crescentes de que a nutrição pode moldar a biologia em nível molecular”, afirmou Max Storz, coautor sênior do trabalho e pesquisador do Centro Médico da Universidade de Freiburg.
Mudanças foram observadas em processos imunológicos e metabólicos
As análises apontaram diferenças entre os dois grupos em mecanismos relacionados à resposta imunológica e ao metabolismo.
A partir dos padrões de metilação, os pesquisadores estimaram proporções menores de neutrófilos — células do sistema imunológico envolvidas em processos inflamatórios — e níveis mais elevados de células T CD4, responsáveis por ajudar na regulação das respostas imunológicas.
Também foram observadas alterações em vias relacionadas ao metabolismo lipídico, à sinalização da insulina, ao reparo do DNA e às respostas celulares ao estresse.
Outro resultado foi o aumento da metilação em regiões promotoras relacionadas a vias de crescimento celular e câncer, alteração que pode reduzir a atividade desses genes.
Para Lukas Karbacher, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-graduação em neurociência na UC San Diego, a convergência entre diferentes marcadores reforçou que as alterações identificadas não estavam restritas às análises computacionais.
Relógios epigenéticos apontaram diferenças no envelhecimento biológico
Uma das principais análises do estudo envolveu os chamados relógios epigenéticos, modelos matemáticos que utilizam padrões de metilação do DNA para estimar diferentes aspectos da idade biológica.
Os pesquisadores utilizaram três desses modelos.
Dois relógios desenvolvidos para prever desfechos relacionados à saúde apontaram para envelhecimento biológico mais lento no grupo que seguiu a dieta vegana. Já um terceiro, desenvolvido para estimar a idade cronológica, não apresentou o mesmo resultado.
A diferença é relevante porque indica que os relógios epigenéticos não necessariamente medem o mesmo fenômeno.
“Nem todas as medidas de envelhecimento biológico capturam os mesmos processos biológicos”, explicou Jerome Mertens, coautor sênior e professor associado de neurociências da Faculdade de Medicina da UC San Diego.
Segundo ele, o fato de os modelos associados à saúde e ao risco de doenças apresentarem resultados na mesma direção sugere que as alterações provocadas pela dieta podem estar relacionadas a vias ligadas à saúde, e não simplesmente à passagem do tempo.
Resposta molecular ocorreu em apenas quatro semanas
Para os pesquisadores, um dos aspectos relevantes do trabalho é a velocidade com que as alterações foram identificadas.
Em apenas quatro semanas, a mudança na composição da dieta foi acompanhada por modificações mensuráveis no epigenoma dos participantes.
“Nossos genes não são o nosso destino”, afirmou Mertens. Segundo o pesquisador, o resultado mostra que a biologia humana pode responder às escolhas alimentares em um intervalo relativamente curto.
O estudo acrescenta uma nova dimensão às pesquisas que investigam a relação entre padrões alimentares e saúde. Em vez de observar apenas indicadores clínicos tradicionais, como peso, colesterol ou glicemia, os pesquisadores analisaram mecanismos moleculares potencialmente envolvidos nessa relação.
Estudo não permite concluir efeito de longo prazo
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o trabalho não demonstra que uma dieta vegana seja capaz de retardar de forma permanente o envelhecimento humano.
A pesquisa acompanhou apenas 48 adultos saudáveis durante um mês. Também não foi possível determinar se as alterações epigenéticas observadas permaneceriam depois do período experimental ou se seriam traduzidas em redução do risco de doenças e outros benefícios clínicos ao longo dos anos.
“O próximo passo é entender se essas alterações epigenéticas persistem ao longo do tempo e se resultam em melhorias significativas para a saúde a longo prazo”, afirmou Storz.
Para isso, serão necessários ensaios clínicos maiores e de maior duração.
Os resultados mostram, por enquanto, que a composição da alimentação pode produzir alterações moleculares detectáveis rapidamente e abrem uma nova frente para investigar como diferentes padrões alimentares podem interferir nos mecanismos biológicos associados à saúde e ao envelhecimento.
Saiba mais sobre o assunto:
Dieta vegana pode retardar o envelhecimento biológico?
O estudo encontrou sinais de envelhecimento biológico mais lento em dois relógios epigenéticos entre participantes que seguiram uma dieta vegana por quatro semanas. No entanto, a pesquisa não permite concluir que a dieta retarde o envelhecimento humano no longo prazo.
O que são relógios epigenéticos?
São modelos matemáticos que analisam padrões de metilação do DNA para estimar diferentes aspectos da idade biológica. No estudo, dois relógios relacionados a desfechos de saúde apontaram resultados favoráveis ao grupo vegano, enquanto um terceiro, voltado à idade cronológica, não apresentou o mesmo resultado.
Quanto tempo durou o estudo sobre dieta vegana e envelhecimento biológico?
O ensaio acompanhou 48 adultos saudáveis. Após uma semana de alimentação padronizada, os participantes foram distribuídos entre uma dieta vegana e uma dieta rica em carne durante quatro semanas.
Quais alterações foram encontradas no grupo que seguiu a dieta vegana?
Os pesquisadores identificaram mudanças na metilação do DNA relacionadas à função imunológica, inflamação, metabolismo, sinalização de insulina, reparo do DNA e respostas celulares ao estresse.
Quais são as limitações da pesquisa?
O estudo teve apenas 48 participantes e duração de quatro semanas. Ainda não é possível saber se as alterações epigenéticas persistem no longo prazo ou se resultam em benefícios clínicos duradouros.




