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ECOFERM testa fermentação contínua em busca de maior produtividade para proteínas de precisão

Consórcio vai combinar uma plataforma de biorreator já testada em outros bioprocessos com retenção de biomassa por aglomeração celular; ganhos para proteínas alimentares ainda precisam ser demonstrados

 

 

Um consórcio formado por NIZO Food Research, DAB.bio, Vivici, dsm-firmenich e Van Hall Larenstein University of Applied Sciences vai testar uma abordagem de fermentação contínua que busca manter as células produtoras dentro do biorreator enquanto a proteína é retirada do processo.

O projeto ECOFERM pretende combinar operação contínua com retenção de biomassa in situ por meio de aglomeração celular controlada. Proteínas obtidas por fermentação de precisão, entre elas a beta-lactoglobulina, serão usadas como casos de demonstração.

A proposta mira um problema importante para a economia da fermentação de precisão: quanto produto um equipamento consegue gerar por volume e por unidade de tempo, durante quanto tempo e com que estabilidade.

O ECOFERM ainda está no início. O projeto não demonstrou aumento de produtividade ou redução de custo para proteínas alimentares. Seu objetivo é verificar se uma configuração contínua com retenção das células pode melhorar o aproveitamento do biorreator sem introduzir complexidade suficiente para anular uma eventual vantagem.

Uma plataforma existente entra em nova aplicação

Parte da tecnologia sobre a qual o ECOFERM trabalhará já existe.

A DAB.bio desenvolve o FAST, sistema que integra fermentação e separação dentro da mesma plataforma e permite retirar continuamente determinados produtos durante o processo.

Em 2022, a empresa colocou em operação uma unidade FAST de 500 litros na Bio Base Europe Pilot Plant, na Bélgica. Segundo a DAB.bio, os primeiros testes envolveram três tipos de compostos — butanol, um álcool aromático e um terpeno — e utilizaram retirada contínua de produto. A instalação também foi projetada para funcionar em conjunto com um fermentador de 15 mil litros.

 

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Esses antecedentes mostram que a arquitetura de fermentação e separação contínua não está sendo criada no ECOFERM. Mas são aplicações diferentes da produção de proteínas alimentares e, portanto, não permitem atribuir ao novo projeto o mesmo desempenho.

A etapa que o consórcio pretende desenvolver acrescenta outro desafio: manter as células produtoras dentro do reator durante uma operação contínua.

Por que reter as células importa

Em uma fermentação contínua, meio de cultivo pode entrar no biorreator enquanto material é retirado continuamente. Dependendo da configuração, células também podem sair com esse fluxo.

Isso cria a necessidade de mantê-las no sistema ou recuperá-las para preservar uma concentração celular capaz de sustentar a produção.

O ECOFERM pretende explorar uma estratégia baseada em aglomeração celular controlada. A ideia é fazer com que as células formem agregados que possam permanecer no biorreator enquanto o produto segue para as etapas posteriores.

O projeto investigará como controlar e manter essa aglomeração, otimizar o reator FAST, avaliar a robustez do processo e desenvolver estratégias de ampliação de escala.

A abordagem busca reduzir a dependência de métodos de retenção celular que podem acrescentar equipamentos e operações ao processo, como membranas ou centrifugação. Isso não significa, porém, que essas etapas já tenham sido eliminadas pelo ECOFERM ou que deixariam de ser necessárias em todo o processamento da proteína.

O problema da produtividade

A possível vantagem econômica da fermentação contínua está ligada, entre outros fatores, ao uso do equipamento.

Processos batch e fed-batch funcionam em campanhas. Ao final de cada uma, o fermentador precisa passar por etapas como esvaziamento, limpeza, esterilização e preparação antes de voltar a produzir.

Uma operação contínua estável pode reduzir a frequência desses intervalos e aumentar o tempo efetivamente dedicado à produção. Mas isso não significa que o modo contínuo seja, por definição, mais produtivo ou barato.

A literatura sobre fermentação contínua mostra que os resultados dependem do organismo, da proteína, das condições do cultivo e do desenho do processo. Há casos em que operações contínuas alcançam produtividade superior e outros em que processos fed-batch bem otimizados apresentam desempenho competitivo ou melhor.

Além disso, campanhas prolongadas trazem seus próprios desafios, como contaminação, estabilidade genética e fenotípica dos microrganismos, manutenção da produtividade e controle do processo.

Para proteínas alimentares, a economia também não termina no biorreator. Rendimento, concentração do produto, composição do meio, consumo de recursos, purificação e outras operações de downstream ajudam a determinar o custo final.

É por isso que o ECOFERM precisará demonstrar mais do que a possibilidade de manter uma fermentação funcionando continuamente.

Beta-lactoglobulina como caso de demonstração

Entre as proteínas previstas para os testes está a beta-lactoglobulina, uma das principais proteínas do soro do leite bovino.

A escolha aproxima o projeto de uma aplicação comercial concreta. A Vivici, integrante do consórcio, já produz beta-lactoglobulina por fermentação de precisão e levou seu processo a fermentações de maior escala.

A documentação pública do ECOFERM não esclarece, porém, se haverá comparação direta entre a nova configuração contínua e o processo atualmente utilizado pela empresa.

Esse tipo de benchmark seria importante porque permitiria avaliar a nova abordagem diante de um processo já desenvolvido para a mesma proteína, em vez de compará-la apenas com referências genéricas de fermentação batch ou fed-batch.

A beta-lactoglobulina funciona, portanto, como um teste para uma pergunta maior que a própria molécula: uma configuração contínua com retenção de biomassa consegue tornar o biorreator mais produtivo sem criar novos custos e dificuldades operacionais que neutralizem o ganho?

Para responder, o projeto terá de medir fatores como produtividade volumétrica, duração das campanhas, estabilidade do organismo produtor, eficiência da retenção celular e desempenho durante o aumento de escala.

Se esses indicadores mostrarem vantagem, a abordagem poderá oferecer uma forma de produzir mais utilizando determinada capacidade instalada. Se não mostrarem, o ganho teórico de operar continuamente pode perder relevância diante da complexidade adicional.

É essa comparação que torna o ECOFERM relevante para a fermentação de precisão neste estágio: não porque já tenha resolvido o custo ou a escala das proteínas produzidas por microrganismos, mas porque coloca à prova uma estratégia de engenharia de processo para usar de maneira mais eficiente uma das partes mais caras da infraestrutura de produção.

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