sexta-feira, 21/08/2026
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De rocha a insumo agrícola: tecnologia acelera processo natural de captura de carbono

Método desenvolvido em Stanford torna minerais mais reativos e amplia seu potencial de uso na agricultura

 

 

Uma tecnologia desenvolvida a partir de pesquisas da Universidade de Stanford está propondo uma nova abordagem para o uso de rochas de silicato na agricultura. Em vez de depender apenas do intemperismo natural desses minerais depois de espalhados no solo, a startup Mafix realiza um processamento prévio capaz de torná-los mais reativos.

A proposta é acelerar significativamente uma reação geológica que naturalmente remove dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera e, ao mesmo tempo, transformar o material resultante em um insumo com possíveis benefícios agronômicos.

A tecnologia parte do chamado intemperismo acelerado de rochas, conhecido pela sigla ERW (Enhanced Rock Weathering). O processo convencional utiliza rochas de silicato trituradas, como basalto ou olivina, que são aplicadas em áreas agrícolas. Em contato com a água, esses minerais passam por reações químicas que consomem CO₂ atmosférico e podem armazená-lo de maneira estável.

O problema é a velocidade. Minerais utilizados no ERW convencional podem levar longos períodos para se dissolver, dificultando não apenas a remoção mais rápida de carbono, mas também sua medição e verificação.

Uma etapa antes de chegar ao campo

A inovação da Mafix acontece antes da aplicação agrícola. A tecnologia, desenvolvida por Matt Kanan e Jade Marcus em Stanford, aquece uma combinação de minerais de silicato e calcário em condições semelhantes às encontradas em fornos utilizados pela indústria de cimento.

O processo provoca uma troca iônica em estado sólido e produz silicatos de cálcio e magnésio mais reativos.

Quando posteriormente aplicados ao solo, esses minerais se dissolvem mais rapidamente do que as matérias-primas originais, acelerando o processo de intemperismo e, consequentemente, a reação responsável pela remoção de CO₂.

Segundo a Mafix, aumentar a velocidade também pode resolver uma das dificuldades do ERW: medir quanto carbono foi efetivamente removido.

 

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Em sistemas convencionais, a dissolução lenta pode produzir alterações químicas difíceis de distinguir das variações naturais existentes no solo e na água. Um processo mais rápido tende a gerar um sinal mais evidente, facilitando os sistemas de medição, relato e verificação, conhecidos como MRV.

Resultados iniciais indicam reação mais rápida

A química que sustenta a tecnologia foi apresentada em um artigo científico publicado em 2025 na revista Nature, a partir do laboratório de Matt Kanan em Stanford.

Segundo Jade Marcus, uma das rochas de silicato avaliadas nos experimentos foi completamente carbonatada em sete semanas, alcançando sua capacidade máxima de reação com o CO₂.

A empresa também realizou experimentos em mesocosmos, sistemas controlados que permitem acompanhar com maior precisão as entradas e saídas do processo.

Nesses testes, de acordo com Marcus, o material removeu mais de 4,7 toneladas de CO₂ em dez semanas. No mesmo período, basalto e olivina utilizados como referência apresentaram remoção praticamente nula.

Os resultados demonstram a maior velocidade da reação em condições experimentais. A próxima etapa será avaliar o comportamento da tecnologia em escala maior e sob diferentes condições agrícolas.

Da remoção de carbono para a nutrição das plantas

A ambição da Mafix, no entanto, não termina na captura de carbono. O material desenvolvido pela empresa também é apresentado como fonte de silício em formas potencialmente assimiláveis pelas plantas.

Embora o silício esteja naturalmente presente nos solos, grande parte não se encontra prontamente disponível para absorção pelas culturas. A proposta é que o processamento dos minerais permita liberar esse elemento de maneira mais acessível.

A empresa também investiga se o produto pode melhorar a eficiência no uso de nutrientes como nitrogênio e fósforo. Entre as possibilidades estudadas estão ainda maior resistência das plantas à seca, pragas e doenças fúngicas e redução do acamamento, quando caules se dobram ou caem.

Esses benefícios agronômicos, entretanto, ainda precisam ser comprovados em maior escala.

A própria Mafix reconhece que necessita de mais dados de campo antes de fazer afirmações sobre o desempenho do produto nas culturas.

Produto também pode atuar na correção do solo

Outro possível uso está relacionado à acidez. Segundo dados apresentados pela empresa, o produto possui equivalente em carbonato de cálcio (CCE) de 126%, indicador utilizado para avaliar a capacidade de um material de neutralizar a acidez.

Em uma comparação por peso, o índice é superior ao do calcário agrícola convencional, abrindo a possibilidade de que o material também desempenhe uma função corretiva no solo.

No futuro, a Mafix considera inclusive incorporar a tecnologia a fertilizantes convencionais. Uma das possibilidades seria substituir materiais inertes utilizados como enchimento em algumas misturas NPK por seu produto mineral.

A estratégia busca fazer com que a viabilidade da tecnologia não dependa exclusivamente da geração de créditos de carbono.

Processamento também gera emissões

A etapa adicional que torna os minerais mais reativos, porém, traz um custo ambiental.

O processamento demanda energia e provoca emissão de CO₂ antes que o produto seja aplicado ao solo.

A Mafix argumenta que essas emissões são compensadas pelos ganhos posteriores de eficiência. Segundo Marcus, o processamento resulta em uma triplicação da alcalinidade total que pode ser removida.

A viabilidade ambiental do método, portanto, dependerá do balanço entre as emissões geradas durante a produção e o carbono posteriormente removido, especialmente quando a tecnologia avançar para escalas maiores.

Testes maiores serão realizados nos Estados Unidos

A Mafix pretende agora sair dos experimentos menores para ampliar a validação em campo.

A empresa captou US$ 5,4 milhões em uma rodada pre-seed liderada pela Azolla Ventures, com participação de Counteract VC, Astera Institute, Plug and Play Ventures, Impact Science Ventures e um family office holandês.

Parte dos recursos será destinada à produção de aproximadamente 1.000 toneladas do material para testes agrícolas em diferentes regiões dos Estados Unidos.

O volume permitirá aplicações em uma área estimada entre 400 e 800 hectares, dependendo da quantidade utilizada por hectare.

A expansão dos experimentos será importante para responder à principal questão que ainda acompanha a tecnologia: se a aceleração do intemperismo demonstrada em condições controladas conseguirá se traduzir, no campo, em uma combinação economicamente viável de remoção de carbono e benefícios para a produção agrícola.

Se isso ocorrer, o avanço pode ampliar o papel do intemperismo acelerado de rochas. Em vez de funcionar apenas como uma tecnologia climática aplicada à agricultura, o material poderá se tornar um insumo agrícola cujo valor está também no que entrega às próprias culturas.

 

Saiba mais sobre o assunto:

 

O que é intemperismo acelerado de rochas?
É uma abordagem que utiliza rochas de silicato trituradas para acelerar reações naturais que consomem CO₂ atmosférico. Os minerais podem ser aplicados em áreas agrícolas, onde reagem com água e dióxido de carbono.

Como funciona a tecnologia desenvolvida pela Mafix?
A Mafix aquece minerais de silicato e calcário, provocando uma troca iônica em estado sólido que produz silicatos de cálcio e magnésio mais reativos. Quando aplicados ao solo, esses materiais se dissolvem mais rapidamente.

A tecnologia da Mafix já foi testada?
A química foi apresentada em um artigo de 2025 na Nature. Segundo a cofundadora Jade Marcus, uma das rochas testadas foi completamente carbonatada em sete semanas. Em experimentos de mesocosmos, o material removeu mais de 4,7 toneladas de CO₂ em dez semanas.

O material pode funcionar como fertilizante?
A Mafix investiga o uso do produto como fonte de silício assimilável pelas plantas e seu possível impacto sobre a eficiência de nutrientes. A própria empresa ressalta, porém, que ainda precisa de mais dados de campo para comprovar os benefícios agronômicos.

A produção do material também gera emissões de carbono?
Sim. O processamento exige energia e libera CO₂. A Mafix afirma que essas emissões são compensadas pelos ganhos posteriores de eficiência e pela maior capacidade de remoção proporcionada pelo material.

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