quinta-feira, 20/08/2026
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Nestlé direciona P&D para alimentos voltados a usuários de GLP-1

Companhia pesquisa soluções para massa muscular, hidratação e nutrição durante e após os tratamentos

 

 

A Nestlé está direcionando parte de sua estratégia de pesquisa e desenvolvimento para criar alimentos e soluções nutricionais voltados às necessidades de consumidores que utilizam medicamentos GLP-1 para perda de peso. A companhia também emprega inteligência artificial para analisar pesquisas clínicas, identificar combinações de nutrientes e acelerar o desenvolvimento e a reformulação de produtos.

A estratégia parte dos efeitos provocados pela redução rápida de peso e pela menor ingestão de alimentos entre usuários desses medicamentos. Entre os pontos estudados pela empresa estão perda de massa muscular, hidratação, ingestão adequada de nutrientes e alterações que podem ocorrer após a interrupção do tratamento.

Em entrevista à Reuters, Stefan Palzer, diretor de tecnologia da Nestlé, afirmou que a companhia considera o avanço dos medicamentos GLP-1 uma oportunidade para desenvolver produtos direcionados às novas necessidades nutricionais desse público. Cerca de 16 milhões de pessoas já utilizam medicamentos da classe nos Estados Unidos, segundo estimativa do Boston Consulting Group citada pela agência.

A Nestlé já levou essa estratégia ao mercado com produtos de maior densidade proteica e agora amplia o trabalho para o desenvolvimento de novas combinações de nutrientes e para o uso de inteligência artificial no processo de P&D.

Perda muscular entra no desenvolvimento de novos produtos

Uma das principais áreas investigadas pela Nestlé é a preservação da massa muscular durante a perda de peso.

A redução do peso corporal pode envolver não apenas gordura, mas também massa magra. Diante disso, a companhia vem trabalhando com produtos de maior teor proteico e pesquisando combinações de nutrientes direcionadas à saúde muscular.

Segundo Palzer, pesquisadores da Nestlé identificaram uma combinação de dois micronutrientes que já passou pelo processo de industrialização e que, segundo a companhia, pode estimular o crescimento do tecido muscular quando associada ao fornecimento de proteínas. A composição específica não foi divulgada.

 

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A alegação apresentada pela empresa não significa, no entanto, que os resultados clínicos dessa solução tenham sido detalhados publicamente no material divulgado. A informação disponível permite identificar o avanço do desenvolvimento industrial, mas não avaliar de forma independente sua eficácia.

A companhia também vem incorporando proteína de colágeno a produtos da marca Vital Proteins, dentro de uma estratégia voltada à pele, cabelos e unhas durante processos de perda rápida de peso.

Outros produtos já comercializados mostram como a estratégia está chegando às formulações. Nos Estados Unidos, o Boost Advanced Nutrition Shake oferece 35 gramas de proteína e é posicionado para suporte à saúde muscular durante a perda de peso. Em mercados da Ásia e da Austrália, a empresa introduziu o Milo PRO High Protein.

P&D também olha para o período após o GLP-1

A estratégia da Nestlé não está limitada ao período em que os medicamentos são utilizados.

A empresa também pesquisa soluções para uma etapa posterior ao tratamento. Segundo Palzer, a Nestlé patenteou combinações proprietárias de ingredientes destinadas a consumidores que apresentam aumento do apetite depois de interromper o uso dos medicamentos GLP-1.

Esse trabalho amplia o campo de desenvolvimento de alimentos relacionado aos medicamentos. Além de produtos formulados para acompanhar uma ingestão alimentar reduzida, a empresa passa a investigar soluções para diferentes momentos da jornada de controle de peso.

Proteína, micronutrientes, hidratação e densidade nutricional entram nesse processo como variáveis de formulação a serem trabalhadas de acordo com as necessidades identificadas pela companhia.

Inteligência artificial entra no processo de formulação

A inteligência artificial funciona como uma das ferramentas utilizadas pela Nestlé para acelerar esse trabalho.

A companhia emprega sistemas de IA para processar grandes volumes de literatura clínica e buscar combinações de nutrientes que possam ser investigadas por seus pesquisadores. A tecnologia também é aplicada à análise de tendências, comportamento do consumidor e reformulação de produtos.

Uma dessas ferramentas é o Food Genie, plataforma interna que permite aos cientistas e desenvolvedores navegar por uma base de aproximadamente 120 mil receitas.

O sistema é utilizado para prever como diferentes receitas podem se comportar e identificar oportunidades de reformulação. A dimensão da base de dados é considerada pela Nestlé uma vantagem para o uso desses modelos.

“IA precisa de dados”, afirmou Palzer à Reuters ao explicar a importância do volume de informações acumulado pela companhia para o desenvolvimento das ferramentas.

A Nestlé também testa simulações de consumidores realizadas por inteligência artificial para estimar possíveis respostas a novos produtos e alegações antes da chegada ao mercado. Outra aplicação é o acompanhamento de redes sociais para identificar sinais que possam indicar mudanças mais duradouras no comportamento dos consumidores.

Nesse processo, a IA não substitui as etapas de pesquisa e desenvolvimento. Ela funciona como ferramenta para analisar grandes conjuntos de informações, selecionar possibilidades e orientar caminhos que posteriormente precisam passar pelo desenvolvimento científico e industrial.

GLP-1 amplia desafios para a formulação de alimentos

O movimento da Nestlé ocorre enquanto os medicamentos para perda de peso começam a modificar as demandas que chegam aos departamentos de inovação da indústria de alimentos.

O impacto vai além da redução das porções consumidas. Para o desenvolvimento de produtos, a menor ingestão alimentar cria questões relacionadas à quantidade e à qualidade dos nutrientes fornecidos em volumes menores, enquanto a perda de massa magra amplia a atenção sobre proteínas e outros componentes associados à saúde muscular.

Outras companhias também vêm desenvolvendo produtos relacionados a esse cenário. A Danone, por exemplo, lançou anteriormente o Oikos Fusion, formulado para usuários de medicamentos GLP-1 com ingredientes direcionados à saúde muscular e à saciedade.

No caso da Nestlé, porém, a estratégia avança para diferentes etapas do P&D: da análise de literatura científica e identificação de combinações nutricionais à reformulação de receitas, industrialização e avaliação do comportamento do consumidor.

O avanço dos GLP-1 passa, assim, a representar também um problema de desenvolvimento para a FoodTech: como formular alimentos para consumidores que comem menos, precisam preservar a qualidade nutricional da dieta e podem apresentar necessidades diferentes durante e depois do tratamento.

A resposta da Nestlé está sendo construída pela combinação entre ciência da nutrição, desenvolvimento de ingredientes e inteligência artificial — ferramentas que a companhia começa a incorporar ao desenho de produtos direcionados a esse novo contexto de consumo.

 

Saiba mais sobre o assunto:

 

Por que a Nestlé está desenvolvendo alimentos para usuários de GLP-1?
A companhia identifica necessidades relacionadas à menor ingestão alimentar e à perda de peso durante o uso desses medicamentos, incluindo preservação da massa muscular, hidratação e ingestão adequada de nutrientes.

Como a inteligência artificial é utilizada pela Nestlé no desenvolvimento de alimentos?
A Nestlé utiliza inteligência artificial para analisar literatura clínica, investigar combinações de nutrientes, identificar oportunidades de reformulação e analisar tendências e comportamento do consumidor.

O que é o Food Genie da Nestlé?
O Food Genie é uma ferramenta interna que permite aos pesquisadores e desenvolvedores da Nestlé trabalhar com uma base de aproximadamente 120 mil receitas para avaliar possibilidades de reformulação.

A Nestlé pesquisa produtos para depois da interrupção do GLP-1?
Sim. Segundo a empresa, foram patenteadas combinações de ingredientes destinadas ao período posterior à interrupção dos medicamentos, quando pode ocorrer aumento do apetite.

Qual é a relação entre proteínas e alimentos para usuários de GLP-1?
A preservação da massa muscular durante a perda de peso é uma das questões consideradas no desenvolvimento desses produtos. Por isso, proteínas e outros nutrientes relacionados à saúde muscular estão entre os componentes pesquisados pela indústria.

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