Projeto de 300 mil litros utilizará fermentação com iluminação controlada para produzir ingredientes alimentícios; primeira fase prevê capacidade de 100 mil litros
A empresa israelense Brevel e o grupo indiano Wave Group anunciaram, em 21 de outubro, uma parceria para construir uma fábrica de ingredientes derivados de microalgas em Uttar Pradesh, no norte da Índia. O empreendimento terá capacidade total planejada de 300 mil litros e utilizará uma tecnologia de fermentação que combina nutrientes orgânicos e iluminação controlada durante o cultivo dos microrganismos.
As empresas estabeleceram uma joint venture com participação igualitária para desenvolver a instalação. Segundo Yonatan Golan, cofundador e CEO da Brevel, a primeira fase do projeto prevê capacidade de 100 mil litros.
A iniciativa busca ampliar a aplicação industrial da fermentação iluminada, tecnologia já utilizada pela Brevel em Israel, onde a empresa declara operar um biorreator de 5 mil litros. A proposta é produzir ingredientes alimentícios em sistemas fechados de cultivo e, futuramente, disponibilizar infraestrutura para outras aplicações biotecnológicas.
Como funciona a fermentação iluminada
A tecnologia desenvolvida pela Brevel combina o fornecimento de nutrientes orgânicos, como açúcares, com iluminação interna por LEDs durante o cultivo de microalgas.
Nos processos convencionais de fermentação heterotrófica, os microrganismos utilizam fontes orgânicas de carbono para crescer sem depender da luz. Já nos sistemas fototróficos, a iluminação participa diretamente do metabolismo dos organismos.
A fermentação iluminada reúne essas condições em biorreatores fechados. O sistema permite cultivar microalgas capazes de utilizar nutrientes orgânicos e responder à iluminação, que pode influenciar a formação de pigmentos e outros compostos de interesse.
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A abordagem também se diferencia da fermentação de precisão convencional, frequentemente empregada para produzir moléculas específicas, como proteínas, utilizando microrganismos selecionados ou geneticamente modificados. No processo da Brevel, uma das aplicações é a produção de biomassa de microalgas destinada à fabricação de ingredientes.
A empresa possui documentação de patente que descreve a incorporação de fontes de luz no interior de fotobiorreatores. Essa configuração busca permitir o controle da iluminação durante o cultivo, inclusive em equipamentos fechados de maior capacidade.
Ingrediente de microalgas será o primeiro produto
A produção inicial anunciada para a fábrica indiana será dedicada ao Purallis, ingrediente desenvolvido pela Brevel a partir da biomassa de Chlorella vulgaris.
O produto utiliza microalgas com células rompidas e contém proteínas, pigmentos e outros componentes naturalmente presentes na biomassa. Segundo a empresa, suas aplicações incluem suplementos, alimentos, bebidas e formulações de nutrição funcional.
A utilização da biomassa diferencia o ingrediente de produtos obtidos pelo isolamento de uma fração específica da microalga, como concentrados proteicos.
A Brevel também desenvolve proteínas concentradas, isolados proteicos e lipídios, mas esses ingredientes não foram identificados como produtos previstos para a etapa inicial da instalação na Índia.
Outra possibilidade apresentada pelas empresas é disponibilizar capacidade industrial para terceiros que trabalham com cultivo de células vegetais. Essa aplicação envolve o desenvolvimento de compostos de interesse a partir de células de plantas cultivadas em condições controladas.
A Brevel já mantém uma colaboração nessa área com a norte-americana Ayana Bio. O projeto recebeu apoio anunciado de US$ 1,25 milhão da BIRD Foundation, em junho de 2026, para desenvolver a produção de compostos bioativos por cultivo de células vegetais utilizando fermentação iluminada.
A colaboração representa uma frente de pesquisa e desenvolvimento, não um contrato de produção comercial na futura fábrica indiana.
Projeto pretende ampliar capacidade industrial
A Brevel informa que sua plataforma tecnológica já opera com equipamentos de diferentes capacidades, incluindo um biorreator de 5 mil litros em sua instalação em Israel.
Além do cultivo, a infraestrutura descrita pela empresa contempla etapas de processamento da biomassa, como concentração, ruptura celular e secagem.
Na Índia, a primeira fase de 100 mil litros representaria uma capacidade nominal 20 vezes maior que a do biorreator israelense de 5 mil litros. O empreendimento completo, com 300 mil litros, corresponderia a 60 vezes esse volume.
Esses números indicam a dimensão da expansão planejada, mas não permitem calcular a produção efetiva da futura unidade. O rendimento industrial dependerá também de fatores como concentração de biomassa, duração dos ciclos de cultivo e eficiência das etapas de processamento.
A documentação pública consultada não apresenta resultados suficientes para estabelecer a produtividade ou os custos operacionais esperados nessa escala.
Parceria prevê integração com a cadeia açucareira indiana
Pelo acordo anunciado, a Brevel contribuirá com sua tecnologia de fermentação iluminada, enquanto o Wave Group será responsável pelo financiamento da instalação.
O grupo indiano mantém atividades na indústria açucareira, setor que poderá fornecer matérias-primas para o cultivo das microalgas.
Como o processo utiliza fontes orgânicas de carbono, as empresas investigam o aproveitamento de insumos provenientes da produção de açúcar, incluindo melaço, açúcar bruto e intermediários ricos em sacarose.
Segundo Golan, testes preliminares com esses materiais indicaram potencial de redução de custos, mas o trabalho ainda está em desenvolvimento. Não foram divulgados resultados quantitativos que permitam verificar a economia obtida ou eventuais benefícios ambientais.
O comunicado da parceria estima um investimento entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões. Em entrevista ao AgFunderNews, o CEO da Brevel associou o valor de US$ 15 milhões à primeira fase de 100 mil litros e explicou que a construção do edifício e a infraestrutura básica seriam financiadas separadamente pelo Wave Group.
Dessa forma, o orçamento divulgado não corresponde necessariamente ao custo integral do empreendimento de 300 mil litros.
As empresas anunciaram a intenção de iniciar a construção ainda em 2026, com produção em escala plena prevista em um horizonte de 18 meses. Golan também mencionou 2028 como referência para o início das operações da joint venture.
Até a documentação examinada nesta reportagem, não havia confirmação pública do início das obras ou da instalação dos equipamentos em Uttar Pradesh.
O projeto prevê iniciar as atividades com ingredientes de Chlorella vulgaris e ampliar posteriormente a capacidade industrial, mantendo a possibilidade de utilizar a plataforma para o cultivo de células vegetais.




